Home ColunasPlano Detalhe | A Chuva de Kurosawa: Verdades e Mentiras

Plano Detalhe | A Chuva de Kurosawa: Verdades e Mentiras

Um tipo de chuva, uma verdade revelada.

por Luiz Santiago
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Quando eu acordei, o céu já estava bem nublado, meio doente, meio triste. Há pouco, começou a chover. Não uma garoa rala, daquelas que mal molham o chão, mas uma chuva de verdade, que faz barulho na janela. Em momentos assim, quando nada de muito importante me ocupa neuroticamente a mente, eu me lembro do mestre Akira Kurosawa. A chuva (assim como outros fenômenos da natureza como névoa, neve e calor intenso, mas principalmente… a chuva) é um personagem poderoso em seus filmes, sempre exigindo algo, como se caísse nos momentos em que uma falta precisava ser corrigida ou uma problematização precisasse ganhar corpo. Em Rashomon, o diretor mandou misturar tinta preta na água das mangueiras de incêndio porque a chuva comum não aparecia bem na tela. Ele queria que até a água mentisse um pouco, que fosse mais dramática do que a natureza permite. Aquela chuva escura despencando sobre o portão em ruínas traz um misto de paz e angústia visual, uma combinação que deixa a gente meio louco.

 

Já em Os Sete Samurais, a chuva chega na batalha final como benção e maldição, espalhando lama por todo lado e mostrando que não há nobreza nem mesmo nas lutas mais justas. A equipe filmou dois meses naquela chuva artificial, no meio do inverno, arriscando congelamento. Mifune teve que ser internado depois. É difícil explicar, mas a chuva nos filmes de Kurosawa é quase um gatilho para uma avalanche de sentimentos bons em mim. Talvez porque ela nunca aparece por acaso, nunca é apenas uma condição meteorológica. É sempre um presságio, comentário, força realizadora, demonstração da realidade nua e crua. Em À Espera do Tempo, Teruyo Nogami fala que o diretor enlouquecia os produtores, gastando dinheiro enquanto aguardava a tempestade perfeita. Tinha que ser a “chuva certa“. É como na vida. A gente não aprende com qualquer probleminha. Não é qualquer exposed que realmente tem impacto. Não é qualquer lição que entra na nossa cabeça. Tem que ser a coisa certa. No momento certo. Com a intensidade certa. Exatamente como as chuvas de Kurosawa.

Quando chove assim, eu quase tenho vontade de fazer algum movimento dramático, de marcar a cena com algo teatral, como aqueles seres mitológicos na abertura de Sonhos. E quando para de chover, eu sinto que alguma coisa foi resolvida. Afinal, todo movimento de impacto gera resultado, e, para Kurosawa, o que vem depois da chuva é sempre mais claro e mais fácil de lidar… do que era antes. O universo não se importa com justiça, ele só manda a tempestade. Cabe à gente decidir o que fazer embaixo dela, o que encontrar na lama. O momento certo de revelar as coisas. Como nesta crônica, por exemplo. Porque não choveu forte coisíssima nenhuma por aqui. Eu estou mentindo. Me lembrei da chuva de Kurosawa por contraste. Por decepção com o tempo, apenas. Por desejo. Não por experiência.

 

Uma garoa sem graça, vinda do já citado céu nublado, doente e meio triste, realmente caiu por quase meia hora. Mas mal molhou o chão. Eu olhei pela a janela da sala com minha caneca da Corvinal na mão, beberiquei (me sinto com 98 anos escrevendo essa palavra) meu café com leite, desejando que aqueles pingos chochos fossem uma tempestade. Daí me veio Kurosawa. E então, a ideia de uma crônica sobre a chuva em seus filmes. E também a ideia de contar uma mentira para limpá-la com esse desejo de chuva kurosawana, que funciona principalmente na farsa. Porque às vezes eu gosto de inventar o meu próprio dilúvio só para sentir que algo importante está acontecendo. A tal da garoa capenga parou pouco depois que eu comecei a escrever esse texto. O céu continua anêmico, cheio de nuvens. Agora me digam: como não desejar uma tempestade de Kurosawa para melhorar um dia desses? Pelo visto, porém, vou ter que me contentar com a chuva que inventei mesmo…

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