Crítica | Vidas Duplas (2018)

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Vidas Duplas (2018) é um filme que traz uma porção de boas reflexões para leitores, escritores e artistas em geral. O filme tem como costura essa questão da “duplicidade de vidas” que, na verdade, são variantes amorosas, num tipo de ciclo que causa momentos tensos e um pouco cômicos na fita. Mas curiosamente este não é o assunto mais importante e nem aquele para o qual o diretor e roteirista Olivier Assayas dedica seu tempo.

O longa começa nos apresentando uma desconcertante conversa entre o editor Alain (Guillaume Canet) e o escritor Léonard (Vincent Macaigne), que tem um livro de destaque e outros não exatamente elogiáveis na bibliografia. A conversa é filmada no estilo rápido e instigante típico de algumas obras de Assayas, e o assunto que vemos nesse momento inicial será a grande marca de toda a obra, que coloca uma porção de artistas e empresários diante da revolução digital ou de qualquer rede e tendência que possa abalar o mercado ou a imagem de alguém (no presente caso, de um político).

Há muita coisa para ser discutida em torno do tema de renovação dos métodos de escrita e leitura, e o diretor faz questão de dar espaço a diferentes visões sobre essa temática, a ponto de o espectador se perguntar o por quê de uma linha amorosa tão intricada e o motivo pelo qual a personagem de Juliette Binoche não foi colocada no mercado editorial, já que sua construção como uma atriz de TV é mal resolvida pelo roteiro e a participação dela nas discussões acaba mostrando um conhecimento bem maior dos livros do que da telinha. Como o roteiro precisa dar algumas pausas para mostrá-la trabalhando (em um espaço que não se alinha à obra e não combina com o comportamento e diálogos da personagem) e depois falando de maneira rala sobre ser atriz, o espectador tem que lidar com a quebra de um bom ritmo dramático, ir para um lugar neutro e depois voltar para o local onde se fala o que realmente nos prendeu desde o início da película.

A abordagem feita entre redes sociais e mercado editorial não é nova, mas vista de maneira bem colocada em um roteiro ajuda-nos a elencar e problematizar mais uma série de coisas, seguindo uma lista de boas perguntas: qual é o papel do crítico nesse mundo de internet? As pessoas escrevem mais e melhor hoje por conta das redes sociais ou isso é algo de uma minoria? Qual é o futuro da biblioteca, das editoras, do livro impresso? Isso acaba sendo apenas uma questão de gosto ou definirá toda a base do mercado editorial no futuro? O roteiro de Assayas mergulha nessas discussões e tempera cada uma delas com um fator humano que vai do simplório ao mais teoricamente embasado, tornando a discussão entre amigos e colegas de trabalho bastante realista e falando diretamente ao público.

À medida que essa temática profissional e teórica é desenvolvida, referências (sob diversas aplicações) ao cinema são feitas, e os longas Luz de Inverno (1963), Velozes & Furiosos (2001), A Fita Branca (2009) e Star Wars: O Despertar da Força (2015) são citados por distintos personagens para exemplificar, relembrar ou justificar um ponto de vista. Fala-se também de O Leopardo, mas do livro de Lampedusa, não da adaptação de Luchino Visconti. Nessa força tão grande dada à discussão de ideias é que o texto de Vidas Duplas deveria se erguer, sem a preocupação de utilizar uma exposição sobre casamentos em crise para supostamente dar tutano à obra. Independente disso, o filme nos entretém e nos faz pensar sobre o papel de quem lê e de quem escreve, em tempos de limitação de caracteres e proliferação de aplicativos ou telas e e-readers. E como tudo isso está sendo alterado e reescrito hoje, na História.

Vidas Duplas (Doubles vies, 2018) — França, 2018
Direção: Olivier Assayas
Roteiro: Olivier Assayas
Elenco: Guillaume Canet, Juliette Binoche, Vincent Macaigne, Christa Théret, Nora Hamzawi, Pascal Greggory, Laurent Poitrenaux, Sigrid Bouaziz, Lionel Dray, Nicolas Bouchaud, Antoine Reinartz, Aurélia Petit, Thierry de Peretti, Violaine Gillibert, Jean-Luc Vincent
Duração: 108 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.