Crítica | Uma Dobra no Tempo

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“Péssimo” é a palavra mais gentil que podemos encontrar para definir Uma Dobra no Tempo, segunda adaptação do livro de Madeleine L’Engle (a primeira foi uma produção canadense de 4h, lançada e 2003 e dirigida por John Kent Harrison). Nesta versão americana, a Disney investiu pesado, disponibilizando um orçamento estimado de 103 milhões de dólares, o que deu a à diretora Ava DuVernay (dos ótimos Selma: Uma Luta Pela Igualdade e A 13ª Emenda) o título de primeira mulher negra a dirigir um filme live-action com um orçamento de mais de US$100 milhões. As filmagens aconteceram entre novembro de 2016 e fevereiro de 2017 e o longa-metragem terminou com apenas dois pontos que se salvam do imenso desastre de qualidade. O primeiro é a fotografia, assinada por Tobias A. Schliessler (de Sr. Sherlock HolmesA Bela e a Fera) e a excelente direção de arte, assinada por Gregory S. Hooper (Capitão América: Guerra Civil) e Jeff Julian (Doutor Estranho), supervisionados por David Lazan (Homem-FormigaWestworld).

Ao vermos o trabalho de safras imediatamente anteriores da equipe de arte em Uma dobra no Tempo, entendemos o dinamismo, algumas escolhas visuais e a exploração mais do que criativa do universo literário de L’Engle, que conta a história de como o Sr. Murry (Chris Pine), um astrofísico cheio de curiosas ideias sobre tempo, espaço e viagem no tempo, entrou em outra dimensão e foi mantido em cativeiro, num planeta onde se origina todo o mal no Universo. O roteiro de Jennifer Lee e Jeff Stockwell acompanha Meg (Storm Reid), seu irmão mais novo, Charles Wallace (Deric McCabe) e um novo amigo e possível paquera, Calvin (Levi Miller) em uma série de viagens entre dimensões.

Nossa impossibilidade de entender o que realmente está acontecendo começa ainda nos primeiros cinco minutos. O roteiro estabelece uma boa relação entre pai e filha, fala da chegada de um irmão mas, como em um passe de página elíptica — certamente uma das piores elipses já vistas no cinema — passamos para o cenário quase disfuncional da família Murry. Neste ponto, o pai está desaparecido há quatro anos e a filha Meg parece não conseguir processar a “perda”. Notem que a primeira grande coluna de um roteiro, principalmente para obras de fantasia cheia de “novidades” como esta, é na verdade, um escoro mal colocado que faz tudo despencar ainda na primeira hora. Sim, porque sem exploração de conceitos deste Universo, como seria possível o filme avançar? O espectador fica visualmente maravilhado aqui e ali, mas não processa nada além dos clichês na tela: a filha rebelde, o filho gênio e estranho, as estudantes invejosas da escola e coisas incompreensíveis e risíveis como um garoto que aparece do nada elogiando o cabelo da protagonista e dizendo que “foi chamado” para estar naquele lugar, naquela hora.

Depois, temos a não-existência da segunda grande coluna de um roteiro, que é o desenvolvimento de personagens. Mesmo embebido em efeitos especiais elogiáveis, o público não encontra sentido para nada que se passa tela, fazendo com que a experiência seja estesia da pior espécie, que é aquela onde o produto é belo, mas não cumpre nem mesmo o papel de divertir ou de desenvolver o mínimo possível de elementos internos (e há quem compare o valor de Uma Dobra…Valerian e a Cidade dos Mil Planetas, o que é uma tremenda bobagem, já no caso do filme de Luc Besson, pelo menos o básico a gente tinha!), resultando em diálogos pavorosos, em personagens que se tornam mais irritantes a cada cena (Meg, Senhora Qual, Senhora Queé e Senhora Quem são as campeãs) e ações que poderiam ter o décuplo de peso dramático, mas no máximo geram a simpatia automática que qualquer espectador vivo por dentro teria, ao contemplar uma cena assim, como os dois grandes encontros do último bloco, e ainda assim, mais o primeiro do que o segundo.

É muito difícil se deparar com uma obra de fantasia que seja totalmente descartável como esta. Nessas produções, normalmente temos o mínimo de coisas interessantes ou compensadoras, onde elementos técnicos muito bem feitos recebem boa direção e acabam se sobressaindo ao restante que é ruim. Isso não é possível em Uma Dobra no Tempo. E o mais irritante é que o livro no qual o filme foi baseado é muito bom; o estúdio que encabeça a produção (Disney) dispensa comentários; o orçamento ultrapassa os 100 milhões e a diretora encarregada é muito boa. Isso sem contar que pelo menos metade do elenco adulto já mostrou, em outras ocasiões, excelentes trabalhos. Então fica a pergunta: que tipo de maldição aconteceu aqui?

Uma Dobra no Tempo (A Wrinkle in Time) — EUA, 2018
Direção: Ava DuVernay
Roteiro: Jennifer Lee, Jeff Stockwell (baseado na obra de Madeleine L’Engle)
Elenco: Storm Reid, Oprah Winfrey, Reese Witherspoon, Mindy Kaling, Levi Miller, Deric McCabe, Chris Pine, Gugu Mbatha-Raw, Zach Galifianakis, Michael Peña, André Holland, Rowan Blanchard, Bellamy Young, David Oyelowo, Conrad Roberts
Duração: 109 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.