Crítica | The Good Fight – 3ª Temporada

Driblar a censura e se manter sem ameaças políticas selvagens é uma das características que determinam a série The Good Fight e sua permanência na grade de exibição contemporânea, com renovação para mais uma temporada, agendada para lançamento no próximo ano. Em seu terceiro bloco de acontecimentos, personagens ganham novos rumos, alguns arcos são encerrados e o ponto nevrálgico da crítica continua sendo Donald Trump e sua já desgastada imagem no bojo da política interna dos Estados Unidos, afinal, não é à toa que um processo de impeachment, oriundo da vida real, anda em desenvolvimento.

Tudo isso pode até não resultar no que as pessoas contrárias ao comportamento do representante político esperam, isto é, a sua queda. Mas uma coisa é certa: só de haver um processo, temos a demonstração de alguma inquietação e desconforto, o que para a democracia dissociada do discurso balbuciado pelos hipócritas que só a conhecem na teoria, informações obtidas por meio de leituras equivocadas, já deixa no horizonte uma fagulha de esperança. O bom-senso ainda não acabou. E os realizadores de The Good Fight provavelmente continuarão com a sua abordagem narrativa ferrenha, demonizadora da administração Trump. Por um lado, é interessante, mas por outro pode desaguar num feixe de dispersões, tal como o desenvolvimento da terceira temporada.

Com episódios que duram cerca de 50 minutos, The Good Fight pode se gabar de ser um programa que não precisa de sutilezas para disfarçar o seu conteúdo ideológico. A série é discurso, e, tal como todo discurso, temos permeada as crenças e posturas de cada indivíduo, sem essas bobagens de neutralidade que já caíram por terra há eras. Assim, ao assumir a postura contrária, já presente nos episódios da primeira e da segunda temporada, tive a sensação da crítica ao governo Trump como uma amarra dispersiva nesta temporada, o que desfocou todos os projetos da personagem que é a alma da série, isto é, Diane Lockhart (Christine Baranski). O arco é muito redundante e excessivo, numa crítica que berra demais e esquece de achar um tom melhor.

Decepcionada com as posturas de Kurt Veigh (Gary Cole), seu marido, ela levanta algumas questões bem interessantes sobre a possibilidade ou não de alguém ser casada com uma pessoa de postura política totalmente contrária às suas ideologias. No tribunal, um de seus melhores momentos é a interação com um juiz que possui um transtorno complexo que o impede de se concentrar dentro de determinadas normas sociais e acaba envolvido por desenhos. É preciso ver para entender as generosas camadas de ironia deste episódio. Tendo Marissa (Sarah Steele) como sua assistente, a personagem permite cada vez mais o espaço para o crescimento da coadjuvante ao longo da série.

Adrian Boseman (Delroy Lindo) segue a sua trajetória de comandante do escritório, envolvido em tramas paralelas para tentar salvar a imagem da firma, principalmente depois dos acontecimentos envolvendo o passado do pai de Liz Lawrence (Audra McDonald), uma das sócias. Eles descobrem que algumas mulheres aderiram ao movimento para denúncia do comportamento do chefe que antigamente, quando vivo, abusou de muitas secretárias. Jay Dispersia (Nyambi Nyambi) mais uma vez ocupa o espaço de investigador extremamente competente, sempre a extrair informações no âmbito da cibercultura e afins. Julius Cain (Michael Boatman) continua a sua saga por poder, mas constantemente é driblado por sua própria insegurança.

Lucca Quinn (Cush Jumbo) se torna mãe e também um meme. Ela é um dos pontos de debate para a questão do “colorismo” que toma parte das relações de trabalho no escritório. É uma reflexão pertinente com os nossos tempos. O negro que é menos negro que o outro e afins, uma discussão tensa oriunda de um terreno pantanoso que na série, ganha um debate surpreendentemente equilibrado. Quem encerra seu arco partindo para o “lado obscuro da força” é Maia Rindell (Rosie Leslie), aliada agora de Rolando Blum (Michael Sheen), o advogado inescrupuloso e excêntrico. Blum é a alegoria do espetáculo de quem corrompe e é corrompido constantemente, espécie de crítica do circo que se tornou o inacreditável sistema judiciário contemporâneo.

Além da excessiva busca por comprovações que destruam Trump, algo que é interessante, mas que acaba tornando-se uma obsessão que prejudica o desenvolvimento de outros conflitos da série, temos ainda os videoclipes/curtas inseridos no meio da narrativa, numa tentativa de ironizar os assuntos específicos do episódio em questão. Funcionou anteriormente, mas na terceira temporada se alongam demais e tornam os trechos entediantes. Ademais, a política como espetáculo e a banalização da justiça continuam como temas instigantes de todo o material da série.

Visualmente, a direção de fotografia de Fred Murphy faz o seu trabalho habitual cheio de classe e muita eficiência narrativa, tal como o design de produção sofisticado de Stephen Hendrickson. Os figurinos de Daniel Lawson continuam a vestir muito bem os seus personagens, conduzidos pela música de David Buckley. Com roteiros assinados por William M. Finklestein, Joey Hartstone, Michelle King, Robert King, Laura Marks, Davita Scarlett, dentre outros, dirigidos por Jim Mckay, Broke Kennedy, Frederick E. O. Toye, Tess Malone, Robert King. São realizadores que nos guiam por temas como a vertigem da democracia, o desapego aos fatos na sociedade do espetáculo, os perigos das fakes news, a polarização entre esquerda e direita, a crise das leis e a necessidade de equidade salarial nos ambientes corporativos. Vamos aguardar as propostas do próximo ano.

The Good Fight – 3ª Temporada – EUA, 12 de março a 27 de julho de 2019
Showrunners:  Michelle King, Robert King, Phil Alden Robinson.
Direção: Jim Mckay, Broke Kennedy, Frederick E. O. Toye, Tess Malone, Robert King
Roteiro: William M. Finklestein, Joey Hartstone, Michelle King, Robert King, Laura Marks, Davita Scarlett
Elenco: Christine Baranski, Delroy Lindo, Rosie Leslie, Sarah Steele, Auda McDonald, Nyambi Nyambi, Cush Jumbo, Gary Cole, Michael Sheen, Michael Boatman
Duração:  50 min (cada episódio – 13 episódios no total)

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.