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Crítica | Decálogo 2 – Não Usarás o Nome de Deus em Vão

por Luiz Santiago
619 (a partir de agosto de 2020)

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estrelas 5

Os dois primeiros filmes do Decálogo fornecem para o espectador uma visão geral de toda a série. Salvo as questões técnicas, o diretor Krzysztof Kieslowski estabeleceu uma rede de conexões e simbolismos que se espalham por todos os episódios, mas não há, em toda a jornada, uma dupla de capítulos que se oponham tão fortemente e que sejam tão ilustrativos para a obra completa como o Decálogo 1 e o Decálogo 2. Antes de partirmos para uma análise mais pontual é importante entendermos o por quê este episódio é oposto ao seu predecessor e como, juntos, conseguem dar uma visão geral de todo o Decálogo.

O ponto central da narrativa nesses filmes é a diferença da punição divina frente a desobediência aos mandamentos. No Decálogo 1, vimos que a criação dos ícones é punida com a morte. No Decálogo 2, o castigo não é físico e sim moral, resultando em uma gravíssima crise ética (a coluna de toda a série) e possíveis consequências desastrosas para os protagonistas. O Deus do Decálogo 2 não está preocupado em “visitar a maldade dos pais nos filhos”, mas sim em “não ter por inocente o que tomar o seu nome em vão”. Entre os oito episódios subsequentes, estarão espalhadas essas duas visões punitivas. Para completar a teia de relações, destacamos a forte oposição simbólica entre os dois primeiros episódios.

No Decálogo 1, o motor da narrativa é a morte; no Decálogo 2, embora a morte esteja em evidência, o motor da narrativa é a vida. Perceba que o elemento trágico não se ausenta, mas a visão de Kieslowski salta ao comum, pensa em uma outra forma de punição divina para os pecados contemporâneos e, embora use a vida como premissa, destaca a sua ameça fatal.

Não há nada mais angustiante do que viver ameaçado pela morte. Ao mesmo tempo, o paradoxo: tudo em torno desses personagens pulsa de vida. E eu penso que aí está a primeira punição de Deus, por ter tido seu nome usado em vão, ele impede que a morte se aposse de tudo o que ameaça.
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Uma luta contra o nome

e o poder do desejo manifesto a Deus
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O roteiro do Decálogo 2 apresenta uma complexidade maior que a do filme anterior – não de entendimento, mas de elementos a serem analisados.

Temos aqui a história de Dorota Geller, uma violinista que vê seu marido à beira da morte e, ao envolver-se com um amigo da família, engravida. Sabendo que não resta muito tempo de vida ao cônjuge, Dorota pensa em levar a gravidez até o final e seguir o romance com o amante. Mas ao perceber que a morte de Andrzej não acontece, a resolução é abortar a criança. Uma vida só poderia acontecer com a anulação da outra.

A sentença esperada por Dorota vem com a jura do médico de Andrzej, afirmando que o paciente certamente morreria, dado o progressivo avanço da doença. A infração do terceiro mandamento, “Não tomarás o nome do Senhor, teu Deus, em vão […]” acontece justamente nesse momento. E aqui presenciamos mais uma genial armadilha criada por Kieslowski e Piesiewicz: o médico jura, infringindo o mandamento, mas com isso salva uma vida. Entretanto, no julgamento divino, ele não é inocente. E para contradizer a palavra do médico — que é “o deus da ciência do corpo” — Deus resolve mudar o estado de saúde de Andrzej. Não vemos uma melhora progressiva do enfermo, mas Kieslowski deixa bem claro o momento em que essa “cura milagrosa” acontece: vemos uma abelha sair de dentro do líquido de um copo, “escalar” com dificuldade a colher imersa no recipiente e, enfim, chegar à borda, sã e salva – simbolicamente, o mesmo processo efetuado pelo homem condenado à morte por uma doença incurável. Uma bela metáfora visuais de sentido dramático.

