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Crítica | Decálogo 2 – Não Usarás o Nome de Deus em Vão

por Luiz Santiago
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estrelas 5

Os dois primeiros filmes do Decálogo fornecem para o espectador uma visão geral de toda a série. Salvo as questões técnicas, o diretor Krzysztof Kieslowski estabeleceu uma rede de conexões e simbolismos que se espalham por todos os episódios, mas não há, em toda a jornada, uma dupla de capítulos que se oponham tão fortemente e que sejam tão ilustrativos para a obra completa como o Decálogo 1 e o Decálogo 2. Antes de partirmos para uma análise mais pontual é importante entendermos o por quê este episódio é oposto ao seu predecessor e como, juntos, conseguem dar uma visão geral de todo o Decálogo.

O ponto central da narrativa nesses filmes é a diferença da punição divina frente a desobediência aos mandamentos. No Decálogo 1, vimos que a criação dos ícones é punida com a morte. No Decálogo 2, o castigo não é físico e sim moral, resultando em uma gravíssima crise ética (a coluna de toda a série) e possíveis consequências desastrosas para os protagonistas. O Deus do Decálogo 2 não está preocupado em “visitar a maldade dos pais nos filhos”, mas sim em “não ter por inocente o que tomar o seu nome em vão”. Entre os oito episódios subsequentes, estarão espalhadas essas duas visões punitivas. Para completar a teia de relações, destacamos a forte oposição simbólica entre os dois primeiros episódios.

No Decálogo 1, o motor da narrativa é a morte; no Decálogo 2, embora a morte esteja em evidência, o motor da narrativa é a vida. Perceba que o elemento trágico não se ausenta, mas a visão de Kieslowski salta ao comum, pensa em uma outra forma de punição divina para os pecados contemporâneos e, embora use a vida como premissa, destaca a sua ameça fatal.

Não há nada mais angustiante do que viver ameaçado pela morte. Ao mesmo tempo, o paradoxo: tudo em torno desses personagens pulsa de vida. E eu penso que aí está a primeira punição de Deus, por ter tido seu nome usado em vão, ele impede que a morte se aposse de tudo o que ameaça.
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Uma luta contra o nome

e o poder do desejo manifesto a Deus
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O roteiro do Decálogo 2 apresenta uma complexidade maior que a do filme anterior – não de entendimento, mas de elementos a serem analisados.

Temos aqui a história de Dorota Geller, uma violinista que vê seu marido à beira da morte e, ao envolver-se com um amigo da família, engravida. Sabendo que não resta muito tempo de vida ao cônjuge, Dorota pensa em levar a gravidez até o final e seguir o romance com o amante. Mas ao perceber que a morte de Andrzej não acontece, a resolução é abortar a criança. Uma vida só poderia acontecer com a anulação da outra.

A sentença esperada por Dorota vem com a jura do médico de Andrzej, afirmando que o paciente certamente morreria, dado o progressivo avanço da doença. A infração do terceiro mandamento, “Não tomarás o nome do Senhor, teu Deus, em vão […]” acontece justamente nesse momento. E aqui presenciamos mais uma genial armadilha criada por Kieslowski e Piesiewicz: o médico jura, infringindo o mandamento, mas com isso salva uma vida. Entretanto, no julgamento divino, ele não é inocente. E para contradizer a palavra do médico — que é “o deus da ciência do corpo” — Deus resolve mudar o estado de saúde de Andrzej. Não vemos uma melhora progressiva do enfermo, mas Kieslowski deixa bem claro o momento em que essa “cura milagrosa” acontece: vemos uma abelha sair de dentro do líquido de um copo, “escalar” com dificuldade a colher imersa no recipiente e, enfim, chegar à borda, sã e salva – simbolicamente, o mesmo processo efetuado pelo homem condenado à morte por uma doença incurável. Uma bela metáfora visuais de sentido dramático.

