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Crítica | Por uns Dólares a Mais, de Joe Millard

A novelização do segundo filme da Trilogia dos Dólares pelo autor que foi além do terceiro!

por Ritter Fan
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Por uns Dólares a Mais, segundo filme da aclamada Trilogia dos Dólares, de Sergio Leone, foi, na esteira de Por um Punhado de Dólares, um grande sucesso da Europa, mas o primeiro grande sucesso da trilogia nos EUA, já que o primeiro longa sofreu obstáculos para alcançar o território americano e, com isso, só estreou por lá em 1967. Com isso, a novelização do segundo filme acabou sendo lançada antes da do primeiro e com autores diferentes. A versão literária de Por um Punhado de Dólares só chegou às livrarias em 1972, escrita por Frank Chandler (nom de plume de Terry Harknett), enquanto que a de Por uns Dólares a Mais foi lançada em 1967, apenas dois anos após a estreia do filme. Curiosamente, Joe Millard, autor da novelização sob análise, seria responsável não só pela de Três Homens em Conflito, como pela continuação da historia do Homem sem Nome por meio de obras originais lançadas nos anos seguintes.

Como na adaptação de Chandler, Millard trabalha de maneira a deixar sua versão literária muito próxima do que vemos no longa, com a aliança hesitante entre o Homem sem Nome e o Coronel Douglas Mortimer para caçar o vilão El Indio seguindo passo a passo o roteiro original que Leone escreveu ao lado de outros quatro colegas. É uma história brutal, mas ao mesmo tempo, na superfície, heroica, que coloca os dois protagonistas em uma posição menos ambígua do que a que o Homem sem Nome tem no filme/livro anterior, ainda que, logo abaixo dessa visão à distância, perceba-se camadas muito interessantes que dão relevo às ações e aos personagens, furtando-lhes a obviedade e rótulos simples como esse de “herói”. Millard reconhece muito bem os elementos visuais e narrativos que Leone colocou em seu clássico e se esforça para replicá-los em sua novelização, o que é sem dúvida valioso para quem aprecia os filmes, mas que, claro, não consegue alcançar o mesmo efeito diante dos diversos aspectos não transponíveis para o meio literário, especialmente a importantíssima e marcante trilha sonora do genial Ennio Morricone.

Mas as falhas que existem, existem justamente pela impossibilidade completa de páginas escritas absorverem e transmitirem tudo aquilo que o filme é, pelo que elas sequer podem ser, com justiça, serem chamadas de falhas. Millard fez milagre ao transpor para o papel a marcante e inesquecível atmosfera “leoniana” do longa de maneira muito próxima ao que Chanlder posteriormente faria com o filme anterior, talvez apenas de maneira mais seca e mais direta ainda, sem nenhum rodeio ou firula, deixando evidente a diferença de estilos dos dois autores que, porém, souberam destilar a essência dos filmes e tudo aquilo que poderia ser transportado de uma mídia para outra. É quase que como um o roteiro transformado em prosa literária, mas sem que o leitor seja realmente capaz de sentir que está lendo um roteiro, o que quer dizer que o romance provavelmente funcionaria também para aqueles que jamais viram o filme (o que, claro, é um pecado que precisa ser expiado!).

Claro que ajuda muito o fato de os protagonistas e também o vilão – novamente excelente, vale lembrar – sejam tão estoicos quanto possível, o que facilita a transposição para o papel. No entanto, assim como muita gente confunde estoicidade com falta de desenvolvimento, algo que definitivamente não é o caso da Trilogia dos Dólares, Millard entende bem essa possibilidade e, como Leone, faz dos pequenos detalhes toda a diferença que existe entre personagens rasos e personagens enganosamente rasos. Se o Homem sem Nome talvez possa ser considerado como o elemento enigmático e a figura clássica do pistoleiro misterioso que Leone sedimentou (e, de certa forma, diria, criou) em seus longas, Mortimer e El Diablo ganham profundidade em razão de seu conflito de natureza pessoal que remonta há anos e que permite a conexão do leitor com eles assim como acontece no filme. A novelização de Por uns Dólares a Mais é, portanto, uma ótima maneira de reviver o longa de 1965 do mestre Sergio Leone, maneira essa que, não tenham dúvida, leva à vontade de assistir o filme mais uma vez assim que a última página é virada.

Por uns Dólares a Mais (For a Few Dollars More – EUA, 1967)
Autoria: Joe Millard
Editora: Award Books
Data original de publicação: 1967
Páginas: 160

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