Crítica | Sinfonia de Paris

Sei muito bem que a comparação pode parecer injusta e talvez até sem nexo causal, mas tenho para mim que Sinfonia de Paris, musical estrelado por Gene Kelly, ao varrer os Oscars da cerimônia de 1952, tirando a estatueta de Uma Rua Chamada Pecado, franco favorito e bem melhor, provavelmente levou à grande injustiça cometida contra Cantando na Chuva no ano seguinte, que só recebeu duas indicações e nenhuma delas à categoria máxima. E a história mostra, em retrospecto, claro, qual dois dois musicais ficou na memória cinematográfica mundial.

Com isso não quero dizer que Sinfonia de Paris é uma obra ruim, pois realmente não é. Com roteiro costurado de forma a tornar possível o uso da composição An American in Paris que o sensacional George Gerswhin criou em 1928 com base em suas experiências na capital francesa, o filme é uma simples história de amor envolvendo um artista plástico americano radicado em Paris com uma jovem francesa já comprometida com um cantor local. É, falando português claro, um bom exemplo de forma sobre substância, já que não há, no roteiro escrito por Alan Jay Lerner (que viria a escrever Gigi, Minha Bela Dama e Camelot), nada que não seja uma narrativa rasa, simplista e focada apenas no entretenimento descompromissado.

Gene Kelly é, sem sombra de dúvidas, no papel-título, o grande destaque da fita, com seu sorriso contagiante, sua voz encantadora e, mais do que isso, seus incríveis números musicais. Aqui, ele foi coreógrafo de todos os números, mostrando sua versatilidade em termos de variados gêneros de dança, de vaudeville, para jazz, chegando ao balé, com a performance de Leslie Caron não deixando nada a desejar, com os dois criando um belo par em cena. No entanto, falta unicidade narrativa para o fiapo de história que transita entre a rica Milo Roberts (Nina Foch) querendo ser a patrocinadora da arte de Jerry Mulligan (Kelly), mas com segundas intenções e Mulligan correndo atrás de Lise Bouvier (Caron), por sua vez prometida à Henri Baurel (Georges Guétary), com Adam Cook (o pianista Oscar Levant em um papel muito divertido) servindo de conexão de viés cômico entre todos eles. Se há bons números musicais entrelaçados à narrativa – e o destaque vai para a canção e dança à margem do rio Sena -, há também números completamente desgarrados, como o solo de piano de Levant e, claro, o mais elaborado número musical do filme, que é justamente a peça de Gershwin que dá nome ao filme em inglês.

Sobre esse número musical especificamente, que é o último do produção, por mais belo e complexo que ele possa ser, com cores hipnotizantes, uma coreografia realmente impressionante com uma quantidade enorme de extras para serem sincronizados em primeiro, segundo, terceiro e até quarto planos, a grande verdade é que ele é espetacular de maneira independente, ou seja, desconectado com o filme. Dentro da obra, porém, ele não tem função narrativa alguma que não seja “adiar” seu encerramento e entregar o grande destaque à dupla Kelly-Caron no estilão dos musicais hollywoodianos da época.

Se é inevitável apontar esse problema, por outro lado não é possível, sob o ponto de vista técnico, avaliar o número (ou, mais precisamente, os números já que não podemos esquecer o de piano) separadamente à crítica do todo, caso contrário o resultado seria uma gangorra que forçaria o crítico a analisar outros elementos que poderiam, em tese, ser abordados separadamente. Portanto, a questão é se o saldo é positivo dada a qualidade desses momentos em si e minha conclusão é que sim, mas apenas levemente. A freada que o roteiro dá para permitir especialmente o segundo número, que é extremamente longo considerando o momento em que ele ocorre (o final do filme vem literalmente 30 segundos depois que o número acaba), é brusca e cansativa, mesmo para uma obra que se contenta em ser um produto básico de entretenimento das massas.

Sinfonia de Paris não é nem de longe algo que chega ao nível de Cantando na Chuva e sua vitória no Oscar pode ter esvaziado as chances de seu irmão mais novo na cerimônia, mas ainda é uma produção simpática e que talvez tenha até tornado possível, em razão de seu sucesso, Kelly chegar até seu marco histórico do ano seguinte. De toda forma, faltou ambição narrativa que fosse para além de uma colagem de ótimos números musicais seguidos formando um todo longe da coesão necessária.

Sinfonia de Paris (An American in Paris, EUA – 1951)
Direção: Vincente Minnelli
Roteiro: Alan Jay Lerner
Elenco: Gene Kelly, Leslie Caron, Oscar Levant, Georges Guétary, Nina Foch, Eugene Borden, John Eldredge, Anna Q. Nilsson
Duração: 104 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.