O compromisso de Krzysztof Kieslowski como diretor sempre foi guiado por um forte caráter humanista (isso seria definitivamente explorado no longa Não Matarás e no Decálogo 5). Uma abordagem pontuada de sentimentos sem ser ideologicamente passional tornou-se a sua regra. Na série Decálogo e a partir de A Dupla Vida de Véronique (1991), essa regra alcança sua maturidade. As relações humanas, seus encontros aparentemente coincidentes e a gama incontável de símbolos em torno das pessoas passam a mesclar-se com à técnica de direção de Kieslowski e é extremamente prazeroso ver como o diretor consegue sutilmente elencar o máximo de pontos simbólicos para juntá-los, opô-los ou anulá-los mais adiante – um desses exemplos é o salvamento após o desastre do barco em A Fraternidade é Vermelha (1994). Nos decálogos, o diretor optou por fazer dos dois primeiros episódios uma espécie de matriz de símbolos para toda a série

A forma de apresentar o espaço nos dois primeiros decálogos, antes de partir para uma tomada interna, é idêntica: a câmera olha para cima, focalizando uma das janelas do prédio. Em ambos os episódios há a presença de animais mortos: um cão, no Decálogo 1 e um coelho, no Decálogo 2. Nesse último caso temos mais uma indicação paradoxal: o coelho, símbolo da fertilidade, aparece morto, e de um modo muito intrigante, o homem que acha o animal acredita que ele pertence ao médico que fez a jura em nome Deus. Tirem daí suas conclusões.

O interessante é que das personagens do Decálogo 2, nenhum ser humano morre, apenas um animal e plantas: o coelho, o cacto do doutor e a planta que Dorota, que desfolha e torce o galho. Em oposição ao Decálogo 1, onde o ambiente externo muda (o lago é focado logo na abertura com uma fina camada de gelo em sua superfície, e termina completamente congelado), nesse segundo episódio as mudanças se dão de forma particular e pouco perceptíveis. Kieslowski parece dirigir o seu olhar para um viés mais fechado da vida, algo dramaticamente justificado já que a personagem principal esconde a gravidez resultante de um ato adúltero. Embora siga a linha de um mandamento por filme, podemos perceber que existe a desobediência de diversos outros mandamentos aqui.

A fotografia, assim como a música no Decálogo 2, é um catalisador à parte de emoções. Percebemos que a cada período do episódio uma obra musical melancólica diferente guia o ator em cena e o ambiente é pintado de duas formas: o contraste dialético e a adequação sentimental. No primeiro caso, temos o exemplo da sequência em que Dorota conta o seu problema para o doutor. Há uma oposição entre o estado de espírito da mulher com aquela luz quente e saturada que vemos cobrir o quadro. No entanto, as explosões de luz em ambientes sombrios (sempre com Dorota em cena) não estão ligadas a ela, mas sim ao bebê.

Há também uma diferença simbólico-dramática entre a iluminação e a direção de arte da casa de Dorota e do médico. No primeiro caso, parece que estamos diante de um palácio de gelo urbano. Sempre na penumbra e raramente bem iluminada, as cenas internas no apartamento da protagonista exprimem muito bem o seu estado de espírito e aquilo a que ela dá mais atenção: a família. As fotografias nas paredes, a devoção permeada de culpa ao marido moribundo, o impasse do aborto, tudo isso nos mostra a ligação de Dorota com a instituição familiar, ao mesmo tempo que ressalta a sua necessidade de afirmação como mulher: ter o filho, caso o marido morra, seria a sua suprema felicidade, porque, como ela mesma diz, jamais conseguira engravidar antes.

Nessa mesma linha de “pintar emoções”, o Decálogo 2 termina com uma intrigante indicação. Andrzej, recuperado, vai até a sala do médico para agradecer-lhe pelos cuidados. O doutor está plenamente iluminado, embora sob a meia-luz de uma luminária de mesa. Mas Andrzej aparece completamente no escuro e mesmo quando senta-se à frente do doutor, parte de seu rosto permanece fora do foco iluminado. A amargura nervosa com a qual ele diz ao médico que terá um filho parece nos insinuar um quê de Jekyll e Hyde.

Os figurinos, no Decálogo 2, são sempre muito escuros. O marrom e o preto são padrões em todo o episódio, com uma ou duas variações tonais. O sentimento de tristeza, dúvida ética e difícil decisão são exteriorizados através da cor das roupas de Dorota ou do médico. Mas há uma diferença entre o impasse vivido por um e por outro. Como poderíamos diferenciar, já que externamente, são idênticos? Bem, é necessário olharmos para outra coisa: as bebidas. O médico só consome bebidas quentes (especialmente leite, o que por si só é outra indicação metafórica), ao passo que Dorota, apenas bebidas frias ou que ela deixa esfriar. Há uma indicação verbal disso quando ela encontra um amigo de seu amante. Ele diz: “o seu café esfriou”, sentença que é repetida pela protagonista. Se exteriormente a postura simbólica de ambas as personagens se assemelham, o diretor nos fornece outros elementos para diferenciá-las. Caso o leitor precise de mais um, lembre-se que logo no início do episódio vemos o médico derrubar água quente na banheira, a fim de esquentar-se, enquanto Dorota não tem contato nenhum com algo que transmita calor, com exceção do fogo para aceder seus cigarros. E nesse ponto temos mais uma oposição com o Decálogo 1, onde o gélido ambiente externo é compensado pelo acolhedor interior das casas, quando no Decálogo 2, além do frio externo, o aquecimento central do prédio não funciona.

