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Crítica | Os Espiões (1928)

por Fernando Campos
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Um elegante espião tentando realizar seu dever patriótico, um vilão com pretensões globais e uma bela garota apaixonada que muda de lado para ajudar o herói. Poderia ser a sinopse de qualquer filme de James Bond, mas trata-se de Os Espiões, filme do lendário diretor alemão Fritz Lang. Apesar de não ter inaugurado o gênero, que só se tornaria realmente popular na década de 60 com o 007 protagonizado por Sean Connery, a obra foi uma das primeiras a apresentar o arquétipo do espião no cinema. Baseado no livro Spies de Thea Von Harbou, que também escreveu Metropolis, aqui o protagonista também é chamado por número, sendo o agente 326.

No filme, o agente 326 (Willy Fritsch), cujo o nome jamais é revelado, passa a investigar os responsáveis pelo desaparecimento de um importante documento. As pistas levam até Haghi (Rudolf Klein-Rogge), que usa um disfarce de banqueiro para comandar uma ampla rede criminosa. Para nautralizar o agente, o vilão convoca a espiã Sonya (Gerda Maurus), que começa a se apaixonar por seu alvo em meio a missão

Diferente de Metropolis, aqui Lang deixa a grande escala de lado e foca em uma obra mais objetiva e divertida. Sem pretensões temáticas complexas, Os Espiões intercala gêneros populares para entreter o público, como o romance, a ação e o suspense. No entanto, apesar do diretor construir cenas isoladamente impressionantes, como o pesadelo de Matsumoto, a montagem falha ao combinar os elementos citados anteriormente, pesando até na duração. Temos aqui um ritmo cansativo e um segundo ato claramente inchado. O roteiro erra ao apresentar vários personagens, ao invés de focar no trio principal. Todo o núcleo asiático, por exemplo, soa desnecessário. Além disso, o segundo ato frustra por deixar a trama de espionagem de lado para dar atenção excessiva ao romance entre 326 e Sonya. Com isso, as ações acabam condicionadas a uma relação apresentada com simplicidade exagerada, prejudicando a narrativa, e o melhor personagem da trama, o vilão Hagui, fica tempo demasiada longe da tela.

Em contrapartida, vale ressaltar que o início e a conclusão de Os Espiões fazem jus ao talento de Lang. No começo, somos apresentados ao vilão acompanhando seus atos vilanescos, com uma edição dinâmica, para depois conhecer seu rosto, impondo respeito ao personagem, auxiliado pela maquiagem que dá para ele um ar sombrio. Já o protagonista é mostrado através de uma divertida quebra de expectativa, deixando escapar seu disfarce de morador de rua. Ademais, na conclusão residem as melhores cenas da película, resultando em 30 minutos finais extremamente cativantes. A cena da batida do trem, por exemplo, impressiona por mostrar o acidente em primeira pessoa e a direção de arte funciona ao mostrar a escala do acidente por intermédio dos destroços. Em seguida, acompanhamos uma perseguição de carros que até hoje entretém, visto que as câmeras posicionadas dentro dos veículos ressaltam o dinamismo da situação. Por fim, a cena da invasão do prédio de Haghi pela polícia chama a atenção pela escala.

Outro mérito de Lang na direção são os figurinos que ressaltam a essência de cada personagem sem economizar em detalhes, como o belo vestido luminoso de Sonya, e a direção de arte que igualmente mostram o lado interior dos personagens. Perceba, por exemplo, como os ambientes que 326 frequenta ficam sujos e melancólicos após se decepcionar com a amada. Enquanto isso, a fotografia aposta em planos médios e alguns close-ups, priorizando as atuações e reforçando dinâmica entre os atores. Já a trilha sonora acerta ao investir na maior parte do tempo em um piano solitário, evocando o lado furtivo e misterioso da espionagem, mas trazendo mais instrumentos nos momentos de romance, evocando os vários sentimentos que os dois protagonistas sentem um pelo outro, algo que o prazer por suas profissões jamais conseguiu.

Para os fãs dos filmes de espionagem, assistir Os Espiões será uma experiência educativa, uma vez que vários elementos clássicos do gênero já são visíveis nesse exemplar de 1928. Porém, a longa duração e o segundo ato inchado tornam a experiência cansativa em alguns momentos, mas que felizmente é concluída com o talento que se espera de Fritz Lang.

Os Espiões (Spione) – Alemanha, 1928
Direção: Fritz Lang
Roteiro: Fritz Lang, Thea Von Harbou
Elenco: Rudolf Klein-Rogge, Gerda Maurus, Lien Deyers, Louis Ralph, Willy Fritsch, Paul Hörbiger, Fritz Rasp, Craighall Sherry, Hertha Von Walther, Lupu Pick
Duração: 145 min

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