Crítica | See – 1X06: Silk

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios. 

Depois da “grande” reviravolta ao final de Plastic, que revela que Maghra é, na verdade, uma princesa, uma explicação convincente para o fato de ela não ter evitado o massacre do povo com que viveu grande parte da vida e que seus filhos corressem perigo com apenas um balançar de sinos tornou-se extremamente necessária. Era isso ou a série criada por Steven Knight não se sustentaria de maneira minimamente lógica por muito mais tempo. A pergunta que se faz, então, é: será que Silk veio para salvar a temporada?

A resposta não é nem de longe um sim, infelizmente, mas, por outro lado, também não é um não retumbante. A questão toda é que, no lugar de racionalizar suas inações, Maghra, provocada por Tamacti Jun, apenas oferece explicações que não eram lá realmente necessárias, além de serem basicamente aquela receita de bolo de fubá bem simplesinha, feita com massa semipronta e doses cavalares de desleixo. Aprendemos, com um breve flashback, que, apesar de mais nova que sua irmã Kane, seu pai moribundo desejava que Maghra tomasse o trono, por ver na outra a semente da loucura ou da incapacidade de governar. Logo em seguida, agora sem apoio de flashback, ou seja, marretando um preguiçoso texto expositivo de maneira inclemente, a princesa explica que tentou um golpe, mas que Tamacti Jun, ao manter-se fiel à Kane, acabou frustrando-o, fazendo-a fugir do reino levando Jerlamarel, aparentemente o homem mais irresistível do mundo, a tira-colo.

Em outras palavras, aquilo que eu temia parece concretizar-se: Kane é movida a amor perdido e Maghra, de certa forma, a vingança por não ter conseguido fazer o que queria, levando o homem que enxerga com prêmio de consolação? É sério que See não consegue ver o quão ridículo isso é se continuar dessa forma? E não interpretem meu desgosto como exortação para que haja qualquer subtexto de pegada feminista ou algo do gênero, mas sim, apenas, sob o ponto de vista narrativo. Afinal, quantas vezes já não vimos esse tipo de história antes? Precisamos mesmo de uma série que se passa em um futuro apocalíptico em que a humanidade regrediu e ficou cega, mas continua com o mesmo tipo de reme-reme padrão que qualquer estagiário de roteirista escreveria como dever de casa de seu curso de Cinema?

Pelo menos temos a traição completamente sem sentido de Boots para sacudir um pouco o episódio. Eu disse completamente sem sentido? Ah, me desculpem. É só idiota mesmo. Mas pelo menos isso acabou levando nossos heróis para uma caverna que convenientemente conta com bioluminescência onde convenientemente mora a mãe do rapaz e que convenientemente ajuda os prisioneiros pouco tempo depois – mas tempo o suficiente para que tenhamos que ouvir as lamentações descabidas de Paris – que eles são encarcerados na jaula convenientemente menos vigiada possível. Conveniências à parte, até que a fotografia noturna de tons azulados das sequências cavernosas foi muito bem manejada por Jules O’Loughlin, com a pancadaria envolvendo Baba Voss mais uma vez funcionando eficientemente, mesmo que tenhamos que aceitar aquela escalada um pouco rápida e fácil demais ali no final.

Assim como no episódio anterior, gostei das sequências de Kane na fábrica de seda, pois ela trabalharam de maneira crível a ingenuidade da rainha que está no mundo real pela primeira vez na vida e, ainda por cima, sozinha. Era mais do que óbvio que o interesse da outra escrava não era genuíno, mas essa obviedade, diferente da revelação de Maghra, fez todo sentido narrativo e foi bem utilizada, com consequências potencialmente interessantes para a estirada final da temporada.

Voltando à pergunta do primeiro parágrafo, portanto, o que Silk fez foi desviar a atenção do espectador para outras questões no lugar de enfrentar as incongruência dos roteiros anteriores, algo que, desconfio, jamais acontecerá. Agora só me resta torcer para que as motivações das irmãs tenham mais camadas do que apenas amor adolescente por um homem misterioso transformado em loucura e obsessão e que Baba Voss tenha mais oportunidades para usar instrumentos cortantes, de preferência em plena luz do dia mesmo, com todo o sangue em CGI que temos direito.

See – 1X06: Silk (EUA – 22 de novembro de 2019)
Criação: Steven Knight
Direção: Stephen Surjik
Roteiro: Steven Knight, Jonathan E. Steinberg, Dan Shotz
Elenco: Jason Momoa, Sylvia Hoeks, Alfre Woodard, Hera Hilmar, Christian Camargo, Archie Madekwe, Nesta Cooper, Yadira Guevara-Prip, Mojean Aria
Duração: 54 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.