Esta segunda parte da série Decálogo é simplesmente genial. O término do episódio nos deixa absolutamente presos à trama e sentimos raiva, dó, e uma sensação de que estamos realmente sujeitos a tudo. Kieslowski conseguiu fechar aqui todos os pequenos temas que espalharia pelo restante da série. Sua cartada final certamente passou despercebida por muita gente: o fato de que o médico, um representante de Deus na terra (já que detém praticamente o mesmo poder que este sobre o funcionamento e cura do corpo humano), é o único personagem do filme que não tem nome. Diferente de Deus, que se enciuma do uso despropositado de seu nome, o médico não corre esse risco. Como humano, ele é culpado por quebrar um mandamento. Como um poderoso sobre a imagem e semelhança de Deus (o Homem), ele não corre o risco de ser profanado.

Para Kieslowski, o único modo de prevenir o uso inadvertido de um nome é não conhecê-lo (percebem o cinismo do diretor?) ou ser tão impessoal quanto o personagem angelical e misterioso que neste episódio é um enfermeiro do Hospital. O problema é que essa indiferença às convenções estabelecidas pode gerar a transgressão de um outro mandamento, o tema do Decálogo 3Guardarás Domingos e Festas Sagradas — veja que não há saída. Como a transgressão funciona em um ciclo vicioso, percebemos que quanto mais avançamos nos episódios, pior se torna a condição dos pecadores e mais difícil a escapada de quem não quer pecar. Não há fim para mal. E não há quem faça o bem, ao menos de forma altruísta, nem aos olhos dos homens, nem aos olhos de Deus.

Decálogo 2 (Dekalog, dwa) — Polônia, 1990
Direção: Krzysztof Kieslowski
Roteiro: Krzysztof Kieslowski, Krzysztof Piesiewicz
Elenco: Krystyna Janda, Aleksander Bardini, Olgierd Lukaszewicz, Artur Barcis, Krystyna Bigelmajer, Karol Dillenius, Ewa Ekwinska, Jerzy Fedorowicz, Stanislaw Gawlik, Krzysztof Kumor, Piotr Siejka, Maciej Szary
Duração: 57 min.

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23 comentários

Luiz Santiago 31 de maio de 2018 - 23:15

Eu bem sei como é essa questão do tempo! Mas seja sempre bem vindo por aqui, mesmo que demore um pouco! E está sempre convidado a compartilhar ideias nos comentários, concordando ou discordando de algumas coisas! 😀

Sobre o “fazer o bem”. Quando ele diz que não sabe o que é, e por isso evita interferir, isso vai por um caminho diferente do que eu, como pessoa, acredito ser o certo ou adoto para minha vida. Penso que se existe alguém que necessita de ajuda, e seu eu posso ajudar, é inquestionável o ato benéfico que eu estou fazendo por esta pessoa. E neste sentido, não estou falando de indivíduos acomodados que FINGEM precisar de algo para não poder ir atrás (mesmo tendo saúde e disposição para isso) e receber tudo mastigado. Falo de necessidades autênticas. A ajuda, aí, retira ou alivia a dor e ajuda a colocar a pessoa em outro cenário (como em um conselho ou no ensinamento de alguma coisa). Talvez ele estivesse falando desse processo como CONDUÇÃO das ações do outro e neste ponto eu concordo. Mas eu eu simplesmente ofereço caminhos adicionais para a pessoa pensar, não vejo isso como algo ruim não. Penso que é uma atitude boa, de fato.

Grande abraço, amigo!

Responder
Luiz Santiago 16 de maio de 2018 - 14:55

Muito bom receber mais um comentário seu na sequência da série, @disqus_M2s4VFspac:disqus. E novamente, com apontamentos maravilhosos. Concordo com você com o peso que isso tem para o cristão. A fé é uma prova de resistência mesmo (eu falo sobre isso, em outro cenário, na crítica para o manuscrito dos Evangelhos de Santo Agostinho. Se tiver interesse, dê uma passada por lá: https://www.planocritico.com/critica-os-evangelhos-de-santo-agostinho-manuscritos-notaveis-de-christopher-de-hamel/). Resistir, diante de tantos meandros desses mandamentos não deve ser fácil. É por isso que não consigo gostar ou me aliar a nenhuma religião. O porto doutrinário que elas impõem (sob a aura de ordem divina, de palavra de salvação) é extremamente problemático a meus olhos, e parece ser feito para induzir ao erro, chega a ser cruel.

