Home FilmesCríticasCatálogos Crítica | Terra em Transe

Crítica | Terra em Transe

por Luiz Santiago
1330 views (a partir de agosto de 2020)

Todos somos simpáticos, desde que ninguém nos ameace.

Jornalista Paulo Martins, em Terra em Transe.

A política é um negócio sujo em Eldorado. O país fictício tem corruptos no poder, partidários e aliados assassinos, fracos, estúpidos e extremistas no Executivo, Legislativo e Judiciário — à direita, ao centro e à esquerda –, o que não facilita em nada a vida do povo, que não sabe para qual lado seguir. O povo. Aquele que é facilmente enganado por palavras de consolo e de “estou anotando tudo, tudinho!” e festeja a chegada de um líder salvador, aclamado por nichos cerceadores de liberdades como se esta fosse a resposta para todos os problemas imediatos pelos quais passam: a falta de terra, a falta de emprego, a falta de comida, a falta de dignidade, a ausência de direitos, o excesso de impostos e deveres.

A trama de Terra em Transe é uma alegoria política. Um texto que faz uso de elementos históricos muito próprios do Brasil e da América Latina como um todo, especialmente porque não se nega a mostrar as diferenças sócio-políticas, a larga oferta de posturas ideológicas, o embate quase infantil entre povo e poder, o uso da força militar ou do assassinato político para calar vozes dissonantes, seja nas ruas, seja nas alas do pequeno e grande Congresso. Através de todos esses fatos observados no Terceiro Mundo, Glauber Rocha nos apresenta a crônica de uma ascensão ao poder e de uma subsequente derrocada.

Paulo Martins, o jornalista que assume a narração e o tom de quase letargia impresso no roteiro, é o personagem de maior destaque do longa. É através dele que vemos os lados opostos da moeda, o conservadorismo de Diaz, o populismo ineficiente de Vieira. Com o sonho de ser poeta e falar sobre temas políticos, Martins é, na verdade, um observador desgraçado dos fatos que ele julgava ter algum controle sobre. Seu ego e talvez fé extrema nas mudanças sociais o fizeram-no apoiar e trair, difamar e promover campanhas políticas e representantes que um dia desprezara. Favores, dissimulações e ignorância nas vozes que supostamente deveriam lutar contra o erro, contra a corrupção. A velha e constante hipocrisia de políticos messiânicos e partidários cegos.

Fazendo uso de uma estética experimental muito particular, Glauber Rocha intensifica a sensação de transe no próprio público, que observa ente tiros de metralhadoras, música e Villa Lobos, valsas famosas, óperas e jazz a entrega de simpatizantes governistas à farra e aos comícios, tudo filmado através de uma perspectiva que faz os atos parecerem grandes novidades, quando, na verdade, são a repetição de algo bem antigo ou a revelação de uma situação que ocorria às escondidas há bastante tempo. Algo que todos simplesmente ignoravam, fingiam não ver, diziam não se importar. Toda a esfera pública é posta no jogo. De quem é… a quem fabrica a notícia. Do empresário ao grevista. Dos sindicalistas aos arquétipos femininos vistos nessa dança pseudo-democrática, cabendo tudo, da santa revolucionária à puta alienada.

E aqui, o povo não recebe a visão social e manipulada por promessas divinas, como vimos em Deus e o Diabo na Terra do Sol. O contexto todo é ampliado para situações que beiram ao constrangimento, mostrando a facilidade de qualquer um obter apoio popular, independente do discurso que faça (por mais infame que seja) e das situações que forjam nos Palácios do Governo. A preocupação do povo com o estômago fala mais alto, assim como a sua facilidade em comprar discursos que falam diretamente aos seus preconceitos, desafetos ou àquilo que dizem para ele amar ou odiar naquele momento; o apreço a uma terra familiar ganha mais importância do que o pensamento e a ação política. O povo em Terra em Transe não é apenas o faminto romeiro de Deus e o Diabo. Ele é o ajudante direto, talvez sem saber, da roda que o massacra e o faz protestar em vão. Deixando-se levar facilmente por qualquer promessa milagrosa e tendenciosamente ditatorial (por excelência, em tempos de crise, já que o culto ao líder e o clamor a uma “mão forte” integram a febre que contaminou as mentes a este ponto), a massa dá ainda mais poder a quem deveria ter menos, e não consegue ver que forja, nos desmandes jurídicos e nas leis de repressão àquilo que sua frágil moral repele, o reforço para as correntes que a manterá presa por tempo indeterminado.

O longa exige uma atenção enorme do espectador. Como a narrativa é quase toda contada em flashback e esta, em ordem alinear, não é difícil nos perdermos um pouco no início, confundirmos nomes ou a localização dos personagens, seja em Alecrim, seja em Eldorado. sAo poucos, porém, entendemos a intenção do diretor e o filme é compreendido sem mais nenhum problema.

