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Crítica | Decálogo 1 – Amarás a Deus Sobre Todas as Coisas

por Luiz Santiago
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Nascido em Varsóvia, em 1941, o diretor polonês Krzysztof Kieslowski é uma das personalidades cinematográficas mais famosas de seu país, ao lado de Andrzej Wajda e Roman Polanski. Formado na Escola de Teatro e Cinema de Lodz, começou a dirigir filmes em 1966, sendo O Bonde, um curioso curta-metragem, a sua estreia. Já no filme seguinte, O Escritório (também de 1966), o diretor trabalharia com um gênero que seria predominante na fase inicial de sua carreira: o documentário. Em seu trabalho de conclusão de curso, Da Cidade de Lodz (1968), a tendência documental permanece e, embora esse filme não seja um documentário, o modo como o diretor aborda a cidade, sua história, e seu funcionamento social, flerta com esse gênero.

Geralmente marca-se A Cicatriz (1976) como um divisor de águas para a nova abordagem fílmica do diretor, que, embora tenha continuado a fazer documentários, modificou sua visão cinematográfica. Um certo desencanto e uma pendência estrutural para questões éticas se tornaram o sustentáculo de seus filmes de ficção, algo que podemos ver nas principais obras após essa mudança: Amador (1979), Sem Fim (1985) e Sorte Cega (1987).

O projeto que marcaria a carreira de Kieslowski e que o tornaria conhecido no Ocidente foi produzido e realizado para a TV polonesa. A proposta inicial da rede era que cada um dos mandamentos do Antigo Testamento fosse entregues a um cineasta diferente a fim de que dirigissem um episódio com até uma hora de duração contendo uma aplicação contemporânea dos mandamentos bíblicos. Desenvolvendo o roteiro ao lado de Krzysztof Piesiewicz, Kieslowski reclamou para si todo o projeto, dirigindo então os dez filmes/episódios que compõem o Decálogo, uma das maiores obras já realizadas para a televisão e da qual saíram dois longas metragens: Não Matarás e Não Amarás.

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Os Dez Mandamentos dividem-se em três categorias: leis morais, leis civis e leis cerimoniais. Em cada uma delas, Deus faz uma proibição ou uma ordenança ao povo de Israel. Na visão de Kieslowski, ao invés da obediência a essas leis, a sociedade contemporânea se estrutura em sua completa (e até proposital) desobediência, recebendo as punições divinas previstas — é evidente que essa constatação do diretor é irônica. Importante observar que o diretor não repetiu os protagonistas em nenhum episódio, embora todos residam no mesmo conjunto habitacional em Varsóvia e um personagem figurante muito peculiar e silencioso apareça em nove dos dez capítulos: seria um anjo, uma representação divina que espera o homem lembrar-se de cumprir as leis de Deus?

O ideal bíblico retratado neste episódio e a santidade de Deus e a adoração a Ele. Kieslowski, por sua vez, adiciona o ideal da adoração à ciência. O já citado misterioso personagem mudo aparece como um mendigo sentado defronte a uma fogueira, na beira do lago. Já o elemento constante em 6 dos 10 Decálogos, o leite, aparece aqui em sua forma azeda. A ideia de Kieslowski fazer do leite um elemento constante é pela sua ampla representação: primeira bebida, primeiro alimento; símbolo da abundância , da fertilidade e, no sentido esotérico, de conhecimento. Em muitos aspectos mitológicos ou religiosos, a bebida também é associada à imortalidade ou a ritos iniciatórios/de passagem.
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O Poder da Imagem ou

Imagem X Deus

A imagem condenada no mandamento é representada, neste episódio, pelos ícones do computador, a grande invenção tecnológica que está diretamente ligada à ciência, a negação de Deus, e é geradora de imagens por excelência. O pai de Pawel, o garoto protagonista, é um professor universitário que não crê em Deus e nem na existência de uma alma ou em um propósito para a vida. A exatidão, o cálculo, a programação exata dos acontecimentos, a medição da vida em números e teorias é a sua linha de raciocínio. A lógica matemática não compreende a presença de Deus segundo o personagem, mas ele praticamente presta culto à ciência. E eis o descumprimento da segunda parte do Decálogo em questão: “Não te encurvarás a elas [as imagens] nem as servirás”.