Acho interessante a posição do texto que você destacou, e concordo em partes. Mas não na parte do “fazer o bem”. Vejo por um caminho diferente. Se quiser, compartilho depois com você. Mas entendo perfeitamente a posição do autor, claro.

Sobre as conversas: são trivialidades, versões ou pensamentos de momento do Doutor, com importância para ajudar a gente a entender o caráter do personagem e seu ponto de vista sobre o caso, mas nada essencial para entendimento geral do episódio.

Responder
Pedro 31 de maio de 2018 - 22:15

Ola, amigo!
Li seu texto sobre o livro dos Evangelhos e a experiencia me deu alicerce para muitos outros pensamentos. Eh claro que terei de ler o livro, mas com tantos outros na fila, e ate outras recomendações suas, devo demorar para me apropriar do volume em questão. Ja esta na fila! 🙂
Sobre o “fazer o bem”, gostaria realmente de entender o seu caminho, fico no aguardo.

Tempo escasso e mais 8 mandamentos para assistir rs
Veremos se conseguirei dar continuidade à serie esse mes! Esta sendo bastante produtivo acompanhar o site enquanto assisto.
Abs

Responder
Pedro 16 de maio de 2018 - 01:28

Ola!
Muito bem escrita a tua critica, mais uma vez, Luiz.

Esse capitulo, confesso, causou-me um turbilhão de sentimentos diferentes.
Primeiro uma enorme compaixão por todos os cristãos, pois, ao meu ver, ha uma impossibilidade em obedecer às leis de Deus de maneira completa. Qualquer um testado nesse fogo que o episodio propicia, qualquer um com o minimo de empatia pela vida humana, falhará miseravelmente. Como você disse, não existe pecadinho e pecadão, logo, qualquer desvio é fatal. O Deus do antigo testamento não É fácil, rs. Os cristãos se impuseram um fardo impossível. Cara, é como se os mandamentos se anulassem conforme você os cumpre!
Veja, se o medico não jura, o aborto iria, de fato, ocorrer. É claro, alguém diria, ele podia optar por outros meios, denunciar o aborto por exemplo; contudo, vamos dificultar um pouco as coisas e supor por um breve momento que o fatídico episodio acontecesse em um pais onde o aborto seja legalmente aceito. Bom, alguns diriam, ele pode ignorar o fato, não transgredindo à Lei e o aborto acontece por livre responsabilidade da mãe. Ora, ele não teria culpa nisso, correto? Mas e a maldita empatia? Ou, de outra forma, e a maldita consciência? Afinal, ela, a consciência, eh uma dadiva do próprio Deus. É como se ele não quisesse que cumpríssemos o que Ele mesmo determinou, ou dificultasse ao extremo as coisas.
Por outro lado, se ele jura (como fez), alem de transgredir a lei, divina, ele condena um ser à vida que, olhando pelo prisma religioso, é um ser fruto de um pecado. Um bastardo de Deus que só vai nascer porque um homem pecou.
Tenho profunda compaixão pelos cristãos. Essa responsabilidade é insuportável.

Tudo isso me remete a um trecho de um livro do Fernando Pessoa que salvei aqui como quote ha muito tempo, se você me permite;
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—-Tenho uma moral muito simples – não fazer a ninguém nem mal nem bem. Não fazer a ninguém mal, porque não só reconheço nos outros o mesmo direito que julgo que me cabe, de que não me incomodem, mas acho que bastam os males naturais para mal que tenha de haver no mundo. Vivemos todos, neste mundo, a bordo de um navio saído de um porto que desconhecemos para um porto que ignoramos; devemos ter uns para os outros uma amabilidade de viagem. Não fazer bem, porque não sei o que é o bem, nem se o faço quando julgo que o faço. Sei eu que males produz se dou esmola? Sei eu que males produzo se educo ou instruo? Na dúvida, abstenho-me. E acho, ainda, que auxiliar ou esclarecer é, em certo modo, fazer o mal de intervir na vida alheia. A bondade é um capricho temperamental: não temos o direito de fazer os outros vítimas de nossos caprichos, ainda que de humanidade ou de ternura. Os benefícios são coisas que se infligem; por isso os abomino friamente
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É claro, caro amigo, que o mesmo fato, sendo visto de maneira secular e antropocêntrica, sem os dogmas religiosos, tem um desdobramento bem menos trágico. A aceitação da imperfeição e da impossibilidade de perfeição que só a racionalização do pensamento permite; o iluminismo, sem Deus (pelo menos o Deus da bíblia), se torna o balsamo moderno para a alma do homem. E é isso, ao meu ver, o que torna tudo suportável em nossa vida. A aceitação do absurdo e da impossibilidade. A impossibilidade de se seguir as regras, quaisquer que sejam elas. Ao mesmo tempo, uma covardia sem redenção. Um pulo no escuro…