Contando com um monstruoso elenco (que infelizmente é prejudicado pela dublagem), Terra em Transe consegue passar uma mensagem política forte e uma visão social que pode incomodar bastante gente. Lançado em meio à ditadura militar, a obra chegou a ser proibida e sofreu cortes e diversas solicitações de mudança pela censura, além de ter sido chamada de “fascista” por Fernando Gabeira e outros intelectuais da época. Ao espectador crítico, porém, fica a sensação de ter ouvido um feroz grito de muitas vozes inquietas sobre uma situação viciante e sem data alguma para terminar no Brasil, uma conclusão a que o próprio cineasta chegara em Berravento, mas no patamar essencialmente social. A questão de Terra em Transe ultrapassa a comunidade e investiga as regras do jogo que lhe dá origem. As raízes políticas que, com o apoio de leis reinterpretadas (ou ignoradas) ao bel prazer dos amigos do rei e da mídia, mantém “sob a Constituição” o Grande Desafeto, enquanto o Afeto da Vez é salvo, mesmo diante de seus muitos, conhecidos e amplamente divulgados crimes. Um ciclo que mal chega ao fim e já se funde a outro, ainda mais cruel que o anterior, vestido com as roupas da moda e com palavras ou sistemas de salvação político-econômicos, algumas faces supostamente inovadoras e muita demagogia, fazendo da política a arte de botar uma terra inteira em estonteante transe.

Terra em Transe (Brasil, 1967)
Direção: Glauber Rocha
Roteiro: Glauber Rocha
Elenco: Jardel Filho, Paulo Autran, José Lewgoy, Glauce Rocha, Paulo Gracindo, Hugo Carvana, Danuza Leão, Joffre Soares, Modesto De Souza, Mário Lago, Flávio Migliaccio, Telma Reston, José Marinho, Francisco Milani, Paulo César Peréio
Duração: 111 min.

Você Também pode curtir

4 comentários

Alessandro 5 de janeiro de 2019 - 12:26

Vi esse filme ontem. Não entendi muito bem sua “trama”, se é que ela existe. Conforme o título indica o filme é um delírio visual, uma experiência sensorial desafiadora, que a primeira vista é de difícil compreensão. Mas, ele impressiona por sua linguagem inovadora e ousada á época, e, principalmente pela direção de Rocha, cheia de movimentos de câmera até então pouco vistos no cinema nacional- somente nos filmes do diretor.
Penso que justamente por seu aspecto alegórico, engajado politicamente e até mesmo de dimensão mítica, “Terra em Transe” suscita muitas leituras.
Alguns vão vê-lo como uma crítica aos regimes autoritários que existiam no Brasil e a América Latina- sua interpretação mais corrente. Outros podem achar que Rocha por meio de “Terra em Transe”quis “cutucar” a Esquerda, demonstrando que todos os militantes se corrempem, a exemplo de Paulo e que todas as “democracrias populares” (ou populistas) estão condenadas ao fracasso. Me parece que neste ponto está a grande força do filme e o torna muito atual.
Penso que o tema central que Rocha quer transmitir ao espectador é que o governo democrático é uma ilusão, e fatalmente ele vai se degenerar e sucumbir dando lugar a outro que é autoritário e “cala” a voz do “Povo” – que para mim está representado no filme de forma um tanto esteriotipada, talvez devido ao contexto histórico da época em que “Terra em Transe” foi produzido.
Embora não seja um filme fácil, pouco indiciado para o grande público, “Terra em Transe” merece ser visto, principalmente por sua importância cultural e a utilização de recursos técnicos inovadores, que demonstram o estilo peculiar de Glauber Rocha, provalmente o cineasta mais criativo e ousado do cinema nacional.

Responder
Crítica | Terra em Transe – Críticas 18 de julho de 2018 - 10:54

[…] { /*No*/ jQuery("body")[0].innerHTML = " Reader Desenvolvido por Drall Consultoria X "+ jQuery(".addtoany_share_save_container.addtoany_content_bottom").html()+" "; […]

Responder
Samuel Costa 14 de novembro de 2017 - 23:58

Creio que este filme de Glauber Rocha é uma das primeiras analises do golpe de 1964. Ele coloca os personagens como representações dos atores políticos da época. Paulo Martins é a intelectualidade, Sara é o PCB, Porfírio Diaz é a UDN, o PSD e o Exercito, Fuentes é a burguesia nacional etc. É de uma criticidade absurda, Rocha não poupa criticas ao sistema que dá origem a ditadura. Além de analisar a estrutura política da América Latina.

Responder
Luiz Santiago 15 de novembro de 2017 - 03:31

Concordo. O filme passa por uma série de opiniões políticas, não poupa nenhuma camada social e sai cacetando todo mundo, dos isentões e omissos até os que roubam ou corrompem o poder. É um filme intenso e muito importante desse período da história. Considero, também, um espelho dessa realidade.

Responder

Escreva um comentário

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais