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Crítica | Spartacus, de Howard Fast

A obra que deu base para o filme de Stanley Kubrick.

por Leonardo Campos
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Lido na ocasião da contemplação de Spartacus: Sangue e Areia, primeira temporada de uma empreitada televisiva no universo desse personagem clássico constantemente retomado pelo audiovisual moderno, o romance de Howard Fast, lançado em 1951, nos ajuda a compreender ainda mais os mecanismo que engendram a permanência de algo além do mito em torno dessa figura também imortalizada no imaginário coletivo com o suntuoso filme dirigido por Stanley Kubrick, em 1960. Versar sobre Spartacus é tratar de temas atemporais. A sua narrativa foca na luta do indivíduo contra sistemas de poder injustos, ressoando com movimentos sociais, trabalhistas e de direitos civis ao longo das décadas. Atual. Como líder da maior revolta de escravos da Roma Antiga, o personagem inspirado numa real figura histórica, delineada por precisões de pesquisas científicas e molduras lendárias, representa o anseio humano por dignidade e autonomia. Ainda mais atual. A falta de registros históricos detalhados sobre sua vida antes da rebelião permite que roteiristas adicionem elementos dramáticos, romances e novos conflitos sem perder a sua base histórica. Também atual e aberto para a gênese criativa, sem que percamos o fio que conecta o seu legado ao impacto cultural de suas novas leituras.

Com apelo visual conectado ao épico, isto é, aquilo que salta aos olhos no que tange aos aspectos da grandiosidade, o cenário de gladiadores e batalhas romanas nos oferece um espetáculo de ação e violência curioso e envolvente, como visto na estética estilizada de séries recentes, bem como na leitura do romance em questão, publicação veiculada no Brasil pela Best Bolso (Grupo Record) que ao longo de suas volumosas 434 páginas, permite ao leitor viajar em torno da trajetória pavimentada por essa rebelde figura icônica que também nos faz refletir sobre como ainda clamamos por paz em um mundo de conflitos e injustiças. Recentemente, a sua jornada se tornou ainda mais atual, haja vista as novas expansões nesse universo, mesmo que de forma tangencial, com o lançamento, em 2026, Spartacus: A Casa de Ashur, minissérie em 10 episódios que revisita personagens conhecidos deste universo para explorar novas perspectivas.

Com eficiente tradução de José Sanz e design editorial pouco confortável para uma leitura mais imersiva, afinal, é uma publicação no estilo literatura de bolso, isto é, pequeno e de diagramação menos expansiva, Spartacus é um romance emocionante, mesmo em suas passagens de extensas descrições. Howard Fast tece um enredo que se estrutura numa narrativa que alterna entre o período anterior e posterior à célebre revolta, rompendo com a linearidade cronológica para oferecer um panorama profundo do conflito. Através dessa técnica, o leitor mergulha na vida pregressa de Spartacus e de seus aliados, tais como o gaulês Crixus, o trácio Gannicus e o judeu David, compreendendo as raízes da crueldade e da opressão que forjaram esses guerreiros. Ao mesmo tempo, o deslocamento dos pontos de vista permite observar a reação da nobreza e do Senado Romano, destacando figuras como o corrupto Gracchus e o implacável Licinius Crassus.

Assim, o autor estabelece um mosaico de perspectivas que cria um contexto histórico detalhado, onde o “outro lado da moeda” revela as estratégias e o pavor da elite diante da insurreição. A narrativa se sobressai ao explorar com assertividade os aspectos psicológicos e dramáticos de seus personagens, humanizando tanto os escravos quanto os opressores. Howard Fast não se limita a descrever batalhas, mas foca nas motivações internas e nos dilemas morais que consumiam as mentes de quem combatia em ambos os lados da trincheira. Enquanto a luta pela liberdade impulsiona os gladiadores, o desejo de manutenção do poder e da ordem guia as legiões romanas. Dessa forma, Howard Fast constrói uma narrativa densa, na qual o drama humano e a análise da hierarquia social são tão fundamentais quanto o próprio evento histórico, permitindo que o leitor conheça intimamente os protagonistas dessa jornada épica envolvente.