Voltando ao filme, tenho algumas duvidas sobre os diálogos do medico com a personagem Barbara. Sua empregada talvez? Não ficou claro pra mim.
Bem, parece que sempre que os dois sentam para o cafe, ou chá, ele conta a ela uma historia diferente sobre algum fato. Não consegui captar nada, nao sei se pela legenda precária que consegui em inglês, legenda esta com bastantes erros, ou se por estar desatento. Não entendi o nexo da conversa nem o significado dela para a obra. Talvez voce tenha uma versao melhor ai, ou possa me dar uma luz.
Abraco!

Responder
Bruno Passos 23 de março de 2018 - 03:10

Oi Luiz!

Tudo bem?

Parabéns pelo ótimo texto!

Gostaria de compartilhar uma outra interpretação e saber a sua opinião.

O médico não viola o mandamento “usar o nome de Deus em vão”. Uma vez que, ele tinha conhecimento da melhora do paciente. Na cena em que estão analisando as imagens no microscópio, os médicos chegam à conclusão que: “progride”, a princípio não fica claro o que progride, pode ser a doença, mas na verdade é a recuperação, a saúde, a melhora, isso fica mais claro no desenrolar da história, principalmente no fim quando o médico diz a Andrzj sobre diagnósticos baseados em raios-x.
O médico jura (“usa o nome de Deus”) para Dorotka que Andrzj vai morrer, mas não em vão, pois ele tem o objetivo de salvar a vida do bebê. Ele preza pela vida da criança, principalmente porque ele próprio, sofreu uma tragédia em sua vida particular.
Ou, se ao jurar, sabendo que está mentindo (pois ele sabe que Andrzj está melhorando), é usar o nome de Deus em vão, ele está infringindo o mandamento, mas por um objetivo maior. Logo, “seria permitido” romper o mandamento, como uma exceção à regra.

Obrigado,

Um abraço!

Responder
Luiz Santiago 23 de março de 2018 - 08:08

Olá, @disqus_AAFaajBRTG:disqus! Tudo bem por aqui. Muito obrigado por compartilhar sua interpretação para este episódio. Achei muito interessante e penso que é uma visão bastante válida para enxergar a situação. E ela nos traz 2 grandes pontos para pensar. Vou expor abaixo.

1 – Do ponto de vista exclusivamente “mundano e secular”, essa visão é perfeitamente cabível, sem nenhum impasse religioso. Mesmo no meu caso, que vejo a sugestão do médico sobre a situação do paciente mais como uma questão dúbia (e só com algum tipo de certeza da recuperação via simbolismos, não nos elementos literais, do roteiro), é possível olhar essa posição do médico acontecendo sem problema algum.

Mas tudo muda de figura (e fica mais interessante) quando olhamos pelo viés religioso. Vamos lá.

2 – Considerando a nominação paulina de que toda a autoridade é instituída por Deus e que o médico é também uma autoridade aqui, o caminho mais simples seria, se ele realmente quisesse “fazer a coisa certa”, usar dessa autoridade e dos meios que ela lhe propõe, para impedir que a mulher abortasse. Denunciá-la? Talvez. A questão é: do ponto de vista moralmente bíblico, ele tinha os meios para fazer de outra forma, sem precisar mentir. E isso é importante aqui, porque… não importa em qual cenário, circunstância ou o que se pretende com isso, segundo a Bíblia, mentira é pecado (e um dos condenáveis e densos, especialmente nas profecias de João, no último livro).

