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Lista | Os Melhores Filmes de 2025 – Ritter Fan

Uma lista que corajosamente desobedece regras.

por Ritter Fan
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Foram elegíveis para esta lista, apenas: o que foi OFICIALMENTE lançado nos cinemas brasileiros em 2025; o que foi lançado nos streamings e VODs OFICIALMENTE acessíveis no Brasil em 2025; o que foi exibido OFICIALMENTE em Festivais brasileiros em 2025 ou filmes de festivais que foram OFICIALMENTE acessíveis a partir do Brasil.

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Apesar das regras de filmes elegíveis expostas acima, eu tomei a liberdade de me impor, na minha lista, ainda mais restrições, eliminando (1) todos os filmes que foram somente lançados em festivais (o que me fez deixar de fora o sensacional Aquilo que Você Mata, dentre outros) no Brasil, de forma a focar naquilo que foi mais largamente acessível no circuito comercial de cinema; (2) os filmes que foram somente lançados em serviços de streaming (doeu excluir Sonhos de Trem) no país, de forma a prestigiar o lançamento cinematográfico, valendo salientar que filmes que tiveram distribuição limitada nos cinemas fora de festivais e antes do lançamento em streaming foram elegíveis (o que aconteceu nos 4º e 3º lugares); (3) filmes lançados no circuito comercial em 2025, mas que foram incluídos na minha lista de melhores de 2024, para evitar repetições (senão sim, Emilia Pérez entraria novamente, para desespero de meus leitores), e, finalmente, (4) filmes de super-heróis, pois já deu, mas, se eu tivesse que colocar apenas um, este seria Quarteto Fantástico: Primeiros Passos.

Finalmente, como fiz ano passado, resolvi ampliar o Top 10 para Top 20, com uma lista de 10 Menções Honrosas na ordem decrescente, do 20º ao 11º. Vamos lá então?

20. A Longa Marcha
19. Hedda
18. Sing Sing
17. Parthenope
16. Morra, Amor
15. Nosferatu 
14. Maria Callas
13. Ladrões
12. A Meia-Irmã Feia
11. Flow

10º – Foi Apenas um Acidente

Jafar Panahi | Irã e outros | 2025

O acidente do título recorta um grupo de pessoas e cria uma rede de conexões traumáticas que buscam pelo menos entender quem estava por trás dos piores momentos de suas vidas. Não existe, na verdade, um plano geral. Existe a vontade de saber. De entender. Porque nenhuma dessas pessoas consegue lidar com aquilo que não podem remediar. Elas não sabem o que fazer com aquilo que não pode mais ser desfeito. Porque “o que foi feito” está em seus corpos, em suas memórias, em seus sentimentos. O quanto isso não está contaminado pelo ódio ou pelas nuvens do tempo, nós não sabemos. Mas temos a certeza de que, para transformar pessoas comuns em cruéis aterrorizadores que vão usar de todas as zonas cinzentas para justificar seus atos, basta um pequeno acidente. E toda a cadeia de eventos que daí surge, vira trauma e história.

9º – Twinless – Um Gêmeo a Menos

James Sweeney | EUA | 2025

Em apenas seu segundo longa-metragem – e novamente com temática central semelhante, se pensarmos em linhas amplas – James Sweeney consegue criar uma cativante história de amor que aborda perda, luto, amizade e solidão com uma autenticidade desconcertante que faz rir na mesma medida em que emociona e constrói personagens inesquecíveis em uma narrativa original e bem concatenada com Dylan O’Brien e o próprio Sweeney, nos papeis principais, imediatamente estabelecendo uma química invejável. A experiência de se assistir Twinless é semelhante a ser instantaneamente transportado para 100 minutos no futuro tamanha é a fluidez da história que encanta do primeiro ao último minuto e que nos faz querer mais quando os créditos começam a rolar.