Importante reconhecer que a figura de Spartacus foi adotada por diversas ideologias ao longo da história, desde revolucionários franceses até movimentos socialistas, consolidando-o como um ícone da cultura pop que se adapta a cada nova geração. Basta olhar os nossos noticiários e refletir sobre quem representa o imperialismo dos romanos e que está do outro lado, na luta contra as opressões e interesses por dominações territoriais. Cabe também ressaltar que romancista Howard Fast, nascido em 1914, nos deixou em 2003, intelectual que viu um amontoado de transformações ao longo de quase uma década de existência. Sem dúvida, ele deve ter contemplado várias versões de seu Spartacus, para além da ficção, mas na vida real tão conflituosa como os enredos ficcionais. O autor deixou um legado marcado pela fusão entre ficção histórica popular e ativismo político radical. Com mais de 80 milhões de livros vendidos, ele é reconhecido por dar voz aos oprimidos e por sua resistência ao macarthismo.

Essa é a sua obra mais famosa, escrita enquanto ele estava na prisão por se recusar a cooperar com o Comitê de Atividades Antiamericanas. O livro inspirou o mencionado filme dirigido por Stanley Kubrick, uma empreitada de quase quatro horas de cinema de alta qualidade, se tornando um símbolo da luta contra a tirania. Membro do Partido Comunista entre 1944 e 1957, Fast foi incluído na famigerada “lista negra” de Hollywood e teve suas publicações proibidas em território estadunidense durante o auge do macarthismo. Ele chegou a fundar sua própria editora para publicar seus livros quando as grandes casas editoriais o rejeitaram. Com perspectiva humanista, as suas composições literárias frequentemente reinterpretam a história dos Estados Unidos, focando nos excluídos e na busca pela liberdade individual e coletiva, como por exemplo, a saga iniciada por Os Imigrantes, livro que explora a construção da identidade dos estadunidenses através de gerações de uma família, abordando temas de ascensão social e conflitos étnicos. Com Spartacus, ele dialogou com um ícone que realmente existiu.

Documentada por historiadores antigos como Plutarco e Apiano, a biografia do protagonista diz que ele escapou de uma escola de gladiadores em Cápua com cerca de 70 companheiros e chegou a liderar um exército de milhares de pessoas contra Roma. Spartacus foi um gladiador de origem trácia que liderou a maior revolta de escravos da República Romana, conhecida como a “Terceira Guerra Servil”. Embora a figura histórica seja real, o livro de Howard Fast (publicado em 1951) é uma obra de ficção histórica que utiliza fatos reais como base, mas toma diversas liberdades narrativas. O romance de Fast foca na psicologia do oprimido e na luta por liberdade como um ideal revolucionário moderno, refletindo as simpatias comunistas do autor na época. Dentre as suas escolhas, o autor estabelece uma carga dramática sobre seu destino final. Na história que atravessou gerações da cultura popular, acredita-se que ele morreu em combate na batalha final contra o general Crasso, embora seu corpo nunca tenha sido encontrado. No romance, por sua vez, ele é símbolo eterno de resistência e esperança para todos os oprimidos, um nome que será lembrado e invocado enquanto houver injustiça social.

Em linhas gerais, caro leitor, apesar de longo, o que nos requer uma paciência maior que aquela que dispúnhamos “antigamente”, quando o nosso cotidiano ainda não tinha sido dominado pelo excesso de informações oriundas dos mais diversos dispositivos que nos acompanham, tanto acoplados como em torno do nosso corpo, o livro é uma crítica veemente aos sistemas políticos que se baseiam na exploração do trabalho alheio. A decadência moral e a corrupção da República Romana servem como um espelho para a crítica de Fast a sistemas contemporâneos, em um claro paralelo à sociedade em que ele vivia e contemplava com desgosto, na tenebrosa fase de repressão intelectual e pessoal macarthismo. A narrativa destaca a capacidade de liderança inata de Spartacus e a importância da solidariedade entre os oprimidos para desafiar o poder estabelecido. E tem mais: nessa luta universal do homem pela liberdade e dignidade, o autor argumenta que a opressão desumaniza tanto o escravo quanto o opressor.

Um clássico que merece ser lido. Depois assistido em suas versões de 1960, 2004 e as mais recentes incursões em ficção seriada televisiva, agora nos streamings.

Spartacus (EUA, 1951)
Autoria: Howard Fast
Tradução: José Sanz
Editora: Best Bolso (Grupo Record)
Páginas: 434

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