Crítica | Viagem à Lua de Júpiter

estrelas 3

Em 2011, o diretor Gonzalo López-Gallego tentou em Apollo 18 utilizar o found footage em um filme de ficção científica/terror e o resultado foi um filme pífio e descartável. Por isso, quando soube que Viagem à Lua de Júpiter, outro sci-fi, possui o mesmo recurso técnico do longa citado anteriormente, tive preocupação com a qualidade do que assistiria. Porém, fui surpreendido por uma obra tensa e competente naquilo que propõe.

O longa conta a história da missão Europa One, composta por seis astronautas que embarcam rumo a Europa, uma das luas de Júpiter, para encontrar potenciais fontes de vida. Os membros da tripulação são o Capitão William Xu (Daniel Wu), a piloto Rosa Dasque (Anamaria Marinca), o oficial chefe de ciência Daniel Luxembourg (Christian Camargo), bióloga Katya Petrovna (Karolina Wydra), engenheiro James Corrigan (Sharlto Copley) e o engenheiro chefe Andrei Blok (Michael Nyqvist). Ao chegar ao seu destino eles vêem como aquele ecossistema é muito mais complexo do que imaginavam.

O diretor Sebastián Cordero adota aqui a estratégia de construir seu filme como se fosse um documentário, utilizando o já famoso found footage, close-ups médios com personagens olhando diretamente para a câmera, como se estivessem sendo entrevistados, e cenas que reproduzem um telejornal, mostrando os líderes da missão Europa 1 em uma entrevista coletiva explicando sobre o projeto. Essa proposta do diretor funciona não apenas para adicionar à trama o tom realista proposto, como também insere tensão durante toda a projeção, construindo um sci-fi com elementos de thriller.

Essa atmosfera de suspense é construída através de uma direção de arte precisa, criando uma nave claustrofóbica e acinzentada, aumentando a sensação de confinamento e isolamento. Aliado a isso, o figurino utiliza basicamente as mesmas cores dos cenários, reforçando como os personagens são parte daquele local e estão presos ali. Os efeitos especiais superam ainda o baixo orçamento remontando com precisão a superfície do satélite de Júpiter e a nave da missão Europa 1. Já a trilha sonora, composta por Bear McCreary, responsável pela trilha de Rua Cloverfield 10, possui faixas que evocam sentimentos de descoberta, algo necessário em um filme que aborda uma viagem espacial, mas se destaca por momentos onde suas batidas curtas tornam as cenas cada vez mais tensas, sendo competente em evocar o tom buscado por Cordero em sua obra.

Comparado a outros filmes, a trama de Viagem à Lua de Júpiter não traz nada de diferente, mostrando os personagens em uma missão espacial que pode trazer descobertas à humanidade, mas eles tem que enfrentar diversas adversidades para atingir seu objetivo. A diferença desta obra para as demais está no que foi dito antes, a tensão construída para contar sua história. Portanto, mais do que curiosidade sobre o que será descoberto, o longa é competente em evocar o temor sobre o destino de cada um ali, construindo essa sensação desde o início, com depoimentos angustiados dos envolvidos no projeto.

Porém, apesar de funcionarem para criar tensão, as cenas envolvendo as entrevistas dos personagens diminuem bruscamente a sensação de mistério que a trama poderia ter, uma vez que, fica claro que a missão provavelmente terá problemas graves e que a maioria dos personagens morrerão. Além disso, os constantes flashbacks quebram o ritmo da obra, há cenas, por exemplo, cortadas bruscamente para que detalhes anteriores da história sejam mostrados, impedindo que o filme tenha uma construção mais coesa.

O roteiro, escrito por Philip Gelatt, prioriza o desenvolvimento da missão, impedindo que os personagens sejam melhor explorados, focando apenas no relacionamento da equipe, o que é até bem construído, mas não resulta em nenhum personagem memorável, servindo apenas de elementos para movimentar a trama. Por causa disso, os atores não tem muito material para construir suas composições, mas todo o elenco se mostra minimamente competente, com destaque para Michael Nyqvist, construindo um Andrei que fica afetado aos poucos pelo isolamento, e para Anamaria Marinca, que cria uma composição mais fria para Rosa, transmitindo o foco dela em atingir o objetivo da exploração.

Apesar das falhas ditas acima, o filme apresenta no fim um plot-twist sobre o destino de um dos personagens que surpreende. Pode-se até dizer que faltou audácia filosófica á trama, mas a indicação de que vidas em outros planetas podem estar ainda em estágios anteriores ao nosso combinam mais com o tom realista proposto, por exemplo. Há ainda momentos que exploram muito bem o ímpeto do homem por novas descobertas, como na cena onde um personagem diz que ficará frustado caso não encontre vida em Europa e Willian responde “mesmo não encontrando nada, ainda será uma grande descoberta”.

Quem espera encontrar em Viagem à Lua de Júpiter uma ficção científica complexa e filosófica como Interestelar certamente se decepcionará, uma vez que, Cordero constrói aqui uma obra tensa que se assemelha mais com o estilo de Alien, O Oitavo Passageiro, guardadas as devidas proporções, obviamente. Além disso, assim como em Lunar, o filme mostra que não é necessário um orçamento absurdo para se construir um longa envolvente e competente, servindo como mais um belo respiro ao gênero.

Viagem à Lua de Júpiter (Europa Report) – EUA, 2013
Diretor: Sebastián Cordero
Roteiro: Philip Gelatt
Elenco: Christian Camargo, Anamaria Marinca, Michael Nyqvist, Daniel Wu, Karolina Wydra, Sharlto Copley, Embeth Davidtz, Dan Fogler, Isiah Whitlock Jr.
Duração: 89 min

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.