Crítica | Robin Hood: A Origem (2018)

robin-hood-movies- plano critico a origem 2018

Sempre que assisto qualquer filme pela primeira vez, tento ao máximo não permitir que comentários, análises, críticas e opiniões de quem já viu influenciem minha experiência. Acredito que ir livre de qualquer pré-conceito ou opinião prévia é a melhor escolha tanto para quem passará um bom tempo em frente à tela quanto para ser honesto com a obra e todos seus realizadores. Digo isso pois antes de ir ao cinema assistir Robin Hood — A Origem, quis saber opiniões de quem já tinha visto, algo que quase sempre faço, por mera curiosidade. Depois de não encontrar ninguém que realmente tivesse feito elogios, voltei-me ao método de análise recém comentado. Para minha tristeza, no entanto, os outros estavam certos.

Dirigido por Otto Bathurst, a projeção conta a história de Robin Hood (Taron Egerton), o arqueiro inglês que viveu no século XII e roubava dos ricos para dar aos pobres, a partir do momento que é selecionado pelo xerife de Nottingham (Ben Mendelsohn) para juntar-se às Cruzadas inglesas na região da Arábia. Até os dias de hoje muito se debate sobre a veracidade da história ou mesmo se Robin de Loxley realmente existiu. Talvez isso explique muitas das situações estranhas, para dizer o mínimo, que estão presentes nesse longa que ainda tem Leonardo DiCaprio na produção (sabe-se lá porquê essa peculiaridade o interessou).

O que não está presente na lenda do príncipe dos ladrões, porém, é a sua destreza descomunal capaz de humilhar Legolas, Gavião Arqueiro e Arqueiro Verde sem grandes dificuldades. Ou a potência de suas flechas, que mais parecem tiros de fuzil, capazes de quase destruir pilares maciços de concreto. Ou sua inacreditável capacidade de sacar flechas a uma velocidade quase imperceptível ao olho humano. Ou a habilidade de carregar cinco ou mais flechas de uma vez e dispará-las, quase que simultaneamente, acertando seus inimigos pelo minúsculo espaço da viseira de seus capacetes. Ou ainda sua incrível capacidade de ser atingido por flechas e regenerar-se quase como Wolverine. Acho que consegui pontuar alguns dos excessos, certo?

Caso os problemas do longa se resumissem somente a esses exageros, que tornam um herói inglês do período feudal digno de um integrante dos Vingadores, o resultado não seria tão decepcionante. Entretanto, os problemas se estendem a praticamente todos os elementos cinematográficos possíveis, sendo roteiro o que mais sofre com todos os furos e equívocos da direção, a começar pela introdução do protagonista na trama.

Logo ao início da projeção testemunhamos uma ladra que invade um estábulo na tentativa de roubar um cavalo. Ela, então, é pega em flagrante por um rapaz que, em seguida, descobrimos ser o protagonista de nossa história. O incrível dessa cena é perceber que não há qualquer espanto aparente de Robin Hood ao encontrar alguém tentando roubar algo que na mesma cena descobrimos ser dele. Sim, alguém tenta roubar seu estábulo, ele não se espanta e ainda paquera a ladra e seu enorme decote totalmente necessário e absolutamente comum para a época, não é mesmo? Juro, é assim que começa o romance entre Robin Hood e Marian (Eve Hewson), seu par romântico.

O resto do roteiro segue uma linha extremamente clichê e previsível, onde independentemente do que aconteça sabemos que o protagonista conseguirá se safar, mesmo que com isso acabe levando uma ou outra flechada em locais que provavelmente o matariam. Nem mesmo seu altruísmo em ficar ao lado dos pobres convence, já que só o faz para reconquistar Marian após voltar da guerra e perceber que perdeu seu grande amor para Will Scarlet (Jamie Dornan), uma espécie de líder sindical da época.

Tecnicamente também quase não há o que falar de maneira positiva. As cenas com John (Jamie Foxx), inimigo de guerra de Robin Hood e posteriormente aliado, são o que há de melhor no longa. Foxx, como sempre, apresenta uma grande atuação e sua personagem é sem dúvidas a mais interessante e completa do filme. Inclusive, é justamente em cenas dele que os elementos técnicos são melhor aproveitados e dignos de elogio, como quando fica enraivecido numa discussão com Robin Hood e uma caldeira da mina dos trabalhadores solta fogo ao fundo, marcando a ira de John.

Podemos dizer que Robin Hood — A Origem é uma adaptação (dentre as tantas) que não acrescenta em nada à já batida história do lendário arqueiro inglês. Com um roteiro que mais parece um queijo suíço de tão furado e praticamente nada que realmente se destaque, Bathurst nos apresenta uma obra de mais do mesmo com elementos totalmente absurdos, desde os combates de arco e flecha até as perseguições de carruagem dignas de Velozes e Furiosos (com direito a cavalos destruindo tudo em seu caminho como se fossem tanques de guerra!). No final das contas, Robin Hood roubou não só o ouro, mas também a qualidade do filme.

Robin Hood — A Origem (Robin Hood) — Estados Unidos, 2018
Direção: Otto Bathurst
Roteiro: Ben Chandler, David James Kelly
Elenco: Taron Egerton, Jamie Foxx, Eve Hewson, Ben Mendelsohn, Jamie Dornan, Taron Egerton, Jamie Foxx, Eve Hewson, Ben Mendelsohn, Jamie Dornan, Tim Minchin, Paul Anderson, F. Murray Abraham, Ian Peck, Cornelius Booth, Kane Headley-Cummings, Scot Greenan, Lara Rossi, Kevin Griffiths, Catriona Temple
Duração: 116 minutos

RODRIGO PEREIRA . . . Certa vez um grande amigo me disse que após entendermos o que estamos assistindo, o cinema se torna uma experiência ainda mais fascinante e fantástica. Não poderia estar mais correto. O tempo passou e a vontade de me aprofundar cada vez mais só aumentou. Hoje, vejo no cinema muito mais do que meramente entretenimento, é um maravilhoso artifício que encanta, emociona, provoca e possui um grande potencial de transformação social. Pode me encontrar em alguma aventura pela Terra Média, lutando ao lado da Aliança Rebelde, tentando me comunicar com Heptapods ou me escondendo de Jack Torrance no labirinto de um fauno em alguma linha temporal criada por Dr. Brown e Marty McFly.