Crítica | A Estranha Perfeita

Há um momento que os cineastas se encontram diante de impasses no ato de concepção fílmica. Tudo que o roteiro lhe oferece já foi contado antes, talvez melhor, então surge o questionamento: como lidar com o conteúdo de maneira menos óbvia? James Foley é um bom exemplo para ilustrar tal reflexão, pois em A Estranha Perfeita, ele recebe como guia o roteiro de Todd Komarnicki, inspirado no argumento de John Bokenkamp, tendo como missão entregar ao público uma história minimamente convincente, um desses suspenses herdeiros da atmosfera erótica de Instinto Selvagem. O excesso de reviravoltas, costuradas para fazer o filme ser menos óbvio do que parece não deu certo no caótico e exagerado resultado final.

Na trama, Rowenna Price (Halle Berry) interpreta a típica jornalista dedicada e idealista, nem um pouco preocupada com a ética. Logo na abertura a encontramos indo ao gabinete de um político que prega hipocrisias cotidianamente para os seus eleitores, mas mantinha uma relação homossexual com seu assistente. Por meio de fotos, ela vai gradualmente flertando com a chantagem e faz exigências para o homem que recebe tudo de maneira assustada. De cara, o roteiro já nos reforça que não se deve brincar com a Rowenna. Ela chega ao trabalho e dialoga com seu editor, Narron (Richard Portnow), animada pelo furor que a polêmica causará. Em direção ao bar para comemorar, juntamente com Miles (Giovani Ribisi), a alegria da jornalista dura pouco.

Seu editor aparece e diz que o político arranjou uma maneira de calar a mídia. Revoltada, ela sucumbe ao ego ferido e pede demissão ao editor. No caminho de volta, encontra Grace (Nicki Aycox), uma pessoa que ela desde a primeira vez aparenta não ter interesse em reencontrar. Saberemos, mais adiante, uma trama macabra entre as duas, no passado. O que faz tal encontro ser favorável é a entrega de um material que pode ser seu próximo furo de reportagem: supostas provas que incriminam o publicitário charmoso Harrison Hill (Bruce Willis), homem poderoso no ramo dos negócios, casado, mas em crise domiciliar, conhecido por flertar com secretárias, clientes e outros contatos que possam conceder uma boa sessão de sexo.

Adivinha o que acontece? Rowenna sente-se intrigada com a história que se estabelece diante de seus olhos. Conforme detalhes da “amiga”, alguém que saberemos, teve um caso com seu noivo Cameron (Gary Dourdon), Hill é um homem que comete crimes e esconde por meio de acertos indevidos. Há relatos de assassinatos. As coisas ficam mais graves quando Grace é identificada por Rowenna no necrotério, morta logo depois do último encontro. É quando a jornalista, movida pelo arquétipo do faro investigativo, segue numa cruzada para descobrir os segredos por detrás desta história mal contada. Primeiro ela se infiltra no escritório, como funcionária da agência. Ganha a simpatia e confiança de Esmeralda (Patti D’Arbanville), secretária de confiança de Hill.

Dentro do ambiente propicio para a investigação, Rowenna agora precisa ser “vista” pelo chefe. Para isso, a personagem dependerá dos figurinos de Renee Ehrlich Kalfus, setor eficiente em seus diversos saltos belíssimos, vestidos justos ao corpo esbelto da atriz, fendas que expõem cada centímetro do seu corpo, além da maquiagem que a deixa sensual, sem traço algum de vulgaridade. Há uma curiosa cena, logo na abertura. Ela é alegórica para o desenvolvimento da personagem. Antes de chantagear o político hipócrita, Rowenna é devastada na passarela de segurança. Roupa, sapato, bolsas, tudo é controlado, tendo em vista evitar prováveis ataques terroristas. A câmera, mais adiante, por meio da direção de fotografia de Anastas N. Michos, faz o mesmo.

Capta a personagem em enquadramentos e a acompanha em movimentos de câmeras que exaltam a sua sensualidade, algo que não demora a chamar à atenção do chefe. Os cenários, em diálogo com os personagens, funcionam de maneira eficiente para a história que se pretende contar, haja vista o bom design de produção de Bill Groom. O problema é que todos esses elementos são meras distrações estéticas para uma história carente de bons conflitos externos e internos. Saberemos do passado de Rowenna numa reviravolta final, brusca demais, provavelmente inserida quando os realizadores observaram que a história eram demasiadamente um lugar comum no gênero suspense policial contemporâneo. Próximo ao desfecho, quando achamos que os créditos tomarão a tela, o filme ainda nos reserva algumas novidades.

É o encadeamento de outra reviravolta. Miles, personagem que a ajuda nas entradas e saídas virtuais de sistemas e e-mails descobre as motivações de Rowenna e o seu modo operacional para desconfiarmos de coisas que não verdade são apresentadas sob o ponto de vista da personagem, mas que na realidade aconteceram de outra maneira. É o filme em diálogo com outra produção em que Halle Berry interpretou a típica personagem que deveria escrever numa camiseta, a expressão “as aparências enganam”. Alguém lembra de Espiral da Cobiça? A condução sonora de Antonio Pinto faz algum esforço para tornar tudo bem tenso, juntamente com a edição de Christopher Tellefsen, repleta de flashbacks, mas nesse ponto A Estranha Perfeita já foi longe demais e se perdeu pelo meio do caminho.

A Estranha Perfeita (The Perfect Stranger/Estados Unidos, 2007)
Direção: James Foley
Roteiro: Todd Komarnicki
Elenco: Bruce Willis, Giovanni Ribisi, Halle Berry, Jane Bradbury, Nicki Aycox, Paula Miranda, Tamara Feldman
Duração: 107 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.