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Crítica | Sweet Tooth – Vol. 4: Espécie em Extinção

por Ritter Fan
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  • Há spoilers. Leiam, aqui, as demais críticas de Sweet Tooth.

Sweet Tooth sempre foi, em essência, uma HQ no estilo road movie, seja com a pegada mais abertamente apocalíptica de Mad Max, seja com a abordagem mais estilosa e depressiva de Cormac McCarthy, em A Estrada. É essa segunda vertente que Jeff Lemire salienta a partir do final do arco anterior, Exército Animal, colocando os protagonistas Gus (humano + cervo) e Jepperd (basicamente o Justiceiro, só que mais velho e com menos armas), o cientista Dr. Singh, o faxineiro Johnny, irmão do líder da mílicia, as mulheres Lucy e Becky salvas de uma vida de escravidão e os híbridos Wendy (humana + porco) e Bobby (humano + marmota), prisioneiros no QG da milícia junto com Gus, em uma jornada a pé até o Alasca para que eles possam descobrir de onde e como Gus veio ao mundo, tornando possível o desenvolvimento de uma cura para a praga que dizimou o mundo.

Esse grupo heterogêneo, funcionando como uma família disfuncional do fim do mundo, ainda foge dos milicianos, mas o foco de Espécie em Extinção é na jornada, não na fuga e nas novas situações que têm que ser enfrentadas, com a mais saliente delas sendo o misterioso Walter Fish, que anda com duas muletas em razão de algum problema de locomoção e que salva as mulheres (incluindo a porquinha Wendy) de uma armadilha de alguém chamado Haggarty e as leva até sua moradia, um surpreendente complexo autossuficiente instalado dentro de uma represa antiga, com todos os confortos para uma vida confortável no apocalipse. Tudo, absolutamente tudo que Lemire escreve e revela sobre Fish é o que Fish conta para as personagens e, depois, para Jepperd e Gus, pelo que temos um evidente caso de “narrador não confiável” com histórias feitas para desconfiarmos muito de cada palavra que ele diz, exatamente como Jepperd faz, mas sem sucesso, já que a tentação de parar a jornada e ficar por lá acaba falando mais alto.

Com isso, o arco vai, muito vagarosamente, construindo uma narrativa aflitiva, transformando Fish naquela aranha simpática que só quer é atrair todo mundo para sua armadilha mortal, algo que só é amplificado pelo fato de que essa linha narrativa não acaba em Espécie em Extinção, estendendo-se pelo próximo. Chega a ser sujeira de Lemire fazer isso, mas a verdade é que foi uma jogada inteligente para estabelecer tensão a partir de uma situação familiar em tantas obras do sub-gênero que já vimos por aí.

Mas Walter Fish e tudo que gravita ao redor dele é, diria, a narrativa macro do arco, algo que perpassa elementos menores e pessoais de quase todos os demais personagens que, com isso, vão ganhando corpo de maneira significativa. Talvez o maior destaque fique por conta do Dr. Singh que, de posse dos diários do pai de Gus, começa a desenvolver a noção de que há algo mais do que ciência nessa história toda, com ele próprio considerando-se um “escolhido” (um messias?) por Gus (um deus?) para uma revelação que não passa pela cura do flagelo, mas sim pela compreensão de sua função. É muito interessante ver a mente científica do personagem caminhando para o lado religioso por meio de silogismos que parecem ser mais uma tábua de salvação para que ele consiga dar forma ao que acontece ao redor dele e, de certa maneira, expiar os muitos pecados que sabe que cometeu. Da mesma maneira, podemos – e talvez devamos – encarar essa evolução do personagem mais como uma involução, como sua jornada em direção à loucura.

Claro que Jepperd e Gus não são esquecidos nessa história e eles ganham o tempo que precisam para se reconciliarem, algo que de um lado revela o amor que o grandalhão sente pelo frágil menino, algo amplificado pela dor acumulada que foi reacendida com o que ele acha que foi a morte de seu filho biológico híbrido, e, de outro, revela o quanto Gus cresceu em termos de maturidade. No caso de Sweet Tooth, talvez esse seus crescimento seja um pouco além do que podemos aceitar considerando o relativamente pouco tempo que se passou desde que o vimos ainda com seu pai na cabana na floresta, mas sua vida protegida do mundo e sua inteligência torna possível concluirmos o contrário, até porque, nesse cenário de Lemire, é crescer ou morrer e o jovem tem plena consciência disso.

Mas há espaço até mesmo para Lucy, Becky e Wendy, que ganham breves flashbacks “de origem”, o primeiro revelando como Lucy, uma enfermeira, foi sequestrada, depois outro lidando com Becky e suas memórias difusas em processo de esquecimento sobre seu passado e, finalmente, a quase fabulesca história de Wendy e sua mãe. Com isso, passamos a apreciar mais as personagens e sentimos aquele frio na barriga quando Lucy descobre que foi infectada, mas não conta para ninguém, até porque é a primeira vez que temos a chance de acompanhar a evolução da doença na HQ.

E, no meio dessa brincadeira toda, Lemire ainda consegue fazer experiências, como trabalhar toda a primeira edição do arco (a #18) em formato paisagem e com narrativa de conto de fadas ou tratar os flashbacks de Becky e Wendy de maneira diferenciada, um refletindo visualmente a memória fragmentada da personagem e outra lidando com narrativas paralelas, sob pontos de vista diferentes em uma progressão estranha, mas muito interessante. Em outras palavras, há de tudo em Espécie em Extinção, com o autor mostrando pleno domínio de seu ofício e desenvolvimento sua épica história sem, porém aumentar de maneira desregrada seu escopo.

Sweet Tooth – Vol. 4: Espécie em Extinção (Sweet Tooth – Vol. 4: Endangered Species – EUA, 2011)
Contendo: Sweet Tooth #18 a 25
Roteiro: Jeff Lemire
Arte: Jeff Lemire
Cores: José Villarrubia
Letras: Pat Brosseau
Capas: Jeff Lemire, José Villarrubia
Editoria: Brandon Montclare, Bob Schreck
Editora: Vertigo Comics
Datas originais de publicação: fevereiro a setembro de 2011
Editora no Brasil: Panini Comics
Data de publicação no Brasil: agosto de 2013
Páginas: 180

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