Crítica | Wolverine: The Long Night

(arte: Arsen Syromyatnikov)

A Marvel ainda tinha uma fronteira quase que completamente inexplorada: audiodramas. Afinal de contas, diferente da DC, que desfrutou do auge da Era do Rádio e pode levar às ondas do ar adaptações audiofônicas de Superman que tiveram participação do Batman (este só ganharia um audiodrama próprio em 1966), a Marvel só teve essa oportunidade em 1974 com o Quarteto Fantástico, mas já em uma época em que o rádio tinha perdido o poder. Mas, por meio de seu braço Marvel New Media e em parceria com a Sticher, a empresa parece querer corrigir essa sua “falha” e o primeiro de seus super-heróis a ganhar um audiodrama em tempos modernos foi Wolverine, em The Long Night (ou A Longa Noite em tradução direta e literal).

Seu sucesso em 2018 foi tão grande que não só a história está recebendo uma adaptação em quadrinhos como ganhará uma continuação – ou “segunda temporada” – em 2019 que já ganhou o título de The Lost Trail. Muitos inclusive já especulam um Universo Audiodramático Marvel (ou Marvel Podcast Universe), o que definitivamente não me parece nenhum absurdo. Mas será que esse começo do que ainda é a mais pura especulação de um universo compartilhado realmente mereceu essa aclamação toda?

Àqueles que não conhecem o programa, já fica um aviso importante para evitar frustrações: Wolverine, apesar de ser constantemente citado ao longo dos 10 episódios de 30 minutos cada, não é muito mais do que um coadjuvante na história que leva seu nome. Aliás, coadjuvante talvez seja até demais, pois a presença de Logan, com voz de Richard Armitage, se fosse em um filme, seria chamada de ponta glorificada. Mas calma, respire fundo, pois The Long Night sobrevive muito bem obrigado sem que sua estrela apareça toda hora, pois o mistério ao redor de sua ausência é bem trabalhado e funciona para manter aquela aura furtiva e violenta que o Logan “raiz” sempre deveria ter, até mesmo nos quadrinhos.

A narrativa é quase que integralmente a partir dos olhos – ou seria mais correto dizer “vozes”? – de Sally Pierce (Celia Keenan-Bolger) e Tad Marshall (Ato Essandoh), dois agentes (do que exatamente faz parte do mistério, então não revelarei) que chegam à cidade de Burns, no Alasca, para investigar a morte de nove pescadores achado com marcas de ataques selvagens no porão de um barco de pesca. Logo, a dupla descobre que outros assassinatos semelhantes já haviam acontecido na cidadezinha perdida no meio do nada e, juntamente com Bobby Reid (Andrew Keenan-Bolger), jovem policial local apontado pelo xerife Ridge (Scott Adsit) que pouco quer cooperar. Tudo é construído de maneira que Logan, que chegara à cidade semanas antes e conseguira emprego no mesmo barco de pesca cuja tripulação foi dilacerada, pareça culpado, mesmo que, claro, qualquer um escutando saiba que certamente as coisas não são tão simples assim.

Quando a situação é estabelecida, o roteiro de Benjamin Percy começa a inserir um dilúvio de clichês do gênero policial na história. Há o já mencionado xerife que só existe para atrapalhar a investigação, o milionário local que manda em tudo e tem segredos escusos, um culto à noite chamado Aurora que usa a rede de cavernas da região para se locomover e assim por diante. Cada capítulo procura abordar um aspecto desses, costurando um caso bem mais complexo que a superfície deixa entrever, mas que o texto por vezes acha que é mais complexo do que realmente é. No final das contas, é apenas uma historieta policial com algumas reviravoltas, uso razoavelmente exagerado de tecnologia extremamente conveniente para “pular etapas”, e, claro, a presença discretíssima, aqui e ali, de Logan.

Se a história parece um receptáculo de elementos narrativos batidos e óbvios e que provavelmente não surpreenderá ninguém, o trabalho técnico que dá vida ao audiodrama é absolutamente irretocável. Em primeiro lugar, há que se falar dos perfeitos trabalhos de voz de Keenan-Bolger e Essandoh, cada um criando agentes opostos em tudo. A Agente Pierce é durona e fria, enquanto que o Agente Marshall é delicado e preocupado com as pessoas, formando sem dúvida, aquela dupla-clichê de tantos e tantos filmes que assistimos, mas que, lá como aqui, funciona à perfeição. Armitage, por sua vez, é a voz definitiva de Wolverine, mesmo falando tão pouco. Gutural a ponto de ser mais um ruído animal, o ator consegue imprimir um tom primal e ao mesmo tempo cínico e desesperançoso ao mutante que nem mesmo Hugh Jackman foi capaz em sua longa carreira como o personagem nas telonas.

Essa qualidade vocal, aliás, permeia todo o audiodrama, com absolutamente todos os atores dando o máximo, algo que reputo ter sido o trabalho de direção de Brendan Baker e Chloe Prasinos. E, acompanhando essas incríveis vozes, temos todo o espetacular trabalho de edição e mixagem de som que tornam vívidos cada sequência em que acompanhamos os agentes desenrolando um mistério cada vez mais profundo. Sons de passos em superfícies diferentes, chuva, garras sendo usadas, vozes capturadas em ambientes fechados ou abertos e assim por diante. Nada que não seja necessário pela natureza do momento em si é reciclado, nada é feito de maneira genérica.

Mas não havia história suficiente para sustentar algo como 300 minutos de áudio e o roteiro poderia ser radicalmente podado, mas The Long Night é sim um bom começo para o desbravamento da mídia audiodrama pela Marvel. Se um dia teremos um universo compartilhado tão rico quanto o do cinema? Eu apostaria que sim.

Obs: O audiodrama completo em inglês já está disponível gratuitamente. 

Wolverine: The Long Night (EUA, setembro a novembro de 2018)
Produtoras: Marvel New Media, Stitcher
Direção: Brendan Baker
Assistente de direção: Chloe Prasinos
Roteiro: Benjamin Percy
Elenco: Richard Armitage, Celia Keenan-Bolger, Ato Essandoh, Andrew Keenan-Bolger, Scott Adsit, Brian Stokes Mitchell, Bob Balaban, Zoe Chao, David Call, Halle Charlton
Duração: aprox. 30 min. por episódio (10 no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.