8º – Valor Sentimental

Joachim Trier | Noruega e outros | 2025

Em Valor SentimentalJoachim Trier, diretor de A Pior Pessoa do Mundo, nos apresenta um drama familiar em que o constrangimento vira linguagem, a ternura aparece como acidente e a arte surge não como salvação, mas como a desculpa mais sofisticada para continuar fugindo e, talvez, ter redenção nessa válvula de escape. É um filme sobre um pai que retorna tarde demais e tenta comprar tempo com a única moeda que sabe usar: cinema. Gustav Borg (Stellan Skarsgård) é um diretor em declínio que reaparece na vida das filhas depois da morte da ex-mulher e decide transformar a casa da família, um organismo antigo, cheio de memória, nostalgia e ruído, no set de uma nova obra. Ele quer filmar ali, e quer Nora (Renate Reinsve) no papel central. E, quando ela recusa, ele faz o que sempre fez: substitui pessoas por funções, afeto por logística, e contrata uma estrela internacional, Rachel Kemp (Elle Fanning), porque o mundo (e o financiamento) respeita mais “um nome” do que um pedido de desculpas.

7º – Uma Batalha Após a Outra

Paul Thomas Anderson | EUA | 2025

Desde sua abertura, Uma Batalha Após a Outra impõe um ritmo inquieto, quase nervoso. Não é um filme que deixa o espectador acomodar-se, empurrando, sacudindo e desafiando a audiência. Essa inquietação não é defeito, é ferramenta narrativa. Paul Thomas Anderson parece querer que o caos faça parte da linguagem do filme, e, com isso, ele infiltra tensão em cada frame, em cada elipse temporal e em cada cena de ação. O primeiro ato já revela que ele não almeja simplesmente contar uma história linear de vingança ou resgate; quer que a jornada emocional se confunda com a luta política, que o terreno do íntimo e o do público se invadam mutuamente em uma bonita história sobre um pai e sua filha.

6º – O Último Azul

Gabriel Mascaro | Brasil e outros | 2025

Apesar de a população mundial estar envelhecendo, envelhecer e mostrar esse envelhecimento ainda é tabu, ainda é algo que a mídia e a cultura pop fazem das tripas coração para esconder, para relativizar, com a juventude sendo o foco e com “idosos jovens” sendo preferíveis a idosos que não têm vergonha alguma de mostrar sua idade. Em O Último AzulGabriel Mascaro e Tibério Azul levaram essa percepção muito verdadeira da realidade às últimas consequências, criando um Brasil distópico em que os idosos de mais de 75 anos deixam de fazer parte da força produtiva e são obrigatoriamente levados pelo governo para colônias habitacionais onde viverão seus últimos dias para evitar que sua “inutilidade” atrapalhe a produtividade dos mais jovens. Mas tudo, claro, é feito de forma a emprestar um verniz de homenagem e de proteção aos idosos que mascara o tolhimento dos direitos individuais em relação aos indesejáveis.

5º – Trilha Sonora para um Golpe de Estado

Johan Grimonprez | Bélgica e outros | 2024

Trilha Sonora Para um Golpe de Estado se estabelece como um manifesto político e artístico que expõe, sem concessões, as engrenagens de um sistema que sempre vendeu ilusões de progresso, enquanto perpetuava dominações estruturais que moldam nosso mundo até hoje. Johan Grimonprez guia esse imenso volume de informação sem jamais perder o controle da narrativa, tornando a obra uma experiência enriquecedora e transformadora. Se a história costuma ser contada pelos vencedores, este documentário é um raro exemplo de contra-narrativa que busca restituir vozes ou visões silenciadas, além de oferecer uma nova perspectiva sobre os eventos que redefiniram a política global no meio do século XX. Um filme essencial para todos que almejam enxergar com mais clareza os desafios do presente e as batalhas do futuro, nem sempre guiadas por um acorde agradável ou um improviso inspirador de jazz.

