Crítica | Quatro Dedos (O Homem de Papel)

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Quatro Dedos (O Homem de Papel) foi publicado na França em 1982, onze anos após o início da carreira de Milo Manara nos quadrinhos. Trata-se de um western com a típica abordagem europeia para o gênero, marcado por uma reconsideração séria a respeito do papel do índio na sociedade do Velho Oeste e, nesse caso específico, com uma fina camada de erotismo, marca registrada de Manara, mesmo que, nessa obra, ele não lance mão de grande exploração do corpo feminino ou até mesmo do sexo, embora não deixe de colocar a libido de maneira sugestiva no decorrer da história.

Conhecemos o jovem Quatro Dedos logo no início da trama. Ele é um rapaz loiro que está em uma longa jornada até o Maine, indo ao encontro de sua amada Gwendoline. O leitor precisa ter um pouco de paciência diante de estranhas escolhas do autor para alguns personagens, e a relação entre Quatro Dedos com um velho Sargento do Exército Britânico é a primeira dessas estranhas escolhas. Entendemos que o encontro e aquilo que o velho militar pede para o jovem a cavalo não é, a rigor, nada demais. Mas não existe uma condução orgânica e narrativamente realista — como deveria ser, pois a história adota essa visão — nesse primeiro contato. Aos poucos, porém, vamos nos acostumando com a situação e acabamos rindo e esperando os desdobramentos para o que deve acontecer com a dupla, que em dado momento da história para a ser um trio,  com a chegada da índia Coelho Branco.

A caminhada até o Forte Laramie traz uma série de surpresas e torna essa aventura uma deliciosa junção de crônicas que se passam com algumas horas e poucos dias de diferença de um ponto para outro. Não existe uma ampla exploração para os personagens principais, mas temos detalhes o suficiente sobre eles para fazer com que nos apeguemos. É interessante ver que Manara dá a Quatro Dedos algumas pinceladas dramáticas de Blueberry, especialmente na segunda metade da história. Até mesmo momentos um tanto bobinhos, como a chegada do religioso que quando chove fica furioso, destrói tudo e agride todo mundo acabam sendo divertidos. O problema com esse personagem é que ele protagoniza a cena que mais exige suspensão da descrença por parte do leitor (no pior sentido possível), na cena em que começa a chover — numa hora de vida ou morte para o personagem — e ele parece ser um verdadeiro Superman, pois as balas que tocam o seu corpo simplesmente não o afetam. Não dá pra engolir isso não. 

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Mas o humor e as improváveis relações entre os personagens são as coisas que chamam a atenção do leitor e tornam a história cada vez mais interessante, mesmo com seus problemas. Quatro Dedos e os companheiros tornam a crônica pelo Velho Oeste uma rápida e aleatória viagem cheia de surpresas, com todo mundo chamando a atenção por algo e tendo a sua importância para a história: o reverendo à la Médico e o Monstro; a índia sioux cheia de provocações para Quatro Dedos (provocações de todos os tipos) e que nos encanta mais a cada página; o índio heyoke (que faz tudo ao contrário) que tem um curto espaço na trama mas está muito bem colocado; e o velho militar da rainha… É por isso que o leitor não espera, nem de longe, que o final da trama seja como este que Manara nos entrega aqui, deixando-nos em um belo cenário quase inóspito com o amargor de uma grande perda…

L’uomo di Carta, o Quattro Dita / Quatre doigts – L’Homme de papier (França, 1982)
Editora original:
Dargaud
Roteiro: Milo Manara
Arte: Milo Manara
52 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.