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Crítica | Paprika (2006)

por Rodrigo Pereira
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Realizar qualquer obra sobre sonhos é uma tarefa complexa. A falta de informação que temos acerca do porquê acontecem e como acontecem é campo de pesquisa até hoje. Por conta disso, desenvolver de forma satisfatória uma história em torno dessa temática é algo a se parabenizar. E Paprika, de Satoshi Kon, felizmente, merece todos os elogios possíveis devido à sua impecável qualidade nesse aspecto.

O enredo de Paprika se desenrola em torno do Mini DC, uma nova invenção que permite aos médicos acessarem os sonhos de seus pacientes para fins terapêuticos. Ainda não finalizado, o aparelho não possui nenhum tipo de trava que impeça a utilização de forma errada, o que torna-se um problema quando alguém rouba um Mini DC e adquire o poder de entrar nos sonhos alheios.

Além da clara invasão de privacidade que é utilizar um aparelho revolucionário para acessar sonhos de outras pessoas sem a devida permissão, a tecnologia possibilita controlar os atos no mundo real das pessoas que tiveram seus sonhos invadidos. Sabendo do perigo que todos correm, a chefe da equipe de desenvolvimento da criação, Doutora Atsuko Chiba (Megumi Hayashibara), assume Paprika sua persona dentro do mundo dos sonhos, e corre contra o tempo para recuperar o dispositivo antes que cause maiores problemas.

A forma totalmente psicodélica que Kon decide retratar o mundo onírico, apresentando os medos, ansiedades, desejos e todo tipo de sentimento das personagens, é absolutamente perfeita. Já que os sonhos costumam trilhar um caminho sem aparente sentido e comumente são palco para materializações de coisas absurdas ou impossíveis no mundo real, o diretor deixa a imaginação fluir e cria cenários, personagens e objetos incríveis que constantemente nos deixam boquiabertos, seja por sua beleza estética ou criatividade.

O desfile de bonecos gigantes e extremamente coloridos, por exemplo, faz parte da personalidade infantil de Kei Himuro (Daisuke Takagushi), assistente e amigo do Doutor Kosaku Tokita (Toru Furuya), gênio e inventor do Mini DC (possuidor de uma personalidade igualmente infantil e constantemente referido como imaturo). Doutora Chiba é uma mulher séria, racional e fria, completamente diferente de como sua versão dos sonhos, Paprika, é: uma jovem alegre, brincalhona, sorridente e que usa roupas despojadas. Toda essa maneira de traçar um paralelo entre as personagens através da comparação de suas versões no mundo real e dos sonhos é maravilhosa e feita de forma tecnicamente primorosa.

Assim como todos os aspectos envolvidos no processo de realização do filme são afetados de forma positiva pela criatividade do diretor, a estética não fica de fora. A iluminação, as cores, tudo é feito com algum propósito claro, como todo o colorido vivo dos desfiles de bonecos de Himuro ou a iluminação mais baixa e misteriosa nas cenas do bar/cinema do detetive Toshimi Konakawa (Akio Ohtsuka), criando uma atmosfera mais penumbrosa, típica do mundo profissional da personagem. Todas as cenas são maximizadas pela presença de tantos detalhes alucinantes e com duplo significado que ficar à espera de uma nova sacada totalmente inesperada e igualmente genial de Kon torna-se quase um ato comum do espectador.

Paprika é uma belíssima animação que aborda de forma esplêndida o curioso e atrativo mundo dos sonhos, trazendo à vida pensamentos dos mais fantasiosos e fenomenais. Para quem gostou de A Origem, de Christopher Nolan, terá um motivo a mais para assistir Paprika, pois a influência da obra japonesa no longa hollywoodiano é completamente nítida, algo que só agrega valor para ambos os filmes.

Paprika — Japão, 2006
Direção: Satoshi Kon
Roteiro: Yasutaka Tsutsui, Seishi Minakami, Satoshi Kon
Elenco: Megumi Hayashibara, Toru Furuya, Daisuke Takagushi, Akio Ohtsuka, Katsunosuke Hori, Kōichi Yamadera
Duração: 90 minutos

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