Crítica | A Noiva do Re-Animator

É a velha história: as continuações cinematográficas, para justificarem sua existência, precisam trazer mais do mesmo só que em quantidades muito maiores, em um crescendo de exageros e bizarrices que muito raramente vem acompanhado de qualidade. Re-Animator foi um estrondoso sucesso trash em 1985 e sua sequência era inevitável, ainda que tenha demorado bem mais tempo que o usual, estreando, apenas, em 1990 e infelizmente sem envolvimento de Stuart Gordon, diretor e roteirista do primeiro.

Talvez o problema esteja mesmo na ausência de Gordon, pois tudo aquilo que tornou o filme original uma das melhores adaptações de uma obra de H.P. Lovecraft inexiste em A Noiva do Re-Animator, ainda que o material fonte tenha continuado a servir de inspiração, desta vez aproximando o longa mais de suas raízes frankensteinianas, com o Dr. Herbert West  e seu colega, o Dr. Dan Cain (Jeffrey Combs e Bruce Abbott voltando a seus papeis), tentando usar o famoso reagente que parece o sangue do Predador para “construir” um ser humano – a tal noiva do título, em homenagem, claro, ao clássico A Noiva de Frankenstein – a partir de pedaços de outros que eles vão aos poucos recolhendo do necrotério da Miskatonic University.

Mesmo considerando que a novidade do primeiro filme já havia sido esgotada, talvez o mais do mesmo pudesse ser divertido, mas o problema é que o roteiro de Rick FryWoody Keith e Brian Yuzna não sabe o que quer fazer. Primeiro há um preâmbulo com os protagonistas em meio a uma guerra civil no Peru cuja função narrativa é altamente questionável por não trazer nada que não pudesse ser feito de maneira muito mais objetiva e lógica considerando que, minutos depois, tudo volta para a citada universidade quase que como os eventos anteriores não tivessem acontecido, com a dupla, agora, vivendo em um casa no meio de um cemitério e fazendo experiências no bom e velho porão. Mas os eventos anteriores aconteceram e há um policial, o tenente Leslie Chapham (Claude Earl Jones), investigando o que aconteceu oito meses depois, mas por razões pessoais, já que sua esposa é uma das “reanimadas” que ficam batendo cabeça em um quarto acolchoado. E, finalmente, há a vingança do Dr. Carl Hill (David Gale também de volta), cuja cabeça é localizada e levada ao necrotério aos cuidados do Dr. Wilbur Graves (Mel Stewart).

Essas três linhas narrativas, que contam ainda com a presença de Francesca Danelli (Fabiana Udenio) como o interesse amoroso e dama em perigo da vez, conversam muito pouco, mantendo-se paralelas, sem tangenciamento, por um tempo enorme, praticamente dois terços da projeção, de forma que o diretor e co-roteirista Brian Yuzna possa refestelar-se fazendo o que realmente queria fazer desde o início: experiências macabras e completamente sem sentido de partes do corpo sendo reunidas quase aleatoriamente para todos os fins possíveis, menos contar uma história. Com isso, temos quatro dedos e um olho fazendo as vezes de aranha, uma perna e um braço que só chutam e socam, uma cabeça com asas de morcego e assim por diante, em um desfile de bobagens macabras repleta de sangue, entranhas e efeitos sonoros nojentos para deslumbrar a meia dúzia de espectadores que cair nesses truques baratos.

Chega a impressionar como o roteiro adia ao máximo possível a construção da noiva para permitir essas brincadeiras pelo diretor e, quando o grande momento chega, ele não dura 10 minutos, criando um anticlímax desapontador, ainda que, em termos de efeitos práticos, muito bem feito. Quer parecer é que simplesmente não havia história a ser contada e o longa metragem é uma sucessão mal-ajambrada de pequenos curtas experimentais cheios de gore com absolutamente nada do charme e da sutileza – quase elegância – que Stuart Gordon soube imprimir em sua fita de cinco anos antes. Até mesmo o louco, mas carismático Dr. Herbert West está irreconhecível aqui, trocando a pegada de cientista maluco pela de louco histriônico com tão pouco material bom que Jeffrey Combs não sabe muito bem o que fazer com seu personagem.

Deixando a personalidade e a lógica do primeiro filme completamente de lado, A Noiva do Re-Animator não consegue fazer jus nem ao material fonte, nem ao filme de Gordon, mais parecendo, ironicamente, uma produção feita de pedaços de diversas outras obras reunidas em um conjunto nada harmônico, mas muito histriônico e exagerado, além de tão efêmero quanto a noiva do título. Um verdadeiro desperdício de potencial.

A Noiva do Re-Animator (Bride of Re-Animator, EUA – 1990)
Direção: Brian Yuzna
Roteiro: Rick Fry, Woody Keith, Brian Yuzna (baseado em personagens e obra de H.P. Lovecraft)
Elenco: Jeffrey Combs, Bruce Abbott, Claude Earl Jones, Fabiana Udenio, David Gale, Kathleen Kinmont, Mel Stewart, Irene Forrest, Michael Strasser, Mary Sheldon, Friday
Duração: 96 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.