Crítica | A Dama e o Vagabundo (2019)

“Oh this is the night
It’s a beautiful night
And we call it Bella Notte”

Dentre os romances que marcaram o passado da Disney, certamente o entre uma dama cocker spaniel e um vagabundo vira-lata ocupa uma posição especial no seu legado, em meio a demais casos de amor compostos por meros humanos – como se gente pudesse amar verdadeiramente. Como já é de praxe pelos auto-plagiadores que comandam a empresa do camundongo tagarela, contudo, chegou o momento de revisitar esse amor nutrido pelos carismáticos cachorrinhos, agora recriados em vista de um anseio por realismo. É que, para alguns, a magia da animação parece não ser o bastante – um ponto que se agrava num mundo em que Disney+ é uma realidade, e o original pode ser visto a qualquer momento, por qualquer geração. Mesmo assim, pontos separam o retrato em live-action do clássico em questão da impessoalidade percebida em outras produções do estúdio, que continuam a desgastar suas histórias. Num primeiro lugar, as estrelas caninas são realmente cães de verdade, em oposição ao completo caráter tecnológico presente nos filmes que Jon Favreau, por sua vez, dirigiu para os estúdios Walt Disney. Tessa Thompson e Justin Theroux interpretam as vozes dos protagonistas, que partem do mesmíssimo princípio: criações inversas, já que, enquanto Dama ocupou o centro das atenções da vida de seus donos por um bom tempo, o Vagabundo, sem nem um nome próprio para caracteriza-lo, precisou se virar, por sua conta e risco.

Em meio a uma interpretação que não depende apenas dos seus atores para funcionar, Thompson e Theroux possuem mais sorte nesse processo do que Donald Glover e Beyoncé, partes do elenco de voz do outro longa-metragem animal do ano. E se era para Sam Elliott interpretar alguém nessa vida esse alguém era para ser o cachorro Trusty, uma encarnação que complementa-se ao visual do bicho. Charlie Bean, responsável por dirigir o remake, encontra-se pouco interessado em usar a computação gráfica para ser o espetáculo por si só. O cineasta a usufrui como parte da construção narrativa, na qual os animais precisam se comunicar em inglês para expor os seus pensamentos. Claro que o resultado dos efeitos visuais não é impecável, mas o ponto de vista dramático do longa é bem mais preciso por poder, em certas cenas, apoiar-se na presença crua de cachorros reais. O passeio no barco, nesse sentido, novidade não-presente no clássico, é um acréscimo bem-vindo ao dia que os personagens, pelo acaso da vida, terminam passando juntos. Curiosamente, para o bem e para o mal, a busca por tornar a história de amor entre os cães realista vai além da mera repaginação estética, porque o próprio roteiro ultrapassa o ponto de vista animal. Nisso, perde-se um pouco da magia que a Disney conseguia depositar mesmo em uma narrativa mais pé-no-chão, que acompanha as tantas desventuras dos animais pelo universo afora, seus perigos e maravilhas.

Fora as transformações menores – como a mudança de gênero de Jock/Jackie (Ashley Jensen), antes masculino -, e a repaginação completa, na tão marcante quanto racista, “The Siamese Cat Song”, o grande contraste no remake é a importância que o núcleo humano ganha. Ao passo que a animação raramente mostrava os rostos do caro Jim Dear (Thomas Mann) e da querida Darling (Kiersey Clemons), o novo filme os engrandece bastante. A mesma coisa também acontece com outros personagens, como os antagonistas, tanto a Tia Sarah (Yvette Nicole Brown) quanto o algoz do Vagabundo, Elliot (Adrian Martinez). Há um anseio, nessa revisita em carne e osso ao longa de 1955, para que o enredo também seja pautado em pessoas. Esse enfoque, porém, não existia no original, que era conduzido pela visão única e exclusiva dos cachorros, pequenos demais para um mundo grande demais. O bebê que o casal possui, algum tempo depois de trazerem Dama para o seu lar, continua sendo a grande ameaça para o status quo da cadela, entretanto, perde um pouco do senso de ameaça pela proximidade com os adultos. O minimalismo da animação, que permitia os seus eventos simplesmente acontecerem sem precisar de uma costura intrincada, é rejeitado, em prol de uma narrativa, mesmo que mais complexa, também mais esquemática. Era necessário dar razões para a Tia Sarah não ser carinhosa com Dama – como a raiva por não cuidar do bebê?

Numa analogia à ambientação no Natal, o roteiro do remake preenche-se em excesso de enfeites natalinos supostamente imprescindíveis, que terminam, em contrapartida, escondendo a grandeza da árvore que de fato permitiria o enredo se sustentar. O que era, na teoria, uma história de amor torna-se, ao mesmo tempo e em mesmo grau, uma história do preconceito contra vira-latas e uma história sobre lealdade humana, mas nenhuma é tão decente quanto a de paixão. Tudo existia no clássico e era posto em pauta de maneira natural, como ponte para o romance se sustentar, e não personificado, por exemplo, na figura quase maniqueísta de Elliot – personagem que serve como uma amálgama de inúmeros da animação. Bean precisa consolidar o seu longa em um conjunto de várias intenções nem tão bem executadas. Enquanto o drama do bebê ganha corpo nesse remake, com o medo de Dama em ser abandonada pelos seus donos aproximando-se do triste trauma do Vagabundo em ter sido realmente abandonado, a novidade ao passado do cão é apresentada, contudo, de maneira expositiva demais. O romance, por sua vez, permanece competente – e, por sinal, a participação de F. Murray Abraham agrega à canção “Bella Notte”, a principal da animação, que é reiterada na obra juntamente com “He’s a Tramp”, performada por Janelle Monáe. O longa pode, assim sendo, não ser tão mágico, porém, a noite continua a ser, na medida do possível, bela.

A Dama e o Vagabundo (Lady and the Tramp) – EUA, 2019
Direção: Charlie Bean
Roteiro: Andrew Bujalski
Elenco: Tessa Thompson, Justin Theroux, Kiersey Clemons, Thomas Mann, Ashley Jensen, Benedict Wong, Janelle Monáe, Yvette Nicole Brown, Arturo Castro, Adrian Martinez, Sam Elliott, Ken Jeong, F. Murray Abraham, Clancy Brown, Nate “Rocket” Wonder, James Bentley, Parvesh Cheena
Duração: 104 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.