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Crítica | Sol Vermelho

por Ritter Fan
314 views (a partir de agosto de 2020)

Como não ficar no mínimo curioso com um faroeste espaguete franco-italiano-espanhol que conta com um elenco multinacional estelar composto por ninguém menos do que o americano de ascendência lituana Charles Bronson, o japonês Toshirō Mifune, o francês Alain Delon e a suíça Ursula Andress, dirigido pelo irlandês nascido na China Terence Young, mais conhecido como o responsável por colocar nas telonas o primeiro, segundo e quarto filmes da imortal franquia do espião britânico 007? E o melhor: trata-se de um longa que reúne formalmente o faroeste com filme de samurai, colocando Bronson e Mifune lado-a-lado em uma caçada a Delon. Irresistível, não é mesmo?

O longa é um dos diversos filmes que Bronson estrelou na Europa, na segunda fase de sua carreira cinematográfica que, vale lembrar, começou com uma parceria justamente com Delon, depois de ser basicamente coadjuvante nos EUA, o que lhe garantiu o estrelato que alcançou até mesmo o longínquo Japão. Mifune, por seu turno, já mais do que estabelecido como O samurai do Cinema graças principalmente à longeva colaboração com Akira Kurosawa, tentava alguma penetração direta no Ocidente, mas sem o mesmo grau de sucesso e jamais deixando sua persona de espadachim estoico de lado. Seja como for, a reunião dos dois, cada um encarnando seus respectivos arquétipos, é imperdível, com os dois “mal encarados” criando uma química silenciosa em tela que fisga o espectador quase que imediatamente pelo inusitado da coisa toda.

A história lida com um roubo de trem por uma gangue liderada por Link Stuart (Bronson) e Gotch ‘Gauche’ Kink (Delon) que acaba levando o violento Gauche a roubar uma espada que o embaixador japonês (Tetsu Nakamura) pretendia presentear o presidente americano e a matar um de seus yojimbo (samurai guarda-costas), além de trair seu próprio parceiro. Com isso, o segundo samurai,  Kuroda Jubei (Mifune) é encarregado de recuperar a espada, usando Link como um hesitante e traiçoeiro guia em uma relação estilo buddy cop que, claro, vai aos poucos amolecendo os corações dos dois que, lógico, tem interesses convergentes.

É muito interessante como o roteiro não tem pressa com nada. No lugar de correr com uma sequência inicial simples de roubo de trem, é imediatamente perceptível uma rara complexidade no plano dos ladrões, que, primeiro, têm que se livrar que uma guarnição do exército americano que está lá para proteger a entourage diplomática. E, como de praxe, esse início tem também a função de apresentar os personagens e suas personalidades, com Link logo sendo estabelecido como o “bandido bom”, Gauche como um pistoleiro psicopata e Mifune como um honrado samurai. Young, na direção, sabe o valor que essa trinca tem e deixa sua câmera descansar apontada para cada um dos três nesse começo alongado, criando uma atmosfera que se mostra imediatamente irresistível e atraente.

Ainda que a história que segue dessa abertura particularmente belíssima não seja lá carregada de complexidade, sendo apenas a jornada da dupla que eventualmente os leva a sequestrar a prostituta Cristina (Andress), a preferida de Gauche, para usá-la na barganha contra o pistoleiro, o fato é que Bronson e Mifune fucionam como mágica em tela, com o roteiro ainda abrindo espaço para momentos cômicos, além de até alguns segundos de lamento pelo fim iminente dos samurais que, lógico, ecoa no fim dos pistoleiros também, ainda que isso não seja abordado. É como se Sol Vermelho criasse a amálgama perfeita de gêneros que historicamente se retroalimentaram, lembrando, só como um breve exemplo, que Bronson vivera um pistoleiro em Sete Homens e um Destino, remake americano de Os Sete Samurais, clássico de Kurosawa estrelando Mifune, algo que Maurice Jarre, que compôs a trilha sonora, faz questão de lembrar o espectador aproximando-se sonoramente da clássica composição de Elmer Bernstein. A convergência cinéfila é linda demais para ser ignorada!

Mas o longa consegue ir além de um encontro de gigantes, já que ele surpreende com o cuidado da direção de arte com figurinos ocidentais e orientais e, principalmente, com os cenários realistas e variados, do detalhadamente decorado vagão diplomático do embaixador à Missão espanhola abandonada onde a ação final se passa, passando por uma fazenda de cavalos e pelo hotel/prostíbulo de San Lucas. Até mesmo os Comanches, que funcionam como os vilões em comum que todos precisam enfrentar, convencem até mais do que deveriam.

Sol Vermelho não tem o finesse de outros westerns do tipo, notadamente os de Sergio Leone, mas inegavelmente diferencia-se tremendamente de seus pares pela reunião incomum de grandes astros de três continentes em uma mais incomum ainda premissa em que um pistoleiro e um samurai unem forças em uma missão. É como ver o melhor de vários mundos em um pacote único e sólido que conta uma história que pode não ser a coisa mais fascinante ou original do mundo em sua execução, mas que funciona tremendamente bem.

Sol Vermelho (Soleil Rouge – França/Itália/Espanha, 1971)
Direção: Terence Young
Roteiro: Denne Bart Petitclerc, William Roberts, Lawrence Roman, Gerald Devriès (baseado em história de Laird Koenig)
Elenco: Charles Bronson, Toshirō Mifune, Alain Delon, Ursula Andress, Capucine, Barta Barri, Guido Lollobrigida, Anthony Dawson, Gianni Medici, Georges Lycan, Luc Merenda, Tetsu Nakamura, Mónica Randall, José Nieto, Julio Peña, Ricardo Palacios
Duração: 112 min.

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