4º – Frankenstein

Guillermo del Toro | EUA | 2025

Guillermo del Toro sonhava com uma adaptação do clássico literário gótico de Mary Shelley há décadas e, se olharmos para o conjunto da obra do cineasta mexicano, levando em consideração seu apuro estético, sua imaginação e criatividade e sua capacidade de extrair beleza da monstruosidade, Frankenstein talvez seja o filme que ele nasceu para fazer. No mínimo dos mínimos era o caminho natural para sua carreira, algo que combinava tão bem com tudo o que ele já colocou nas telonas, que, mesmo que ele não tivesse passado anos a fio planejando sua versão de uma das obras mais famosas da literatura ocidental, ele acabaria se envolvendo com ela mais cedo ou mais tarde. E o Frankenstein de Del Toro é verdadeiramente dele, inconfundivelmente dele e, ao mesmo tempo, um cuidadoso e muito bem construído longa-metragem que sabe respeitar o material fonte da mesma maneira que o diretor e roteirista fez em seu magnífico Pinóquio.

3º – The Mastermind

Kelly Reichardt | EUA | 2025

Há uma atmosfera encantadoramente desconcertante em The Mastermind. Com fotografia granular e filtro que mantém uma leve névoa por toda a película, Kelly Reichardt constrói um “filme de roubo” que não é sobre o roubo, mas sim sobre a angústia de viver, sobre o labirinto de uma época em que o movimento de contracultura dos anos 60 já estava em declínio e os EUA entravam na Guerra do Vietnã, sobre falta de rumo, sobre o vazio que consome seu protagonista e que o faz fugir dele mesmo sob a desculpa de estar fugindo da polícia. A cineasta, como é sua marca, não tem pressa e dá tempo ao tempo, com uma sequência inicial quase completamente sem diálogos em que quase nada acontece, mas que estabelece os eventos que seguem e cuidadosamente caracterizam seu James Blaine “J.B.” Mooney, vivido por Josh O’Connor, o planejador do ousado roubo, o mastermind do título.

2º – O Agente Secreto

Kleber Mendonça Filho | Brasil e outros | 2025

Outro elemento, este pouco explorado – pelo menos com essa pegada incisiva – em filmes brasileiros que abordam a Ditadura Militar, é a natureza não só militar, mas empresarial do regime então em vigor, algo que escolhemos esquecer ou, talvez mais justamente, sejamos manipulados para que esse fim seja alcançado. Em O Agente Secreto, o estado opressor, apesar de sempre presente como uma nuvem carregada no horizonte, permanece quase sempre no banco de reservas, em um papel mais passivo, abrindo espaço para a corrupção sistêmica de interesses privados que se beneficiam da situação, algo que o diretor traz para seu filme primeiro como um filete de água em uma torneira esquecida aberta, depois como um jorro assustador que nos afoga com esse outro lado da moeda que não é menos assustador. Mas há muita elegância no que Kleber Mendonça Filho faz – uma de suas marcas, vale lembrar – e o clima de tensão é por diversas vezes arrefecido pela ternura das relações de Marcelo com sua família e com seus vizinhos, inclusive e especialmente Dona Sebastiana e por outras tantas vezes ganha um ar farsesco com personagens que, de tão asquerosos como o delegado de polícia e seus dois filhos, são verdadeiras caricaturas, com direito até mesmo a um momento comicamente macabro em que a tal perna achada na barriga do tubarão “ganha vida”.

1º – Pecadores

Ryan Coogler | EUA | 2025

Não chega a ser um musical, mas tem o pesinho no gênero em algumas sequências extensas de apresentações de Sammie e outros artistas, valendo ressaltar o fantástico trabalho coreográfico em uníssono com o ritmo do filme. O senso de comunhão e de camaradagem que Coogler cria em diversos núcleos é arrebatador, não apenas pelo subtexto rico, mas pelas sensações de sensualidade, malícia, desejo e pura diversão de um grupo de pessoas encontrando uma válvula de escape das periferias e do dinheiro de algodão. A trilha sonora de Ludwig Göransson é extremamente eficiente em navegar pelo melancólico e lento slow blues ou o dançante boogie-woogie, encontrando os pontos certos no êxtase de melodias vibrantes ou no peso da realidade filtrada por uma gaita tirada do bolso de um trapo velho. Assim, os temas da obra não são martelados através de diálogos didáticos, com o conteúdo e suas interpretações chegando através da dialética musical.

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