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Crítica | The Morning Show – 2X05: Ghosts

Viva Las Vegas!

por Ritter Fan
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  • Há spoilers. Leiam, aqui, as demais críticas da série.

Como tenho dito e repetido, falta foco à segunda temporada de The Morning Show, algo facilmente verificável pelo contraste entre My Least Favorite YearKill the Fatted Calf de um lado e It’s Like the Flu e Laura de outro, mesmo considerando que os dois exemplos positivos não conseguiram alcançar a excelência uniforme da primeira temporada. Chegando à metade do segundo ano, a gangorra qualitativa continua, com Ghosts, ainda bem, filiando-se ao grupo de episódios bons, com um roteiro que mantem-se firme em uma abordagem só, sem se perder demais em narrativas paralelas que, por mais importantes que possam ser, não vêm acrescentando muito ao conjunto.

Não que Ghosts finalmente quebre a maldição da temporada e coloque a série de novo no panteão onde se encontrava, mas pelo menos é um tiro na direção certa, especialmente ao finalmente abrir um pouco mais de espaço para Alex Levy de Jennifer Aniston, que entrega, aqui, uma performance invejável ao fazer sua personagem encolher física e mentalmente diante de nossos olhos com a proximidade tanto do lançamento do livro sobre seu programa quanto de sua moderação do debate dos pré-candidatos democratas à presidência dos EUA. Vemos uma Alex realmente apavorada em ter seu nome conectado com o de Mitch Kessler na linha de que os dois já foram amantes, uma verdade que ela não quer de forma alguma que chegue à superfície e isso a afeta sobremaneira, com dores psicossomáticas nas costas que finalmente a impedem de fazer a moderação, abrindo espaço para uma Bradley feliz da vida.

O foco, portanto, são nas escolhas da vida e como algumas, em retrospecto, nos fazem mal. De certa maneira, o drama de Alex, aqui, é paralelizado pelo de Cory que parece demonstrar honestidade ao fazer de tudo para impedir que a reputação de Hannah vá para o esgoto com a campanha de difamação iniciada por um vingativo e mais do que canalha Frank. Mas o paralelismo não é na superfície do que ocorre com Alex e Cory, mas sim lá no fundo, nas sombras. Alex nunca revelou seu caso com Mitch – e vice-versa -, mas, se um livro estivesse prestes a revelar isso antes das acusações de assédio contra Mitch terem surgido, a jornalista não reagiria desta maneira. Seria algo muito mais leve e muito mais simples de se lidar. O que ela quer, agora, é apagar seu passado porque seu passado a condena e não em razão do caso com Mitch, mas sim pela implicação de que essa intimidade toda com um assediador a transforma, sob certa luz, em cúmplice de tudo o que ele fez. Exagero? Muito longe de ser. Basta olhar à nossa volta, no cotidiano.

No lado de Cory, a coisa não é menos complicada. Já havíamos entendido que o “cala boca” pago à Frank em sua saída da UBA havia sido um valor indecente capitaneado justamente pelo sempre simpático Cory, o que sem dúvida já configura uma mancha em sua reputação. Agora, descobrimos que não foi apenas isso e que esse dinheiro serviu a dois propósitos: livrar-se de Frank e fazer com que Cory retornasse à UBA como CEO. Não foi Bradley que advogou por seu amigo, como ela gosta de dizer, mas sim algo muito mais sinistro, por debaixo da mesa, que reergueu o executivo. E, com isso, fica a pergunta: sua preocupação com Hannah, apesar de tudo, é genuína ou ele está fazendo o que está fazendo para se proteger? E um detalhe importante: para impedir que a campanha anti-Hannah comece, ele vai “vender” o caso de Bradley com Laura, não tenham dúvida alguma disso e, pior, com a bênção inocente (mesmo) da própria Bradley em uma conversa dissimulada e manipulativa que se não fosse tão sombria, seria genial (ou é genial mesmo, apesar de sombria).

Ou seja, Ghosts quer nos dizer o que já sabemos, mas que não gostamos de ver jogado em nossa cara. Nós somos nossas decisões e nem todas as nossas decisões são limpas, ensolaradas e genuinamente à prova de qualquer tipo de escrutínio. Basta pararmos um pouco, respirarmos fundo, e mentalmente abrirmos as portinholas mentais daquilo que escolhemos fazer há alguns anos, meses, dias ou ontem mesmo, para descobrirmos verdades que, de tanto forçar o esquecimento, permaneceram guardadas a sete chaves em algum canto escuro.

Falando em escolhas, e só para terminar, alguém mais sentiu que Mitch está sendo completamente engrupido por Paola, cujo objetivo único parece ser conseguir aquela entrevista com ele? O veterano jornalista parece que deu toda a corda necessária para ele mesmo terminar de ser enforcado perante a mídia, em um desenvolvimento sinistro, mas muito interessante. Ou será que eu estou vendo coisa?

Ghosts torna a elevar a qualidade da temporada e parece preparar a segunda metade que, se permanecer com episódios focados como este aqui, tem tudo para mostrar-se realmente relevante novamente. Ainda tenho receio das pontas soltas que dispersam a atenção do conteúdo principal, especialmente – e sei que estou sendo um disco arranhado – o vindouro recrudescimento da pandemia que, em termos narrativos para a série, pode vir a soterrar o que vem sendo construído.

The Morning Show – 2X05: Ghosts (EUA – 15 de outubro de 2021)
Criação: Jay Carson (baseado em obra de Brian Stelter)
Desenvolvimento: Kerry Ehrin
Direção: Tucker Gates
Roteiro: Erica Lipez, Adam Milch
Elenco: Jennifer Aniston, Reese Witherspoon, Billy Crudup, Mark Duplass, Néstor Carbonell, Karen Pittman, Greta Lee, Desean Terry, Hasan Minhaj, Steve Carell, Valeria Golino, Holland Taylor, Tom Irwin, Will Arnett, Patrick Fabian, Julianna Margulies
Duração: 58 min.

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