Crítica | Operação Fronteira

“Estou cansado de prender todos vocês apenas para encontrá-los de volta aqui.”

Já cansado de não conseguir realmente mudar o mundo com o seu trabalho, onde atua para uma organização militar particular na Colômbia e combate às drogas, Santiago “Pope” Garcia (Oscar Isaac) opta por mexer alguns pauzinhos ele mesmo. Uma passagem do início do longa marca essa insatisfação coletiva, ao citar que criminosos apreendidos terminam retornando às ruas. Com isso, Operação Fronteira diagnosticou sua missão e, narrativamente, compromete o seu começo para situar os seus espectadores num heist movie comum, embora tematicamente mais elaborado. Pope e mais a sua equipe, recrutada posteriormente, irão invadir uma casa perdida entre as fronteiras de países da América do Sul, que abriga um chefão do crime, assim como um monte de cédulas. Mas as reais problemáticas aparecerão só quando esta esquadra mostrar-se contraditória.

Curioso que os maiores perigos vivenciados pela equipe protagonista de Operação Fronteira não surjam dos traficantes combatidos – um pretexto moral depois destroçado -, porém, da própria natureza, tanto a externa quanto a interna ao ser. Em consequência, uma lógica mais justiceira, acerca desses soldados, atualmente vistos como mais um e cheios de problemas, tornarem-se verdadeiros heróis, é questionada com competência. Heróis para quem? Por exemplo, a segunda metade da obra, após os eventos premeditados pela premissa, é enfocada numa jornada por áreas fronteiriças. O filme, antes ambientado em regiões mais urbanas, passa a ser encenado em meio a cenários como florestas, montanhas e praias. E a ganância, ironicamente, desponta como o maior revés que o grupo irá enfrentar. Operação Fronteira retrata o grande inimigo do homem: sua moral.

J. C. Chandor, portanto, é sarcástico em como expõe essa aura em que o interesse é revestido por justiça. A exemplo, um garoto vê aqueles que mancharam eternamente sua vida. Os protetores de quem? Ou o dinheiro que interessa? Essa segunda metade, baseada no questionamento dos personagens, surpreendentemente regula melhor o ritmo de Operação Fronteira. Com a natureza, em suas formas diversificadas, transformando-se em uma ameaça em si, o cineasta captura sua imensidão perfeitamente, desde o helicóptero vendo os cumes montanhosos. Uma das melhores sequências de ação, mais para frente, tem um cenário cheio de pedregulhos como espaço de desnorteamento visual. Chandor possui experiência e, curiosamente, assumiu esse projeto que era, inicialmente, previsto ser dirigido por Kathryn Bigelow, vencedora do Oscar de Melhor Direção.

Como essa segunda metade empolga tanto, desde o pretexto bastante desolador, chegando à movimentação procedural do cineasta, o resultado soa ser mais positivo do que é na verdade. Não é injusto enxergar o começo de Operação Fronteira como genérico, movimentado pela burocracia da apresentação de personagens. No entanto, essas pessoas, no fim, precisam entender o que as move e parar os pseudo-moralismos. “Quantas pessoas você matou?”, questiona o personagem vivido por Charlie Hunnam. É nesse ponto, ao sugestionar personagens questionando suas morais, que Operação Fronteira perde gás, sem repassar dramaticamente suas intenções narrativas. Tom (Ben Affleck) é quem sofre mais com esse demérito, não sendo um contraponto moral coerente, mas um espelho unidimensional – e nem pela qualidade artística do ator, embora pouco marcante.

Este personagem é o único que recebe um tratamento pautado no rompimento da sua moralidade. Mostra ser mais corrompido do que aparentava, como em uma cena na qual sugere o assassinato de uma informante. Mas por ser tão próprios a Tom e esporádicos, os seus erros imorais, apenas seus, entregam a proposta de contra-argumentação de Chandor, com obviedade até. Contudo, entregam sem convencer, porque, piorando, uma questão mais coletiva, sobre o grupo ser movido por contradições, também é intencionada, encaminhando à redenção proposta. Pope não é visto de modo tão crítico, por exemplo, apenas depois, num momento clímax em que precisa repensar suas reais prioridades. Os impasses, portanto, não são contemplados com a sinceridade e coesão merecidas. O longa respeita seus temas, rejeita o heroísmo hipócrita, porém, esbarra na execução.

Operação Fronteira (Triple Frontier) – EUA, 2019
Direção: J.C. Chandor
Roteiro: Mark Boal, J.C. Chandor
Elenco: Ben Affleck, Oscar Isaac, Charlie Hunnam, Pedro Pascal, Garrett Hedlund, Adria Arjona, Sheila Vand, Reynaldo Gallegos, Carlos Linares, Pedro Lopez
Duração: 125 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.