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Crítica | Uma Invenção de Natal (2020)

por Fernando JG
728 views (a partir de agosto de 2020)

Acostumado a escrever e dirigir filmes natalinos, David Talbert apresenta o seu terceiro filme seguido com a temática, mas desta vez bastante diferente do que fez em Um Quase Natal Perfeito (2016) e Natal em El Camino (2017). Aqui, nesse lindo conto de Natal, o diretor trabalha a partir da fantasia e da magia desta época do ano, misturando sentimentos de família, amor, solidariedade e união. Pensado como uma história que se conta, com elementos próprios da fábula, o longa apresenta um musical muito bem montado, com ótimas atuações e um entrosamento notável entre os personagens. Uma Invenção de Natal (2020) é uma grata surpresa, não é bobo, e sobretudo não subestima o seu público alvo, como foi o caso do remake de Convenção das Bruxas (2020), e por isso merece destaque pelo arco dramático e pela fotografia.  

O núcleo da história gira em torno de Jeronicus Jangle (Forest Whitaker), o maior inventor de toda Terra, um gênio criativo e matemático, que fabrica os melhores brinquedos e está prestes a finalizar a sua maior invenção, que será distribuída no Natal para todas as crianças: um boneco com vida, chamado Don Juan (Ricky Martin). Jeronicus é um clássico Self-made Man, e parece viver numa época em que o liberalismo econômico era novidade e promessa. Sua loja tem de tudo, e,  além disso, é um ambiente vivo. Lá, tudo tem vida. É o paraíso.  No entanto, a coisa muda quando seu ajudante, Gustafson (Keegan-Michael Key), o antagonista possuído pelo sentimento de inveja e envenenado pelas palavras do boneco de Jeronicus, – que, lembre-se, tem vida -, rouba o livro das invenções, o boneco junto, e constrói um Império dos Brinquedos, com as ideias roubadas do seu chefe. Jeronicus, deprimido após ver todo o seu trabalho da vida jogado no ralo, se deprime dia após dia, ficando na sombra por décadas, enquanto seu impostor ganha cada vez mais prestígio. 

O grande desenvolvimento da história fica por parte do aparecimento da neta de Jeronicus, Journey, interpretada pela mirim Madalen Mills, que faz sua estreia nas telas e dá um show de atuação, com segurança e firmeza. Aliás, Madalen Mills e Helena Zangel (Transtorno Explosivo, 2019) apareceram como ótimas surpresas nesta temporada. A menina, que vai passar alguns dias com o avô, logo se mostra ambiciosa, talentosa e um crânio em ciências exatas. Aos poucos, a menina enfrenta a rudeza e a amargura do velho para tentar ajudá-lo, e assim muda o seu destino, ensinando-o a acreditar, e com isso faz com que ele recupere a autoria de todos os seus projetos roubados. Isso não é um spoiler, porque dificilmente uma narrativa diferente desta seria construída, e nem está aí, no argumento, o grande trunfo do filme, mas sim na sua direção de arte, que acerta em cheio em todos os aspectos, produzindo um universo mágico e fantasioso, próprio da imaginação. 

Ainda que caia em clichês básicos do gênero, como a oposição entre vilão caricato e mocinho, ou no aparecimento da própria Journey como personagem do desenlace e quem vai resolver todas as contradições, o filme acerta, primeiro, na escolha de elenco. Ao decidir trabalhar focado na representatividade, a direção presenteia, não os adultos, mas um punhado de crianças que não se viam nas telas até então. Uma narrativa que é protagonizada exclusivamente por uma família afro-americana se transforma num mérito muito grande por parte da produção, já que renova toda uma tradição de filmes natalinos produzidos até então. Com a representatividade como carro-chefe, as canções não deixam de inspirar um estilo soul e R&B, construindo uma unidade de estilo muito interessante. 

O musical simplesmente dá certo. Ponto. Relembrando os grandes clássicos da Disney, e também muito influenciado pelas produções da Broadway, o entrosamento e as entradas musicais são mágicas, e parece mesmo um conto de fadas. Make it Work é a música que mais se destaca, já que ela aparece em um momento central da trama, e é super valorizada pela voz gigantesca de Anika Noni Rose (Dreamgirls, 2006).

Não dá para deixar de lado, de jeito maneira, a atuação, que eu já destaquei, da pequena Madalen Mills como Journey. Ela dá vida ao musical. Despojada, madura e dona da personagem, ela é o grande destaque do filme. A menina já vem de um histórico desde a Broadway, um prodígio, e não é à toa que o brilho recaia sobre ela. Tem de ficar de olho nos próximos anos, já que com certeza nasce uma estrela. 

A produção, que tem as mãos do John Legend, não se faz um filme de todo musicalizado. As composições, que também tem o trabalho do músico, se misturam com a história, como um prefácio, ou mais, como um sentimento. O musical serve, no fim, como uma espécie de dramatização da trama, não exagera e nem traz de menos. Acredito que este é mais um acerto, já que coloca cada coisa em seu lugar, no momento certo. 

Muito semelhante à estética de A Invenção de Hugo Cabret (2012), ou ainda parecido com O Mundo Encantado dos Brinquedos (1961), Uma Invenção de Natal investe todas as suas fichas na direção de arte. Como um conto de fadas, o longa mistura um figurino de época e um cenário clássico com muitas cores e brilhos natalinos, além do toque musicalizado, que eleva a narrativa. Além disso, os efeitos em CGI são tão reais quanto os próprios personagens, fazendo com que tudo que há no ambiente cênico pareça realmente um universo paralelo de magia, onde tudo pode acontecer.

Outro ponto que merece alguns comentários é o arco narrativo. A direção aposta e desenvolve cada personagem, e isso justifica a minutagem do filme, que encerra duas horas explorando bem todas as subtramas. Não fica nenhum ponto para trás, e entendemos os motivos de cada personagem. Além disso, a película dialoga com o mais importante conto de Natal da literatura: Um Cântico de Natal, do Charles Dickens. As cenas finais são divinas, e é como se tudo entrasse em um estado de graça próprio da época natalina. 

Uma Invenção de Natal é um lindo filme para a família, emocionante na medida certa, com uma excelente relação entre argumento e enredo, e tudo aponta para um milagre que é só possível no Natal, quando todas as esperanças se renovam. As palavras de fé, solidariedade, amor e amizade estão presentes em todas as camadas fílmicas, e não deixam a desejar em nada do que é proposto. Acreditar é a grande mensagem, já que esse pressuposto da crença é o que permite, sobretudo, a liberdade de imaginação e da fantasia. E acreditar em si mesmo, como Journey ensina ao seu avô, é a chave da realização.

Uma Invenção de Natal (Jingle Jangle: A Christmas Journey – Estados Unidos, 2020)
Direção: David E. Talbert
Roteiro: David E. Talbert
Elenco: Forest Whitaker, Justin Cornwell, Phylicia Rashad, Keegan-Michael Key, Hugh Bonneville, Anika Noni Rose, Diaana Babnicova, Ricky Martin, Jonny Labey, Lisa Davina Phillip, Marisha Wallace, Kieron L. Dyer, Sharon Rose, Tobias Poppe, Abraham Popoola
Duração: 122 min.

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