Crítica | A Mulher Daquela Noite

A Mulher Daquela Noite é o primeiro longa sobrevivente de Yasujiro Ozu a abordar um assunto sério sem contornos cômicos. Não que a obra seja completamente diferente das que vieram antes, pois não é, mas ela carrega uma sobriedade e um “modo” de contemplação que não estavam presentes nos trabalhos anteriores e que lembram, ainda que de longe, algumas obras das fases posteriores do cineasta, aqui ainda nos seus 20 e tantos anos.

O longa – ou o média-metragem, na verdade – é simples em sua premissa: um homem desesperado comete crime para salvar sua filha que está doente, em estado crítico. Metade da projeção é dedicada a estabelecer essa premissa, abordando o roubo de um lado em um estilo noir expressionista que parece beber da vertente cinematográfica alemã e, de outro, a menina acamada aos cuidados da mãe. A conexão entre as narrativas demora a ficar evidente, pois Ozu, como em seus filmes anteriores, é parcimonioso demais no uso de inter-títulos, com o primeiro (sem contar os que estabelecem onde e quando as ações se passam) aparecendo apenas aos 12 minutos. Ele compensa no quesito “ação”, já que a narrativa do pai de família (Mitsuko Ichimura) perpetrando o roubo e, depois, fugindo da polícia, é muito bem trabalhada, com os cenários privilegiando o tamanho descomunal dos prédios, as sombras das ruas e o diminuto tamanho do protagonista diante das forças opressoras ao seu redor,  o que torna tudo muito fácil de se ver pelo fascínio imediato que exerce.

No lado do drama da criança e da mãe, Ozu tem menos sucesso, já que ele recorre à presença do médico e, aí sim, a inter-títulos explicativos, para passar ao espectador a gravidade da situação, algo que não bate com a atuação da pequena Tokihiko Okada, sempre ativa e serelepe, passando longe, portanto, da doente em estado crítico que somos levados a acreditar pela interação anterior. Além disso, a exata natureza da correlação entre o roubo e a desejada melhora da menina não é algo que resta claro. É intuitivo que o pai precisa do dinheiro para salvar a menina, mas o “como” e o “porquê” ficam perdidos na narrativa e poderiam ter sido mais bem trabalhados.

Afinal, mesmo considerando a curta duração de pouco mais de uma hora, o filme tinha espaço para essa contextualização, já que, na segunda parte, com o pai em casa e a polícia chegando para prendê-lo, a história praticamente para e o estado contemplativo que mencionei começa. Não é algo negativo em si. Apenas saliento que alguns minutos poderiam ter sido utilizados para fazer uma ponte mais clara entre o roubo e a doença da menina. Mas talvez esteja querendo detalhes desnecessários para uma história que privilegia a moralidade de seus personagens. O desespero do homem é palpável, assim como o amor pela filha, algo que a mulher, a mãe, equilibra com uma atuação contida de Emiko Yagumo. Há um contraste aí. O primeiro é o desespero encarnado, algo visto inclusive pela maquiagem teatral utilizada no rosto do ator. A segunda é um pilar, a verdadeira sustentação daquele lar. Uma mulher que sente toda a dor do mundo, mas que mantém o semblante firme e austero. Ela sabe que o que o marido fez é errado, mas sabe que a decisão sobre o que fazer é dele, por mais que ela queira que ele saia livre.

O policial, que entra na segunda metade da fita e é vivido por Tôgô Yamamoto, representa obviamente a instituição, a retitude moral, mas que ele mesmo demonstra fraquejar diante da situação dramática da família. O crime foi cometido em momento sem saída da vida do homem, assim como o pão roubado por Jean Valjean em Os Miseráveis. É um crime, ninguém duvida, mas seria moralmente correto condenar um pai de família por tentar salvar sua filha? Essa moralidade já fora trabalhada por Ozu em Marchar com Alegria mas, aqui, ela é o verdadeiro foco da narrativa. É possível que muitos considerem que o tempo de “inação” narrativa seja cansativo e faça o filme perder o ritmo na segunda metade e eu não tiraria a razão, pois a obra perde consideravelmente o impulso que demonstra ter na primeira meia hora. Novamente, porém, é aqui o cerne da questão e Ozu usa esse tempo para nos fazer pensar, para estudar todas as alternativas possíveis e a nos levar a concluir que só há uma, na verdade. A trinca adulta compensa com belos trabalhos de atuação que tornam críveis os dramas vividos por cada um deles no pequeno apartamento da família.

A Mulher Daquela Noite tem seus problemas e é um hesitante enveredamento de Ozu por um caminho mais sóbrio, mas o resultado ainda é um filme de um grande mestre em franca evolução. Seu estilo ainda bem hollwoodiano, que conta até com os pôsteres de suas influências do além-mar, começa, aqui, a abrir espaço para sua tendência à observação das pequenas questões do dia-a-dia, o que seria sua marca nas décadas seguintes.

A Mulher Daquela Noite (Sono yo no tsuma, Japão – 1930)
Direção: Yasujiro Ozu
Roteiro: Kôgo Noda (baseado em romance de Oscar Schisgall)
Elenco: Emiko Yagumo, Tokihiko Okada, Mitsuko Ichimura, Tôgô Yamamoto, Chishû Ryû
Duração: 65 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.