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Crítica | Um Lobisomem Americano em Paris

por Leonardo Campos
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Nunca sentei para fazer uma análise em cálculos, mas desconfio que os lobisomens sejam tão numerosos no cinema quanto os vampiros. Desde o preâmbulo da história do cinema, a licantropia foi abordada em diversas narrativas, majoritariamente de terror. Conhecida por ser a transformação de um homem ou mulher em lobo, a metamorfose que possui diversas leituras alegóricas pode ser dar por “mágica”, “ataque” ou punição de entidades mitológicas, como demarcado na história desta figura monstruosa, presente desde os tempos remotos, com aparições na cultura greco-romana, mas possivelmente delineada sem registros comprobatórios em imaginários anteriores. Para o terreno psicanalítico, a licantropia amada pelo cinema é um exemplo de distúrbio, raríssimo e que vai além desses elementos primários da formação do mito na cultura popular. Um dos textos mais esclarecedores sobre o assunto é a publicação de Sabine Baring-Gould, O Livro dos Lobisomens, datado de 1865, material que apesar de tanto distanciamento da leitura cinematográfica do monstro em Um Lobisomem Americano em Paris, de 1997, ainda é bastante referenciado quando o assunto são essas criaturas ferozes conhecidas pela mutação e ataque nas noites de lua cheia.

No compêndio, o autor flerta com a análise de textos literários de épocas variadas, oriundos da tradição oral transcrita e de documentos que registraram historicamente supostos acontecimentos reais. Na tessitura de sua escrita, o autor alega que a figura do lobisomem está tão enraizada na história da humanidade que provavelmente grupos tribais anteriores ao advento da escrita o tinha num formato específico transmitido pela oralidade. Essa longa tradição, por sua vez, é reinventada próximo ao final da década de 1990, na continuação de Um Lobisomem Americano em Londres, filme que ao lado de Grito de Horror, em 1981, redefiniu o lugar destas criaturas na cultura cinematográfica moderna. Bala de prata? Lua cheia para a transformação? Não. Aqui, os personagens são envolvidos numa nova leitura do mito, iniciado quando três jovens mochileiros atravessam o continente europeu em busca de novos rumos para as suas vidas. Andy McDermott (Tom Everet Scott), Chris (Phil Buckman) e Brad (Vince Vielusf). Quando chegam ao território francês, especificamente em Paris, seguem para a Torre Eiffel, tendo em vista aproveitar a bela vista sem a presença dos turistas. Eles não adentram pelos moldes convencionais, ao contrário, invadem para tentar praticar bungee jump, mas logo são subitamente interrompidos.

E não, ainda não estamos diante de um ataque de lobisomem. Ao perceber que uma jovem tenta utilizar o mesmo espaço para ceifar a sua vida, Andy a interrompe. Ele a salva da tragédia, mas acaba machucado com um choque movido pelo contato entre energia elétrica e os metais da torre. Para no hospital e quando acorda, quer saber por tudo quem é a moça, até descobrir se tratar de Serafine Pigot (Julie Delpy), o fruto do casal Alex Price e David Kessler, de Um Lobisomem Americano em Londres. Sob a direção de Anthony Waller, os personagens de John Landis são retomados em tom memorialístico, agora com a maldição impregnada nesta nova geração. Quem desenvolveu o novo texto foi o próprio cineasta, numa parceria com Tim Burns e Tom Stern, material que dá base para a direção de fotografia de Egon Werdin passear vertiginosamente pelas ruas de Paris, emulando passagens do filme anterior, agora reinterpretadas de outra maneira, como por exemplo, a clássica passagem do engavetamento de carros em plena noite de lua cheia, confusão causada pelo lobisomem em pleno ataque, mas que aqui ganha um tom paródico, em plena luz do dia. As perseguições também são tratadas com eficiência pelo setor, capacitado no acompanhamento da ação constante do jovem Andy em sua nova “condição humana”.

Depois da busca incessante, ele descobre Serafine no hospital em que se encontrou internado, em busca de órgãos frescos para se alimentar. Confuso, o jovem se machuca de novo e é levado para os cuidados da moça que inicialmente o esnoba bastante. Ele agora sofre as alucinações semelhantes ao pai da moça no filme anterior. Dialoga com os mortos, sente-se parte de uma “comunidade imaginada” que é puro horror em seu sentimento de pertença e viverá momentos de muito apuros ao ser perseguido por um clã que deseja aniquila-lo. Tudo que ele precisa e quer, no entanto, é sobreviver e adentrar numa relação segura com a sua jovem amada, paixão à primeira vista. Será assim que ao longo dos 105 minutos de Um Lobisomem Americano em Paris, contemplaremos a montanha-russa de emoções que será a relação deste novo casal do horror, tratado dentro de um texto que privilegia bastante o humor em detrimento da tensão, deixada apenas para as poucas situações sangrentas, algo criado para ser aterrorizante, mas ao contrário, muito tosco e cômico, sem os efeitos ambíguos que deveriam ser o foco da produção, como no ótimo ponto de partida anterior, aqui conectado apenas pelo arco do passado da personagem e também pelas alucinações e demais situações vividas pelo jovem Andy.

O que foi incrivelmente desenvolvido para o estabelecimento de uma atmosfera intrigante no filme de 1981 não se repete nesta continuação também inferior esteticamente, lançada tanto tempo depois e com recursos técnicos capazes de construir uma história ainda melhor. Não ocorreu desta maneira, principalmente pelo equivocado trabalho de John Grower como membro da equipe de supervisores dos efeitos visuais, desqualificados demais por dependerem exclusivamente de recursos digitais, sem a velha e funcional dobradinha da maquiagem + efeitos especiais + CGI. A formação das criaturas em seu processo de transformação deixa muito a desejar, desde a falta de realismo do monstro que funcionaria bem com o apoio de animatrônicos aos recursos computadorizados que sequer conseguem criar sombras e outros detalhes de uma figura que aparece deslocada da formatação da imagem ofertado aos espectadores. A trilha sonora de Wilbert Hirsch cumpre a função de acompanhar as imagens esfuziantes de muitos bons momentos, num trabalho também menos impactante, conectado com o tom pueril do desenvolvimento do roteiro, afinal, se a história é fraca, o compositor não recebeu material qualificado para partitura.

Ademais, o filme insere na mitologia o ato de se alimentar do coração de quem o vitimou como uma estratégia para se livrar da maldição, além de excluir o elemento lua cheia para formatar um padrão de comportamento para os lobisomens, agora banalizados e transformados em monstros aleatórios e do cotidiano. Nada contra mudanças, mas tendo um forte ponto de partida, teria sido mais honesto cuidar adequadamente do texto antes de leva-lo aos “finalmentes”, concordam?

Um Lobisomem Americano em Paris (An American Werewolf in Paris-Luxemburgo/França/Estados Unidos, 1997)
Direção: Anthony Waller
Roteiro: Tim Burns, Tom Stern, Anthony Waller (baseado em personagens criador por John Landis)
Elenco: Tom Everett Scott, Julie Delpy, Vince Vieluf, Phil Buckman, Julie Bowen, Pierre Cosso, Thierry Lhermitte, Tom Novembre, Maria Machado, Ben Salem Bouabdallah, Serge Basso, Charles Maquignon, Jochen Schneider, Alan McKenna, Hervé Sogne, Edgar Kohn, Jean-Claude Deret, Isabelle Constantini, David F. Friedman, Christian Magnani, Chris Bearne, Pierre Bodry, Pieter Riemens, Emile Cappachione, Serge Hugel, John Waller, Nicholas Waller, Anthony Waller
Duração: 105 min.

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