Na visão que entendemos do pensamento de Deus, não há pecadinho ou pecadão. Pecado é pecado e não existe circunstância atenuante para pecado. Nunca. Desse modo, o médico mente para salvar uma vida, mas ele está pecando:

a) por não exercer a sua autoridade como como médico (o Juramento cairia por terra nessas circunstâncias);
b) por mentir;
c) por se colocar no lugar de Deus e interferir em algo que o próprio Deus deu para todo mundo (segundo a ótica cristã): o livre-arbítrio. Se é uma concessão divina, o único meio moralmente religioso que ele tinha para barrar isso era via autoridade. Qualquer outro meio seria uma ação presunçosa. Caso cometesse o aborto, isso é problema da mulher com ela mesma e com Deus. Sendo a salvação algo individual e o pagamento de pecado algo individual (ninguém é responsável pelo pecado de ninguém), logo, essa conta seria para ela acertar com Deus. O médico não tinha nada a ver com isso.

Assim, a gente chega ao ponto interessante onde, no sentido HUMANO, o médico fez a coisa mais certa possível. Mas no sentido religioso, ele pecou de diversas vezes, usando o nome de Deus em vão no meio dessa miríade de pecados para salvar uma vida com a qual ele se importava, mas interferindo, como pessoa, no livre arbítrio do outro, caindo aí em outro pecado, o da presunção.

Enquanto pensava em sua interpretação, me vi sorrindo com esse dilema moral e religioso ao mesmo tempo. É uma visão rica e bastante complexa, se é que eu entendi bem o que você colocou a esse respeito.

A propósito: o Decálogo 8 traz essa exata discussão da “mentira para se fazer o bem” como pauta. E lá eu enxergo a coisa considerando outros aspectos. Quando assistir a este episódio, dê uma passada por lá para a gente bater papo a respeito também!

Abração!

Responder
Lenilson Moutinho 2 de fevereiro de 2018 - 20:56

Luiz Santiago, estou revendo esta série magnífica, acho que pela terceira ou quarta vez. Tinha algumas coisas que tinha percebido mas seus comentários cara, são massa! Entende muito do riscado! Parabéns!

Responder
Lenilson Moutinho 2 de fevereiro de 2018 - 20:56

Luiz Santiago, estou revendo esta série magnífica, acho que pela terceira ou quarta vez. Tinha algumas coisas que tinha percebido mas seus comentários cara, são massa! Entende muito do riscado! Parabéns!

Responder
Luiz Santiago 2 de fevereiro de 2018 - 21:33

Obrigado, @lenilsonmoutinho:disqus!
E essa série é tão rica que sempre tem muita coisa para apontar e trazer à tona! É maravilhoso fazer esse exercício.

Responder
Luiz Santiago 2 de fevereiro de 2018 - 21:33

Obrigado, @lenilsonmoutinho:disqus!
E essa série é tão rica que sempre tem muita coisa para apontar e trazer à tona! É maravilhoso fazer esse exercício.

Responder
Anthonio Delbon 24 de maio de 2017 - 05:37

Demorei, mas cheguei. E cara…que texto!

A gente se acostuma a ver um detalhe ou outro, treina nosso olho pra essas coisas ao assistir as melhores obras, mas essa crítica tá mais do que caprichada! E a obra em si é tão fina que a angústia – além de vir naturalmente nos episódios – vem por se saber que são só tão poucos episódios. É sensacional! Não cabe palavra pra descrever como o Kieslowski consegue traçar um cenário onde o vazio de sentido na vida aparece tão sutilmente e simbolicamente. Toda a construção e o modo como o “problema” é deixado…coisa linda demais.

Permita-me um adendo, que me chamou muito a atenção. O final onde a câmera vai descendo, da protagonista ao médico, no andar de baixo, num plano inferior, olhando ao espelho sob uma luz vermelha… queria saber o que você achou disso. Pareceu-me uma reflexão sobre a graça recebida pelo médico em testemunhar o renascimento do “Lázaro”, ainda que os demônios só agora dariam as caras, na vida. Graça/punição, é claro, posto que o momento de desespero, como você citou, foi crucial para o Deus ciumento cobrar da “modernidade científica” as rédeas do destino – trágico. A questão é que isso me pareceu encaixar exatamente no que você disse: o médico como representante de Deus na terra, sem nome algum, detendo o poder de deus sobre a vida e a morte – do marido e do bebê no ventre. Um médico desesperado, como um Abraão ou um Jó, mas sem qualquer salto de fé, posto que a redenção divina soa dúbia ao final. Ambos representando o acaso e a falta de significado em estar vivo, como você lembra no início.

