Certas obras literárias parecem naturalmente mais propensas a determinados tipos de adaptação do que outras. Da mesma forma que O Senhor dos Anéis parece ter nascido para o cinema e Game of Thrones para o formato seriado televisivo, o universo criado por Andrzej Sapkowski carrega uma vocação muito particular para as artes animadas. Seja nos videogames onde The Witcher furou sua bolha e se consolidou como fenômeno cultural, seja, em menor escala, nas animações produzidas pela Netflix: A Lenda do Lobo (2021) e Sereias das Profundezas (2025).
Não se trata, necessariamente, de grandes filmes. Mas, considerando a forma como o streaming vem tratando suas adaptações de The Witcher majoritariamente como produtos de catálogo, os resultados das animações acabam sendo consideravelmente mais consistentes do que aqueles vistos nas produções live-action. A série principal, ao longo das temporadas, demonstra dificuldades recorrentes em fisgar o público, estabelecer um senso de coesão narrativa e tornar aquele universo verdadeiramente estimulante. Já no formato animado, há uma compreensão mais eficiente da iconografia, do tom e das possibilidades dramáticas do mundo de Sapkowski.
Sereias das Profundezas se passa em um intervalo específico da cronologia da primeira temporada da Netflix, antes de Geralt (Henry Cavil) conhecer Ciri (Freya Allan), funcionando, assim como os primeiros episódios da série, como uma narrativa paralela e uma adaptação isolada de um conto. Nesse caso, trata-se de Um Pequeno Sacrifício, presente em A Espada do Destino. A diferença fundamental é que, aqui, a animação consegue introduzir de forma autônoma, simples e funcional os elementos que sempre foram as principais qualidades de The Witcher, sem exigir grande bagagem prévia do espectador ou se perder em linhas narrativas fragmentadas.
Esse mérito, no entanto, reside muito mais nas possibilidades da estética animada do que propriamente na qualidade do roteiro. O estilo de animação do Studio Mir, inspirado em animes, com personagens em 3D integrados a cenários 2D mais pictóricos e uso expressivo da iluminação, valoriza a fidelidade visual do universo e confere fluidez às sequências de ação. Os combates de Geralt (Doug Cockle) contra monstros são dinâmicos, bem coreografados e evocam, inclusive, uma sensação participativa próxima da experiência dos videogames da franquia, algo que a série live-action raramente conseguiu reproduzir com a mesma eficácia.
Enquanto o trabalho visual contribui para dar carisma às interações entre os personagens e nos transportar para a atmosfera daquela mitologia, a montagem dá um ritmo agradável e um tom equilibrado ao filme, conseguindo ser didática sem soar excessivamente expositiva, trazendo apelo mais popular herdado da série principal e suas doses pontuais de sarcasmo – especialmente nas interações entre Geralt e Jaskier (Joey Batey) –, com uma seriedade mínima que permite que a violência, os conflitos políticos e as viradas de trama tenham algum impacto imediato.
Ainda assim, mesmo conseguindo superar esses problemas crônicos das adaptações anteriores da Netflix, Sereias das Profundezas esbarra em limitações significativas quando tenta aprofundar emocionalmente seus personagens, em especial nos romances. O arco central, por exemplo, depende que compremos o amor entre o príncipe humano Agloval (Camrus Johnson) e a princesa sereia Sh’eenaz (Emily Carey) à la A Pequena Sereia para que o conflito maior entre humanos e criaturas marinhas tenha sentido.
No entanto, o caráter episódico da animação limita severamente o desenvolvimento dessa relação, assim como de outras que deveriam ser igualmente fundamentais, como o vínculo entre Agloval e seu pai, o rei Usveldt (Simon Templeman), ou a relação dele com a chamada “bruxa-sereia” Melusina (Mallory Jansen). Reduzidos a arquétipos funcionais, esses personagens acabam se tornando quase figurantes da própria história que deveriam sustentar.
Há, aqui e ali, breves pinceladas de dilemas ligados à identidade, pertencimento e sacrifício, especialmente no arco de Zelest (Ray Chase), meio-irmão de Agloval, apresentado inicialmente como um vilão caricato, mas que passa por uma virada interessante ao assumir um papel mais ambíguo, próximo de um anti-herói. Ainda assim, o filme raramente se permite explorar essas questões particulares dos personagens com profundidade suficiente para criar uma conexão emocional genuína de algum deles com o espectador.
Como consequência, as motivações políticas por trás do conflito global perdem força, fragilizando por exemplo, a interessante tentativa de construir mistério em torno de quem, de fato, está impulsionando a escalada da guerra. Sem vínculos pessoais bem estabelecidos, a guerra que se desenha entre humanos e criaturas marinhas perde grande parte da importância e carga dramática. Mortes e sacrifícios passam a ser tratados com banalidade, deixando as soluções encontradas para o desfecho soando fáceis demais, rápidas demais e pouco coerentes com a gravidade do conflito que a própria obra se propõe a construir.
Esse aspecto de indiferença emocional estende às relações principais também, como demonstra a tentativa de romance entre Gerald e Essi (Christina Wren), uma personagem com potencial, carisma e sensibilidade, mas que acaba reduzida a um “caso” pontual com o protagonista, sendo subexplorada em seu arco pessoal e em sua relação com a própria comunidade costeira. Mesmo Jaskier, que pertence àquele ambiente e poderia funcionar como elo cultural e emocional entre os mundos em conflito, tem pouco espaço para se desenvolver de maneira significativa para além de um bom alívio cômico dentro desse contexto.
Ainda assim, como aventura isolada, Sereias das Profundezas funciona, entretém e reforça a percepção de que o universo de The Witcher encontra na animação um terreno muito mais fértil do que no live-action, sendo, até aqui, o produto mais divertido da franquia com o selo da Netflix.
The Witcher: Sereias das Profundezas (The Witcher: Sirens of the Deep | EUA, Coreia do Sul, Polônia, 2025)
Direção: Kang Hei Chul
Roteiro: Mike Ostrowski, Rae Benjamin (baseado na obra de Andrzej Sapkowski)
Elenco: Doug Cockle, Joey Batey, Anya Chalotra, Christina Wren, Emily Carey, Camrus Johnson, Simon Templeman, Ray Chase, Mallory Jansen, Cynthia Kaye McWilliams, Ramon Tikaram, Kari Wahlgren
Duração: 91 min.