Kieslowski procurou explorar ao máximo a dualidade do amor, da imagem e da adoração ao não-deus. Pawel é certamente o foco do amor central do filme e, em segundo lugar, o criador de ícones, o computador. Temos aqui duas imagens como substituição de Deus e este só está presente no discurso de Irena, a tia de Pawel, que parece desculpar-se de sua fé ao sobrinho, quando narra a criação religiosa que ela e o irmão tiveram e o caminho da ciência seguido por ele na vida adulta. A única “manifestação empírica” de Deus no Decálogo 1 encontra-se na cena final, quando, após o silêncio do “falso Deus” (o computador, para quem Krzysztof pergunta o “por quê” de tudo aquilo), vemos a cera derretida de uma vela cair como lágrimas de um ícone no altar. Por fim, a resposta de Deus: muda e simbólica. Para aquele que amou em absoluto uma criança e que especializou-se em criar ícones, a única coisa que o Divino consegue fazer é ter compaixão.

A vela que se derrete aproxima-se dramaticamente do derretimento do gelo no lago e a oposição de temperatura entre ambos dá a entender a presença da vida e da morte -– embora todos os elementos sejam inanimados: o gelo, a vela, o ícone. Observe que quanto mais chegamos próximos ao epílogo do episódio, mais imagens vão aparecendo. Como se não bastasse, a abertura e o fechamento do Decálogo 1 são dadas a partir da representação da imagem de Pawel na televisão, ou seja, a insistência na reificação da figura do garoto, da imagem, mais uma vez. E por que não adicionar a essa lista o próprio objeto fílmico, o episódio, um filme para TV, a projeção rápida de imagens com significado religioso? Para Kieslowski, a imagem e sua importância divina em nossa sociedade é a inevitável e constante desobediência ao mandamento, ou seja, uma ordem impossível de se obedecer — perceba a ironia.

Sabemos que para cada um dos episódios, Kiselowski empregou um diretor de fotografia diferente. O visual do Decálogo 1 dialoga com o branco acinzentado do inverno na cidade e os interiores sempre com a luz oposta à do exterior. O filme é visualmente frio e consegue sustentar o ar de descrença total a que o protagonista chega. Para ele, a ciência e Deus falharam. Lembremos que quando a vizinha diz que “o gelo do lago derreteu”, ele afirma diversas vezes que “não, não é impossível”, porque havia calculado a espessura do gelo no dia anterior. O que causou o derretimento? Certamente não foi a fogueira acesa na margem. Algum fator externo não explicado em cena contribuiu para que o gelo derretesse e a tragédia se desse. Kieslowski insere aí um outro ponto importante que perdurará durante todo o Decálogo: a influência e ocorrência do acaso normalmente atribuída a fatores sobrenaturais ou divinos.

Trabalhando de forma dialética com as imagens, Kieslowski guia seus personagens rumo ao abismo da descrença. A punição de Deus já prevista para o descumprimento desse mandamento faz-se sentir em tremenda dor: “porque eu, o Senhor, teu Deus, sou Deus ciumento, que visito a maldade dos pais nos filhos…”. E é com essa ameaça e desesperança que Kieslowski termina a sua primeira versão dos mandamentos na atualidade. Se há alguma dúvida sobre o que resta para o homem, a resposta virá no acontecimento do Decálogo 2, um complemento desse início, posto que pronunciar o nome de Deus é também aludir a uma imagem, por isso mesmo temos o terceiro mandamento: Não pronunciarás o santo nome de Deus em vão.

Decálogo 1 (Dekalog, jeden) — Polônia, 1989
Direção: Krzysztof Kieslowski
Roteiro: Krzysztof Kieslowski, Krzysztof Piesiewicz
Elenco: Henryk Baranowski, Wojciech Klata, Maja Komorowska, Artur Barcis, Maria Gladkowska, Ewa Kania, Aleksandra Kisielewska, Aleksandra Majsiuk, Magdalena Mikolajczak
Duração: 53 min.

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