Crítica | A Morte do Superman (2018)

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“Eu lhe devo uma, Flash.

Você me deve umas trinta! Eu me pergunto se é tarde demais para se juntar aos Titãs. Existe um limite de idade?”

Contém spoilers! O Superman morre!

Por que adaptar uma história como A Morte do Superman, criada com o intuito majoritário de chamar atenção do público e vender como água milhares de exemplares? A decisão de incluir tal evento, que já havia sido adaptado vagamente na animação Superman: Doomsday e no final de Batman vs Superman: A Origem da Justiça, é extremamente questionável, ainda mais tendo em vista que uma sequência, também relacionada ao cânone compartilhado com os quadrinhos, já foi anunciada. A morte do Superman em BvS perdeu muita da sua carga dramática pela antecipação desnecessária de um acontecimento que deveria ser deveras mais significativo, tardio, climático no universo, logo nos notificando do seu teor efêmero, dado o lançamento de Liga da Justiça, que o retornou dos mortos. Agora, o filme de animação A Morte do Superman, baseado no popular quadrinho dos anos 90, também faz a mesma coisa, só que ainda pior. Em um mundo em que histórias como O Que Aconteceu ao Homem de Aço e Grandes Astros Superman existem, a escolha por uma das mais fracas protagonizadas pelo herói, no que tange o assunto de sua queda como herói, é desapontante para um universo como o das animações da DC, muito mais próspero, mas não necessariamente melhor, que o que vem sendo estabelecido nos cinemas.

Mesmo assim, dando permissividade à dúvida, o longa-metragem até poderia se reservar ao direito de funcionar, independente de qualquer pré-conceito. Aliás, tentando conciliar uma franquia concreta, com histórias previamente contadas e embasamento de anos, a essa, que é um marco, A Morte do Superman começa estabelecendo boas ideias, como o mito inerente da grandiosidade do Superman (Jerry O’Connell), apresentado já na primeira cena, onde o personagem é introduzido paralelamente a sua super-velocidade, derrotando vários bandidos sem nem mostrar o rosto. A comédia, nessa cena, também é presente. No geral, a própria Liga da Justiça, como um grupo coletivo, também é um destaque, sem ser deixada de lado a favor de um destaque integral no Homem de Aço. Mas isso não é um ponto realmente positivo quando, ao ganhar espaço em cena, o grupo não exibe a alma presumidamente intrínseca a presença dele no filme. Um dos antagonistas, Lex Luthor também não aproveita o espaço aberto para holofotes. Além do casting questionável de Rainn Wilson, o conjunto final realça a falta de importância narrativa do vilão, aparentemente redimido dos seus pecados; um arco fantasma, porém. Aquele sentimento verdadeiro de pesar é inexistente. A trilha sonora nada fortalece a derrocada dos heróis, o medo do espectador em vê-los fracassar, torcendo para que a última esperança surja e impeça mais destruição. O Superman morre, porém, nada é estabelecido além do quase banal; a cru e insensível morte do soldado no campo de batalha.

Com a chegada do Apocalypse – basicamente a trama do filme, que tem como antagonista um vilão que é vilão porque é vilão, sem precisar ser mais do que isso – os membros do grupo são derrotados um a um, impotentes diante dos poderes do monstruoso ser alienígena. O temor do espectador é voltado a essa sequência, que alcança um ápice de tensão quando alguns heróis ainda de pé, como o Caçador de Marte (Nyambi Nyambi), se viram para ajudar o Batman (Jason O’Mara), completamente indefeso no meio daquela frente de guerra. Infelizmente, quando se trata dos personagens que amamos em uma esfera individual, apenas a Mulher Maravilha (Rosario Dawson) ultrapassa uma barreira de inexistência narrativa. Por exemplo, a busca por uma conexão sentimental entre o Homem-Morcego e o Homem do Amanhã é inexistente, inventada na cena final com o personagem, ao lado de Alfred e seu filho. A Morte do Superman é uma animação consideravelmente curta, como costumam ser as produções situadas nesse universo animado. Quinze ou vinte minutos a mais na duração do longa-metragem eram indispensáveis para que o espectador tivesse um real envolvimento com a narrativa em um nível emocional, fortalecendo esses laços que, no momento da morte do herói, seriam dissolvidos e, por conseguinte, seriam sentidos. Justamente aquele personagem basicamente inédito na franquia, Bibbo Bibbowski (Charles Halford), um conhecido do Superman, que arremata a maior parte do valor de drama, decorrente de uma presença bastante tocante.

O vazio na conexão entre o público e a obra tenta ser preenchido pelo filme com as cenas de ação, principalmente a derradeira – o confronto final entre o homem e o monstro, ambos alienígenas. A empolgação é passageira. Desse diálogo de filme com espectador, anterior à morte, sobra o que está disposto na relação amorosa de Clark Kent com Lois Lane (Rebecca Romjin). O resultado, ainda assim, é desapontador. Comparando-o com o da adaptação de Grandes Astros Superman, percebe-se como, naquele caso, o amor do extraterrestre pela terráquea foi engrandecido por cenas deveras mais charmosas, um texto mais bem estruturado e resolvido, além do principal de tudo: uma boa história. A única realização que consegue se equiparar às mais certeiras daquele longa é a astuta revelação de Superman à Lois da verdadeira identidade por trás dos seus óculos sem grau. Sendo algo que há tempo pedia para ser extraído de seu peito, a frase é dita rapidamente, sem alarde, extremamente natural – um ponto positivo na falta de outros. A realidade é que, por fim, para os roteiristas e diretores do filme, a morte do Superman nada parece significar. O fim é o público, interessado na já anunciada sequência; a conclusão é uma revelação broxante, sem a sugestão de Batman vs Superman ou a frieza de Guerra Infinita. Pouco parece importar para os realizadores o quanto o espectador já está extasiado de mortes engrandecedoras, ainda mais as mortes engrandecedoras do Superman. Os quadrinhos originais, ao menos, eram originais em algo.

A Morte do Superman (The Death of Superman) – EUA, 2018
Direção: Jake Castorena, Sam Liu
Roteiro: Peter J. Tomasi
Elenco: Jerry O’Connell, Rebecca Romijn, Rainn Wilson, Rosario Dawson, Nathan Fillion, Christopher Gorham, Matt Lanter, Shemar Moore, Jason O’Mara, Rocky Carroll, Patrick Fabian, Charles Halford, Jennifer Hale, Max Mittelman, Nyambi Nyambi
Duração: 81 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.