O compromisso de Krzysztof Kieslowski como diretor sempre foi guiado por um forte caráter humanista (isso seria definitivamente explorado no longa Não Matarás e no Decálogo 5). Uma abordagem pontuada de sentimentos sem ser ideologicamente passional tornou-se a sua regra. Na série Decálogo e a partir de A Dupla Vida de Véronique (1991), essa regra alcança sua maturidade. As relações humanas, seus encontros aparentemente coincidentes e a gama incontável de símbolos em torno das pessoas passam a mesclar-se com à técnica de direção de Kieslowski e é extremamente prazeroso ver como o diretor consegue sutilmente elencar o máximo de pontos simbólicos para juntá-los, opô-los ou anulá-los mais adiante – um desses exemplos é o salvamento após o desastre do barco em A Fraternidade é Vermelha (1994). Nos decálogos, o diretor optou por fazer dos dois primeiros episódios uma espécie de matriz de símbolos para toda a série

A forma de apresentar o espaço nos dois primeiros decálogos, antes de partir para uma tomada interna, é idêntica: a câmera olha para cima, focalizando uma das janelas do prédio. Em ambos os episódios há a presença de animais mortos: um cão, no Decálogo 1 e um coelho, no Decálogo 2. Nesse último caso temos mais uma indicação paradoxal: o coelho, símbolo da fertilidade, aparece morto, e de um modo muito intrigante, o homem que acha o animal acredita que ele pertence ao médico que fez a jura em nome Deus. Tirem daí suas conclusões.

O interessante é que das personagens do Decálogo 2, nenhum ser humano morre, apenas um animal e plantas: o coelho, o cacto do doutor e a planta que Dorota, que desfolha e torce o galho. Em oposição ao Decálogo 1, onde o ambiente externo muda (o lago é focado logo na abertura com uma fina camada de gelo em sua superfície, e termina completamente congelado), nesse segundo episódio as mudanças se dão de forma particular e pouco perceptíveis. Kieslowski parece dirigir o seu olhar para um viés mais fechado da vida, algo dramaticamente justificado já que a personagem principal esconde a gravidez resultante de um ato adúltero. Embora siga a linha de um mandamento por filme, podemos perceber que existe a desobediência de diversos outros mandamentos aqui.

A fotografia, assim como a música no Decálogo 2, é um catalisador à parte de emoções. Percebemos que a cada período do episódio uma obra musical melancólica diferente guia o ator em cena e o ambiente é pintado de duas formas: o contraste dialético e a adequação sentimental. No primeiro caso, temos o exemplo da sequência em que Dorota conta o seu problema para o doutor. Há uma oposição entre o estado de espírito da mulher com aquela luz quente e saturada que vemos cobrir o quadro. No entanto, as explosões de luz em ambientes sombrios (sempre com Dorota em cena) não estão ligadas a ela, mas sim ao bebê.

Há também uma diferença simbólico-dramática entre a iluminação e a direção de arte da casa de Dorota e do médico. No primeiro caso, parece que estamos diante de um palácio de gelo urbano. Sempre na penumbra e raramente bem iluminada, as cenas internas no apartamento da protagonista exprimem muito bem o seu estado de espírito e aquilo a que ela dá mais atenção: a família. As fotografias nas paredes, a devoção permeada de culpa ao marido moribundo, o impasse do aborto, tudo isso nos mostra a ligação de Dorota com a instituição familiar, ao mesmo tempo que ressalta a sua necessidade de afirmação como mulher: ter o filho, caso o marido morra, seria a sua suprema felicidade, porque, como ela mesma diz, jamais conseguira engravidar antes.

