Home TVEpisódioCrítica | Primal – 3X07: O Coração do Morto-Vivo

Crítica | Primal – 3X07: O Coração do Morto-Vivo

O espelho da alma.

por Ritter Fan
206 views

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios.

Ainda não está claro até aonde Genndy Tartakovsky pretende ir com seu Spear zumbi, se teremos ou não o antigo Spear de volta ou se o que estamos testemunhando é, apenas, uma espécie de fechamento de arco mais digno para o personagem do que aquele final frustrante da segunda temporada, mas, independente disso, a jornada de “des-zumbificação” do protagonista é fascinante e ganha talvez sua maior e mais sensível evolução em O Coração do Morto-Vivo, episódio que já começa com uma sensacional tomada em movimento a partir da corrida de Fang com Mira machucada e o pequeno Jabu da caverna dos javalis de volta ao vilarejo para que ela possa ser tratada. Só esse começo já vale aplausos pelo feito técnico, pela forma como o russo consegue criar emoção, urgência e perigo em uma cena completamente cinética que é a perfeita continuação para o cliffhanger do episódio anterior e tão boa que me fez perdoar que tenha acontecido exatamente o que eu temia que aconteceria: Mira recuperar-se quase que em um piscar de olhos para já partir para outra missão.

A grande verdade é que tudo funciona bem demais. Fang chega no vilarejo com os Fanguinhos logo atrás, Mira é medicada e fica desacordada durante a chegada atrasada de Spear que, então, é recebido da pior maneira possível pelos habitantes e também por Fang, em sequências que nos relembram de nossa profunda dificuldade de aceitar aquilo que não compreendemos. Ver Spear ser flechado, atravessado por lanças e escorraçado do lugar que ele um dia salvou é triste e doloroso, mas são justamente esses momentos que mostram o quão mais próximo ele está daquilo que ele um dia foi. Apesar de ser atacado, ele não contra-ataca, sequer se defende de verdade, o que mostra que ele compreende muito bem que aquele pessoal já teve significado para ele um dia. Sua insistência em ver como Mira está é outro sinal claro de sua evolução, assim como é sua frustração em ser rechaçado repetidas vezes por Fang, apesar de os Fanguinhos o aceitarem na base na inocência e pureza das crianças, algo que é de certa forma ecoado no próprio Jabu.

Claro que o grande momento do episódio, que reitera esse processo evolutivo de Spear, é quando ele, fugindo de seus perseguidores, acaba na região das cachoeiras em que ele realmente se vê pela primeira vez e compreende o porquê de ele ser rejeitado. Vemos Spear zumbi lembrar de verdade de sua versão viva e vemos Spear zumbi sofrer por isso, percebendo que ele, agora, está muito distante de quem ele foi. Além disso, essas imagens espelhadas nas águas límpidas são nítidas e não mais enevoadas como anteriormente, indicando, ao que tudo indica, que o que era instinto tornou-se memória, aproximando o protagonista de usa humanidade. É trágico, mas muito bonito notar essa constatação e como ela leva Spear zumbi ao desespero, talvez o ponto alto de sua humanização, pois é o desespero de finalmente descobrir que ele não mais é humano que qualifica sua tragédia e, no final das contas, sua rejeição de si mesmo. Tartakovsky magistralmente invoca clássicos literários como Frankenstein, Drácula, O Médico e o Monstro e O Fantasma da Ópera, dentre outros, para construir sequências de horror pela realização do que Spear agora é, que é impossível não sofrer pelo tão maltratado personagem que tem apenas em Mira um vislumbre de aceitação.

Mas há espaço para o fino humor que tem marcado a temporada. A sequência em que o pequeno Jabu faz a mímica do ocorrido para Mira é hilária, assim como é a sutileza de olhares reprovadores entre Mira e Fang e também – e especialmente – entre os Fanguinhos e Fang, com um momento em especial em que a gigantesca T-Rex muito claramente, ainda que discretamente, reconhece que fez besteira ao rejeitar brutalmente seu parceiro (não mais) humano. Aqui, a aula de Tartakovsky é sobre minimalismo, sobre como olhares são capazes de dizer tudo o que precisamos saber, algo que é particularmente complexo em uma animação, mas que ganha um tratamento primoroso aqui. Nada como lidar com uma história trágica com elementos de horror, além da extrema violência que marca a série sem perder de vista os pequenos detalhes que fazem toda a diferença. Agora é esperar para ver o acontecerá com Spear zumbi na região vulcânica com aquele xamã “símio” branco que ele encontra por lá.

Primal – 3X07: O Coração do Morto-Vivo (Primal – 3X07: Heart of the Undead – EUA, 22 de fevereiro de 2026)
Criação: Genndy Tartakovsky
Direção: Genndy Tartakovsky
Roteiro: Mark Andrews, Genndy Tartakovsky
Elenco: Aaron LaPlante, Laëtitia Eïdo, Debra Wilson, Fred Tatasciore
Duração: 23 min.

Você Também pode curtir

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais