Crítica | Talk Rádio – Verdades Que Matam

Ser um bom orador é dominar as técnicas de comunicação pública, estratégia comunicacional estruturada com fins específicos. Persuadir a opinião alheia, transmitir uma mensagem ou vencer um debate. Há várias maneiras de usos da oratória e no filme Talk Rádio – Verdades Que Matam, conhecemos o vibrante poder desta estratégia por meio da locução do protagonista do enredo. Na trama, os ouvintes que sintonizam na KGAB, rádio polêmica de Dallas, perceberá que além do seu dom nato para oratória, o apresentador Barry Champlain discursa sobre temas diversos, geralmente conectados com celeumas sociais.

Desta maneira, desfila pela história a condição problemática dos homossexuais no bojo de uma sociedade preconceituosa, problema que também acomete negros, judeus, dentre outros grupos oprimidos pelo etnocentrismo paradoxal de uma terra conhecida por ser um dos maiores caldeirões multiculturais do planeta, tendo ainda como temática a presença nociva das drogas, as ressonâncias dos males oriundos das grandes corporações e seus projetos de dominação industrial, cultural e social, dentre outras questões de uma nação muito “doente”.

Esse é o mote de Talk Rádio – Verdades Que Matam, dirigido por Oliver Stone, cineasta que também colaborou com o roteiro de Eric Bogosian, escritor que protagoniza o filme e assumiu a autoria da peça homônima, veiculada anteriormente noutro suporte, haja vista ser adaptada de um romance publicado por Stephen Singular. Lançado em 1988, a produção nos apresenta ao sarcástico Barry Champlain (Bogosian) e seu programa radiofônico que cresce num tom vertiginoso e flerta com temas polêmicos e caros para a cultura imperialista estadunidense. Inspirado em Alan Berg, jornalista texano assassinado por neofacistas em 1984.

Considerado por acadêmicos e por alguns críticos da época como um “farol para as psicoses nacionalistas americanos dos anos 1980”, Barry Champlain é um personagem forte, bem delineado em todas as suas dimensões, fisicamente adequado para a sua época, psicologicamente perturbador, instigador e irônico, além de ser socialmente bem sucedido em sua posição como apresentador de rádio, tamanha a capacidade de condução da oratória, mesmo que nesta mesma dimensão social, tenha colecionado a quantidade de desafetos que o fez ter problemas na vida sentimental, além da sobrevivência mediante os perigos das iminentes ameaças contra a sua integridade física.

Por vezes antipático e nada idealizado, o personagem desfere alguns golpes em sua audiência que atingem em cheio os espectadores mais sensíveis aos elementos reflexivos propostos nos diálogos e ações tanto do protagonista quanto dos que gravitam em torno de sua existência. Quando ele expõe, próximo ao final, que “denuncia o sistema e ao mesmo tempo o adota completamente”, o radialista está soprando nos olhos a ardência que buscamos disfarçar cotidianamente com nossos colírios fabricados para nos fazer enxergar com maior brilho uma realidade que não desejamos emular, ao contrário, pretendemos expurgar o tempo inteiro.

A direção do filme é competente ao criar a linha de tensão que flerta com o político sem se tornar necessariamente panfletário. Oliver Stone, cineasta que em entrevistas já deixou a entender suas inclinações de esquerda orquestra o seu filme sem delinear demasiadamente as suas opiniões com extrema exatidão, principalmente ao atirar críticas para todos os lados possíveis. Gestor de uma equipe competente, o diretor consegue extrair o melhor de Robert Richardson, seu diretor de fotografia, além de conseguir desempenhos equilibrados do design de produção de Bruno Rubeo e da condução musical de Stewart Copeland.

No que concerne ao trabalho de fotografia, a iluminação dos espaços e os enquadramentos e seus movimentos de câmera fazem da narrativa um exemplo de enredo que busca a imersão do espectador na atmosfera claustrofóbica proposta pelo roteiro. O design de produção de Rubeo permite que a direção de fotografia capte com maestria o ambiente de um estúdio de rádio, com detalhes bem acurados. O departamento visual entrega ao setor de trilha sonora as imagens ideais para a compreensão das necessidades dramáticas dos personagens que gravitam em torno da narrativa de Talk Rádio – Verdades Que Matam, título errôneo e indevido na tradução comercial brasileira.

Ao longo de seus 110 minutos, a produção traz alguns paralelos dramáticos com O Custo da Coragem, trama que também flerta com os perigos e desfecho trágico de um profissional da comunicação que não teve um final feliz por conta da sua astúcia e determinação em dizer aquilo que pensava, algo que é muito perigoso além das linhas narrativas ficcionais.  Quando os créditos se aproximam para indicar o desfecho narrativo, várias lições são expostas para o espectador. A câmera capta a antena de rádio da sua base ao seu pico, lentamente, como se dissesse ao público o poder do veículo de comunicação em questão.

Inspirado numa peça apresentada 211 vezes dentro do curto espaço de seis meses em Nova Iorque, Talk Rádio – Verdades Que Matam traz ainda outros personagens importantes para o desenvolvimento da trajetória do protagonista, dentre eles, Ellen (Ellen Green), a antiga esposa que inicialmente o mantém mais calmo, mas depois reacende um forte sentimento de revolta que o faz revirar por dentro todas as mágoas possíveis, além de Dan (Alec Baldwin), um dos editores da emissora que apesar de conseguir alcance nacional para o seu programa, constantemente tenta podar as falas e posturas do apresentador que não mede esforços quando o interesse é falar as tais “verdades que matam”. Um filme obrigatório para qualquer ser humano que busca uma produção que o faça refletir sobre política, sociedade e meios de comunicação como alternativas de exposição dos nossos ideais.

Talk Radio – Verdades Que Matam — (Talk Radio) Estados Unidos, 1988.
Direção: Oliver Stone
Roteiro: Eric Bogosian, Oliver Stone, Stephen Singular
Elenco:  Eric Bogosian, Alec Baldwin, Ellen Green, Leslie Hope, John Pankow, Michael Wincott, Robert Trebor, Tony Frank, John M. Mingley
Duração: 100 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.