Nessa mesma linha de “pintar emoções”, o Decálogo 2 termina com uma intrigante indicação. Andrzej, recuperado, vai até a sala do médico para agradecer-lhe pelos cuidados. O doutor está plenamente iluminado, embora sob a meia-luz de uma luminária de mesa. Mas Andrzej aparece completamente no escuro e mesmo quando senta-se à frente do doutor, parte de seu rosto permanece fora do foco iluminado. A amargura nervosa com a qual ele diz ao médico que terá um filho parece nos insinuar um quê de Jekyll e Hyde.

Os figurinos, no Decálogo 2, são sempre muito escuros. O marrom e o preto são padrões em todo o episódio, com uma ou duas variações tonais. O sentimento de tristeza, dúvida ética e difícil decisão são exteriorizados através da cor das roupas de Dorota ou do médico. Mas há uma diferença entre o impasse vivido por um e por outro. Como poderíamos diferenciar, já que externamente, são idênticos? Bem, é necessário olharmos para outra coisa: as bebidas. O médico só consome bebidas quentes (especialmente leite, o que por si só é outra indicação metafórica), ao passo que Dorota, apenas bebidas frias ou que ela deixa esfriar. Há uma indicação verbal disso quando ela encontra um amigo de seu amante. Ele diz: “o seu café esfriou”, sentença que é repetida pela protagonista. Se exteriormente a postura simbólica de ambas as personagens se assemelham, o diretor nos fornece outros elementos para diferenciá-las. Caso o leitor precise de mais um, lembre-se que logo no início do episódio vemos o médico derrubar água quente na banheira, a fim de esquentar-se, enquanto Dorota não tem contato nenhum com algo que transmita calor, com exceção do fogo para aceder seus cigarros. E nesse ponto temos mais uma oposição com o Decálogo 1, onde o gélido ambiente externo é compensado pelo acolhedor interior das casas, quando no Decálogo 2, além do frio externo, o aquecimento central do prédio não funciona.

Esta segunda parte da série Decálogo é simplesmente genial. O término do episódio nos deixa absolutamente presos à trama e sentimos raiva, dó, e uma sensação de que estamos realmente sujeitos a tudo. Kieslowski conseguiu fechar aqui todos os pequenos temas que espalharia pelo restante da série. Sua cartada final certamente passou despercebida por muita gente: o fato de que o médico, um representante de Deus na terra (já que detém praticamente o mesmo poder que este sobre o funcionamento e cura do corpo humano), é o único personagem do filme que não tem nome. Diferente de Deus, que se enciuma do uso despropositado de seu nome, o médico não corre esse risco. Como humano, ele é culpado por quebrar um mandamento. Como um poderoso sobre a imagem e semelhança de Deus (o Homem), ele não corre o risco de ser profanado.

Para Kieslowski, o único modo de prevenir o uso inadvertido de um nome é não conhecê-lo (percebem o cinismo do diretor?) ou ser tão impessoal quanto o personagem angelical e misterioso que neste episódio é um enfermeiro do Hospital. O problema é que essa indiferença às convenções estabelecidas pode gerar a transgressão de um outro mandamento, o tema do Decálogo 3Guardarás Domingos e Festas Sagradas — veja que não há saída. Como a transgressão funciona em um ciclo vicioso, percebemos que quanto mais avançamos nos episódios, pior se torna a condição dos pecadores e mais difícil a escapada de quem não quer pecar. Não há fim para mal. E não há quem faça o bem, ao menos de forma altruísta, nem aos olhos dos homens, nem aos olhos de Deus.

Decálogo 2 (Dekalog, dwa) — Polônia, 1990
Direção: Krzysztof Kieslowski
Roteiro: Krzysztof Kieslowski, Krzysztof Piesiewicz
Elenco: Krystyna Janda, Aleksander Bardini, Olgierd Lukaszewicz, Artur Barcis, Krystyna Bigelmajer, Karol Dillenius, Ewa Ekwinska, Jerzy Fedorowicz, Stanislaw Gawlik, Krzysztof Kumor, Piotr Siejka, Maciej Szary
Duração: 57 min.

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