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Crítica | 18½

Uma visão diferente sobre o caso Watergate.

por Rodrigo Pereira
414 views (a partir de agosto de 2020)

Connie parada e observando.

O caso Watergate é um dos mais conhecidos e comentados escândalos políticos não só em terras estadunidenses, mas em todo o planeta (ao menos, no lado ocidental). A tentativa de sabotagem na sede do Comitê Nacional do Partido Democrata por pessoas ligadas ao Partido Republicano e ao governo de Richard Nixon, então presidente dos Estados Unidos, já foi retratada em diversas oportunidades, com o filme Todos os Homens do Presidente como o provável exemplo mais famoso. Portanto, não pude evitar interesse quando cruzei com 18½, uma obra totalmente ficcional sobre o evento.

Com direção de Dan Mirvish, o filme parte de algo real, o caso Watergate, e imagina uma história de total suspense e desconfiança ao redor de um elemento: a fita com os 18 minutos e meio de declarações de Nixon para seus assessores que se achava ter sido apagada. Connie (Willa Fitzgerald) é a transcritora da Casa Branca que, em meio a seu trabalho rotineiro, encontra a fita e percebe ser a única pessoa a saber de sua existência. Assustada, ela recorre a Paul (John Magaro), um jornalista do New York Times desesperado para publicar algo inédito sobre o escândalo, e negocia com ele como farão para ouvir o material e publicar sem que Connie tenha sua segurança posta em risco.

A segurança da personagem, inclusive, parece estar ameaçada a todo instante. Desde o primeiro encontro com Paul em um bar de estrada até os momentos derradeiros da trama, existe uma tensão que ronda todas as ações da dupla, como se estivessem sendo observados a todo instante. Tudo ao redor deles parece estranho: um homem que deixa o bar reclamando do caso Watergate, a garçonete que chega de repente interrompendo a conversa, o dono do motel, Jack (Richard Kind), um tagarela inconveniente que aparece nas piores horas, o casal exageradamente receptivo Samuel (Vondie Curtis-Hall) e Lena (Catherine Curtin), o grupo de hippies revolucionários, o homem pescando solitário no lago do local. Tudo traz a sensação de que há algo errado e funciona tão bem pelo ótimo trabalho tanto de direção quanto dos atores.

No primeiro caso, podemos citar a escolha quase que exclusiva das cenas de Connie e Paul serem em locais fechados, trazendo a ideia de que ambos estão encurralados mesmo em ambientes mais abertos, como na discussão que têm no pequeno corredor externo entre os quartos do motel (o vagaroso zoom in de Mirvish reforça essa ideia). Outro exemplo é da iluminação estourada principalmente nas sequências internas do jantar com Samuel e Lena. Aquela iluminação quase que gritando na tela somada ao constante enquadramento de um dos dois integrantes do casal em frente à luz cria um ambiente extremamente desconfortável, ainda que a aparência seja de um agradável jantar.

Aliás, deve-se destacar o excelente trabalho da diretora de fotografia Elle Schneider. Além dos casos já citados, a cena de conversa de Paul e Samuel em frente ao lago é uma das que melhor sugere que há algo estranho acontecendo. Enquanto a conversa se desenrola em meio a goles de bebida, vemos Paul enquadrado entre duas árvores bastante estreitas, quase que o esmagando, enquanto Samuel possui muito mais espaço em seu enquadramento, com os troncos de suas árvores muito mais distantes e com os galhos acima de suas cabeças como se pensasse o que fazer com seu alvo.

Apesar do terceiro ato não seguir a qualidade do resto da obra, com o clímax apresentando uma batalha quase que amadora em determinados momentos, 18½ é uma ideia bastante interessante e, no geral, bem executada sobre uma peça do quebra-cabeça do caso Watergate perdida até os dias atuais. A boa direção somada às ótimas atuações, principalmente do quarteto Willa Fitzgerald, John Magaro, Vondie Curtis-Hall e Catherine Curtin, entregam um suspense de qualidade que, caso não esteja enganado, possui uma abordagem inédita acerca do caso.

18½ — Estados Unidos, 2021
Direção: Dan Mirvish
Roteiro: Daniel Moya
Elenco: Willa Fitzgerald, John Magaro, Jon Cryer, Bruce Campbell, Richard Kind, Vondie Curtis-Hall, Ted Raimi, Lloyd Kaufman, Catherine Curtin, Sullivan Jones, Marija Abney, Alanna Saunders
Duração: 73 min.

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