- Não há spoilers.
Até 2020, Brad Ingelsby vinha em uma cadência boa, mas ainda naturalmente tímida em termos de roteiros produzidos como obras audiovisuais. No entanto, não tenho dúvida alguma em afirmar que, em 2021, com a excepcional minissérie Mare of Easttown, estrelada por Kate Winslet em um dos melhores papeis de sua carreira, Ingelsby fincou com vontade sua bandeira como uma mente criativa a ser definitivamente seguida e prestigiada, algo que a indústria imediatamente reconheceu, com nada menos do que dois longas (Echo Valley e O Ônibus Perdido) e uma segunda minissérie também pela HBO lançados somente em 2025. E é sobre essa segunda minissérie – Task, que, com a ojeriza das divisões de marketing das distribuidoras nacionais a títulos com uma palavra curta, ganhou o completamente desnecessário subtítulo Unidade Especial – que venho falar nesta presente crítica.
Quem assistiu Mare of Easttown reconhecerá de imediato a estrutura de Task, em que os crimes e a investigação que se segue são muito menos importantes do que os dramas pessoais dos personagens que exigem uma cuidadosa construção e uma entrega grande do elenco a papeis difíceis, pesados e que nadam contra a corrente de abordagens espalhafatosas. O que interessa a Ingelsby é criar uma história policial realista em que os dois lados do conflito sejam povoados por seres humanos reconhecíveis que permitam a conexão do espectador com os protagonistas e antagonistas, além daqueles que gravitam ao seu redor, mantendo firme seus pés no chão, sem heróis e vilões unidimensionais, rasos e do tipo que já vimos antes um sem número de vezes antes e, sobretudo, sem sequências de ação que existem apenas como vitrine para atrair incautos.
Quando a série começa, vemos roubos cometidos por uma dupla de lixeiros com máscaras de Halloween em casas que, logo depois, descobrimos serem centros de distribuição de drogas controladas pela Dark Hearts, uma gangue de motociclistas no estilo Sons of Anarchy e a subsequente criação de uma unidade de agentes do FBI para investigar os crimes. De um lado, temos Robbie Prendergrast (Tom Pelphrey), o líder dos ladrões que foi largado pela esposa, que também deixou para trás seus dois filhos, que perdeu seu irmão e que, agora, vive na casa de sua sobrinha Maeve (Emilia Jones) de 21 anos que se tornou, na prática, a mãe de seus filhos. Do outro, temos o ex-padre e agente do FBI Tom Brandis (Mark Ruffalo) que é convocado a ir a campo apesar de ter se afastado desse tipo de trabalho em razão de uma tragédia pessoal razoavelmente recente, para iniciar as investigações, formando uma equipe com novatos de três forças policiais locais diferentes.
Diferente do que é de se esperar em thrillers policiais que fazem uso dos tropos narrativos de praxe, Robbie e Tom têm muito mais em comum do que eles mesmos imaginariam e os caminhos deles são mantidos separados, mas com cada episódio oferecendo cada vez mais convergência. Em um roubo que dá muito errado, Robbie e seu parceiro Cliff Broward (Raúl Castillo) não só perdem o terceiro membro de seu grupo, como acabam tendo que matar dois integrantes da Dark Hearts, não só ficando com 15 quilos de droga pura nas mãos com também com o jovem Sam (Ben Doherty), que eles decidem sequestrar (ou temporariamente adotar, se preferirem uma visão mais branda) em razão de ele ter visto seus rostos, logo acrescentando mais um membro à família de Robbie e, claro, mais um filho para Maeve que, porém, vê com bastante clareza o que está acontecendo. E a grande tristeza – uma verdadeira ironia do destino – é perceber que Sam, nos dias em que passa com Robbie e Maeve, tem uma vida muito melhor e mais estável do que tinha com seus próprios pais.
Algo semelhante aconteceu na vida de Tom, vale dizer, algo que o espectador imediatamente desconfia pela compleição de sua filha Emily (Silvia Dionicio) que é bem diferente da dele e do pouco que vemos de sua esposa em fotos. Emily, juntamente com seu irmão Ethan (Andrew Russel), foram adotados pelo casal Brandis, que já tinha uma filha biológica, Sara (Phoebe Fox), com a ausência de Ethan e da esposa de Tom sendo usada como um pequeno “mistério” por assim dizer, mas que é perfeitamente orgânico, por ser muito mais uma situação que a família compreensivelmente evita falar pela dor que as lembranças causam, e que, não demora, é tornado claro para o espectador, dando a dimensão da tragédia de Tom, explicando seu alcoolismo, o mais completo desleixo com sua aparência e seu afastamento do trabalho de campo. Em outras palavras, não só existe uma convergência prática da investigação de Tom com os crimes de Robbie, como também um paralelismo de vida, praticamente duas almas gêmeas que se distanciam unicamente por estarem em lados opostos de um conflito.
Os personagens coadjuvantes são muito bem trabalhados também e, novamente, em ambos os lados. Há os membros principais – para a minissérie – da gangue Dark Hearts, o explosivo e violento Jayson Wilkes (Sam Keeley) e o veterano Perry Dorazo (Jamie McShane), que protege Jayson de uma diretoria que quer vê-lo afastado das operações em razão dos roubos que não consegue impedir e que são tratados pela produção como os grandes vilões, ainda que pelo menos Perry carregue consigo uma interessante ambiguidade. Há, também, a jovem equipe de Tom, formada por Anthony Grasso (Fabien Frankel), um responsável e simpático detetive do condado de Delaware, Aleah Clinton (Thuso Mbedu), uma compenetrada e eficiente detetive do condado de Chester e, finalmente, Elizabeth “Lizzie” Stover (Alison Oliver), uma inexperiente e insegura recruta da polícia estadual da Pensilvânia, o que cria uma interessante e por vezes desesperadora mistura de personalidades e formas de encarar o trabalho sob os auspícios do FBI. Há, também, a própria chefe de Tom, Kathleen McGinty (Martha Plimpton), que teve seu pedido de diferimento de aposentadoria obrigatória negado recentemente, o que faz com que seu futuro imediato longe do trabalho um grande vazio que ela não sabe preencher.
Apesar de excelentes sequências de ação em que Ingelsby consegue imprimir um tom sombrio, mas sempre muito realista, graças a uma direção de fotografia sóbria, constantemente acinzentada que só realmente ganha cores mais vibrantes em flashbacks, e de grandes atuações, notadamente de Mark Ruffalo, Tom Pelphrey e Emilia Jones, os roteiros se valem talvez demais de um artifício que eu reputo démodé, como se retornássemos às séries de TV americanas dos anos 70 e 80. Falo do paralelismo narrativo que leva à convergência final. Desde o começo da minissérie, tudo que vemos ser desenvolvido de um lado, é desenvolvido de maneira espelhada do outro, como é o caso da suspeita da existência de traidores ou até mesmo as personalidades de Robbie e Tom. Há inclusive uma sequência de espancamento que é entrecortada com outra ocorrendo ao mesmo tempo, só que com uma dupla “do outro lado da moeda”. Não tenho dúvida que essas escolhas pareceram inteligentes para Ingelsby e eu reconheço que esses eventos espelhados são muito bem executados, mas tenho para mim que o artifício funciona melhor quando é usado parcimoniosamente e não como uma das vigas estruturais de uma série, pois acaba gerando certa artificialidade que pode ter o condão de retirar o espectador do mergulho na história.
Mesmo assim, Task: Unidade Especial é mais uma bela criação de Brad Ingelsby que subverte o thriller policial, transformando-o em um verdadeiro drama com elementos investigativos, abrindo espaço para o máximo aproveitamento do elenco e para o estudo de personagens que, de suas respectivas maneiras, vivem à margem do que normalmente se espera de bandidos e policiais. Agora é aguardar o próximo projeto cinematográfico e/ou televisivo de um nome que vem com cada vez mais constância abrindo seu espaço no firmamento das grandes mentes criativas modernas.
Task: Unidade Especial (Task – EUA, 07 de setembro a 19 de outubro de 2025)
Criação: Brad Ingelsby
Direção: Jeremiah Zagar, Salli Richardson Whitfield
Roteiro: Brad Ingelsby
Elenco: Mark Ruffalo, Tom Pelphrey, Emilia Jones, Fabien Frankel, Thuso Mbedu, Raúl Castillo, Alison Oliver, Owen Teague, Silvia Dionicio, Martha Plimpton, Jamie McShane, Sam Keeley, Phoebe Fox, Ben Doherty, Oliver Eisenson, Kennedy Moyer, Stephanie Kurtzuba, Margarita Levieva, Colin Bates, Dominic Colón, Robert Berlin, Isaach De Bankolé, Andrew Russel
Duração: 419 min. (sete episódios)