Se viajei muito ou não, confesso que precisava tentar esclarecer minha cabeça depois destes 50 minutos espetaculares.

Abraço!

Responder
Luiz Santiago 24 de maio de 2017 - 13:28

Muito obrigado, meu querido @anthonio_delbon:disqus!
Cara, essa série foi uma das coisas mais prazerosas de se assistir e um dos projetos de críticas que eu mais gostei de seguir. Me fez refletir muita coisa (eu amo religiões. Estudo isso desde o começo da faculdade, tenho verdadeiro fascínio por crenças de diversos tipos e como isso interfere nas sociedades ao redor do mundo).
E cara, sua observação é simplesmente perfeita. Eu não tinha levado por este lado a cena, mas você me trouxe uma interpretação ainda mais profunda para ela, e quando eu pensei que o episódio não poderia ficar melhor. Sério. Muito obrigado por compartilhar essa visão. Concordo com você na referência e acho sim que foi uma intenção do diretor colocar isso. Que foda!

Responder
Anthonio Delbon 24 de maio de 2017 - 17:38

Hahaha quando a obra é foda ela se torna inesgotável né, sempre algo novo surge, não importa se já vimos dez vezes. É realmente uma das séries mais prazerosas de se assistir.

Eu curto demais essa temática religiosa abordada de um ponto de vista, digamos, não confessional. Com saltos de fé ou não, dissecar nosso contato, nosso desejo por um metafísico e nossas relações com os dogmas – de forma honesta – sempre me soa uma das coisas mais interessantes a se fazer em qualquer tipo de arte – sem ser arte panfletária também, que é outro porre tanto em crentes quanto em ateus “militantes”.

Ansioso pra ver os próximos!
Abraço, Luiz!

Responder
Luiz Santiago 24 de maio de 2017 - 22:24

Exato! Vejo que temos o mesmo gosto e o mesmo princípio de pensamento pelas questões religiosas. Muito interessante! Ansioso também para saber o que você vai achar dos próximos episódios.

Responder
Lenice 13 de abril de 2015 - 11:04

Q você escreve sobre Deus é uma hempocresia. Não concordo com esta enterpretação PARESSE QUE Vc ve Deus como não dando oportunidade, Deus dá oportunidade, Deus é o Deus que dá a oportunidade para salvação. seu final de texto dize que Deus não ve quem faça o bem. oS SANTOS DE DEUS FAZE O BEM CONTRA O Mal Deus é o bem máximo, ele faz o bem e ele é altruaista, ele ama e salva a todo aquele de forma incodissional você não sabe o que você estar falando. A sua sorte é que Deus é amor e que ele sempre salvou a humanidade e ele tá dando oportunidade pra te salvar. por favor, reescreva esse texto não conta a verdade sobre Deus, Deus é amor, sempre foi amor.

Responder
Luiz Santiago 13 de abril de 2015 - 19:43

Oi, @disqus_4u7xJtQUkq:disqus! Tudo bem? Muitíssimo obrigado pelo seu comentário!

Depois de ler o que você escreveu, fiquei profunda e inteiramente comovido e ciente de minha heresia, de meu ser pagão, de minha perdição. Então vi a luz. Apaguei o texto inteiro e reescrevi tudo de novo. Releia agora, do começo ao fim, com bastante atenção, e veja se você gosta dessa versão. Se não gostar, me diga que eu apago e reescrevo tudinho de novo, com base em outra luz, tudo bem?

Desde já agradeço por esta linda mensagem sobre o amor de Deus. Agora que sou uma pessoa iluminada, preciso ser guiado, então vou te pedir emprestado alguns quilowatts para poder me ajudar neste caminho que é novo para mim, é muita luz!!! Assim sendo, responda para mim, os seguintes pontos:

1) – Você assistiu a este episódio ou só leu o texto?

2) – O amor de Deus é incondicional? O propósito final do amor de Deus (depois de dar o seu filho para salvar o mundo) não era criar a possibilidade de poder chamar alguns e escolher outros? Se esta segregação existe na raiz da concepção de salvação e se o amar Deus + obedecê-lo e honrá-lo são o único caminho para responder ao seu amor primordial (e aqueles que não o fizerem serão condenados), não entendo como isto pode ser incondicional. Pode me ajudar a enxergar estas trevas, por favor?

