Crítica | Você Tem a Noite

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Misturar elementos narrativos e dramáticos em um filme, tanto no roteiro quanto na direção (em outras palavras, no conteúdo e na forma) é uma escolha que pode tornar a obra mais profunda e chamar a atenção do espectador para coisas mais ordinárias da vida e, ao mesmo tempo, pensar e julgar outras menos óbvias e mais difíceis de digerir. Obras assim normalmente lançam mão de uma abordagem poética, onde a direção filma espaços e pessoas, em tese, desconectadas de algo linear ou lógico frente ao texto. A experiência visual, nesse caso, tem ares documentais ou mesmo experimentais. Mas sem o devido foco, não significam nada para o filme. Este é o caso de Você Tem a Noite (2018).

O filme é construído a partir de uma premissa de sensações. Imagens de contexto do espaço geográfico são pensadas para falar muito ao espectador, que precisa prestar atenção, pois uma elipse o espera a cada esquina. Em alguns casos, esse recurso é muito bem utilizado, como numa cena de afogamento ou em algo ligado à mordida de um cão, mas em outros casos, como na questão central da trama – o desemprego – esse tipo de abordagem não diz nada, apenas confunde e distrai o público, a quem não é permitido saber se olha para as consequências socioeconômicas da falência de um estaleiro ou para o apodrecimento de relações sociais que só se seguravam porque havia uma relação de trabalho em jogo.

No centro dos acontecimento está Sanja (Ivana Vukovic), cuja vida serve de fio da meada para que olhemos as mudanças nesse espaço. Mas como as falas são poucas e cada bloco dramático se dissipa em sentido ou em elipse para dar lugar a outro bloco, às vezes exclusivamente poético ou metafórico, que novamente se dissipa para dar sequência ao ciclo de vazio do filme, o público não consegue se conectar com ela, nem com sua situação, nem com aquilo que se passa ao seu redor. Para uma obra que pretendia mostrar um mundo em transformação e o que esta “nova fase” significa para as pessoas afetadas, Você Tem a Noite termina sendo apenas um filme sobre imagens passageiras. O movimento econômico, social e íntimo, que poderia nos dar algo realmente bom, não ganha espaço para se desenvolver e morre na praia. Como tudo o que diz respeito ao conteúdo do longa.

Existem, porém, duas cenas lindíssimas no filme: uma diante de uma fogueira, num plano geral noturno, que traz um diálogo onde se “explica” o título da fita; e outra num campo cheio de rochas e à beira de uma floresta, onde o final de um ritual acontece. No restante da obra, o cineasta e seu fotógrafo não conseguem nos conectar de fato com o espaço, já que o mínimo de significado que poderíamos dar a ele fica apenas na intenção. Levado pela água das tempestades que filma, Você Tem a Noite é um exemplo de que não se junta realismo e poesia de qualquer jeito, esperando que o público construa o filme para o diretor, ainda mais quando a obra está afogada num mar de estilo bem peculiar. Se o projeto tinha como princípio colocar a plateia como agente ativo da narrativa (e as inúmeras elipses escancaram essa intenção), o mínimo que se esperava era algo para o público completar, julgar, interpretar e sentir, não uma bagunça de imagens embaladas por um quase-roteiro.

Você Tem a Noite (Ti imas noc) — Montenegro, Sérvia, 2018
Direção: Ivan Salatic
Roteiro: Ivan Salatic
Elenco: Jasna Djuricic, Boris Isakovic, Nikola Manojlovic, Petar Pejakovic, Luka Petrone, Momo Picuric, Marko Stibohar, Nikola Stojanovic, Alice Vong, Ivana Vukovic
Duração: 82 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.