3) – Deus sempre salvou a humanidade? Um passarinho me contou que ele resolveu destruí-la inteirinha (a humanidade e basicamente todos os bichos do mundo, a exceção de um casal de cada animal — p.s.: bichos pecam???), porque estava IRADO com ela e se ARREPENDEU de tê-la criado. E, também me contaram, que haverá um dia em que a humanidade será destruída novamente, desta vez, em fogo, quando os salvos forem levados para o céu e os infiéis permanecerem na Terra, padecendo os efeitos da Grande Tribulação, do posterior Armagedom e então a danação eterna. Procede, produção?

4) – Você TEM CERTEZA que não fugiu de alguma cena de “A Vida de Brian”?

Desde já, muito obrigado pelo excelente comentário! Que as forças da luz estejam convosco!

Responder
rodolfo boing mr 13 de outubro de 2017 - 03:41

Otima critica, achei engraçado como esse episodio é referido no 8.

Não puder deixar de acompanhar, essa conversa paródica.

Em defesa da Logica Judaico Cristã,(Não respondendo pela fê de suas ramificações) não querendo deixar supostas brejas nesse ponto do amor incondicional.

Você esqueceu de colocar o tema do perdão, onde a salvação só é possível quando o homem se arrepende, nesse quesito, não pode-se tirar o amor de Deus do campo de Amor Incondicional. E Deus não escolhe ou seleciona, a salvação só é dada a quem a aceita. Seria contra o livre-arbítrio obrigar a todos seguirem Deus. Não confunda amor com Negligencia de dar oque é justo.

Sem entrar em toda Escolástica, do mal e da relação pecado e consequência de Agostinho e Thomas de Aquino

Responder
Luiz Santiago 13 de outubro de 2017 - 12:58

Para mim, qualquer coisa relacionada a livre-arbítrio dentro da lógica religiosa só pode ser aceito através da fé. A meu ver é um elemento inteiramente dogmático, que não tem lógica alguma no plano racional, se visto da concessão desse suposto livre-arbítrio — entregue ao homem quando da expulsão do Éden — até a chegada de Jesus e seu sacrifício. Mas desse ponto em diante eu não passo, porque eu não discuto fé, apenas religião.

Fora da fé, ao discutir o tema, na minha opinião sobre a questão do amor incondicional de Deus talvez só caiba pós-Jesus. Não consigo ver absolutamente nada desse tipo de amor no Antigo Testamento. E realmente tenho dificuldade para classificar como AMOR INCONDICIONAL o comportamento divino ligado aos nossos tempos.

É tanto um impasse moral e ético meu, quanto uma leitura que não encontra lógica na comparação e relação dentro das profecias ou mandamentos (talvez com exceção do resumão em 2 linhas feito por Jesus).

Interessante você levantar a questão de Agostinho e Aquino. Eu acho interessantíssima a forma como eles tentaram, cada um a seu modo, analisar essa questão tendo em vista o olhar redentor. Mas mesmo aí, a exigência da fé aparece. E nesse caso, para mim, a discussão se encerra, porque como disse, fé é algo sobre o qual não discuto. É o tipo de experiência pessoal que faz com que as pessoas QUEIRAM, por um motivo que só ela entende (via sua experiencia com o divino) aceitar coisas que não possuem amparo racional ou estão cheias de contradição, enigmas, perguntas sem resposta e falta de amparo até mesmo na Bíblia, quem dirá nas centenas e centenas de doutrinas que existem por aí.

Este é um assunto que caberia melhor bebendo muito em um bar. Aí a discussão de qualquer coisa é possível. Todos entregues à Síndrome de Noé ahhahahahahahahahahahhahahaha

Responder
rodolfo boing mr 13 de outubro de 2017 - 17:09

Sim a questão da fê é aparentemente inerente a toda logica dogmática.

Só quis entrar no assunto para quem ler não ficar achando que a logica cristã supostamente não teria argumentos. Tem muitos que são quase impossíveis de se encurralar, mas se são validos ou não é outra historia.

Acho Kieslowski niilista demais, porem é inegável a riqueza de concepções que o decálogo carrega! Bom para quem estiver na fase de analise de princípios, como essa discussão.

Lenilson Moutinho 2 de fevereiro de 2018 - 21:01

Vamos num bar qualquer dia desses então?

Luiz Santiago 2 de fevereiro de 2018 - 21:35

Opa! Bora!
Estás em São Paulo?

Luiz Santiago 2 de fevereiro de 2018 - 21:35

Opa! Bora!
Estás em São Paulo?

Lenilson Moutinho 2 de fevereiro de 2018 - 21:01

Vamos num bar qualquer dia desses então?

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