Crítica | Succession – 1ª Temporada

A primeira temporada de Sucession é bem-sucedida em diversas frentes, mas a que se destaca de imediato é a habilidade ímpar do britânico Jesse Armstrong, seu criador, em colocar na telinha um desfile de personagens – de principais a coadjuvantes – absolutamente intragáveis, daqueles que o espectador não consegue deixar de detestar do primeiro ao último minuto de projeção, como um recorte de tudo o que é pior na humanidade. E não, não pensem vocês que essa visão pessimista de mundo é algo exclusivo desse cenário bilionário que o showrunner construiu, pois ele mais do que definitivamente não é, com versões de Logan Roy e companhia permeando todas as classes sociais, com provavelmente um deles bem perto de nós, se pararmos para pensar.

E é isso que faz de Succession o que a série realmente é: um fascinante estudo de um universo super-exclusivo que, se o espectador observar com cuidado e for honesto em suas conclusões, tem características facilmente identificáveis em todas as camadas sócio-econômicas e em todas as famílias. Claro que a ultra-riqueza decadente que permeia a história torna tudo mais distante da realidade de meros mortais e, portanto, mais confortável de se apontar dedos e dizer que a “doença” está nesse nicho de seres humanos com mais dinheiro do que muitos países, mas essa não é bem a verdade e nós sabemos muito bem disso, ainda que nossa tendência mais do que natural seja varrer os problemas ao nosso redor para debaixo do tapete.

O foco da série, portanto, é na família Roy, dona da Waystar Royco, um conglomerado de mídia e entretenimento que em muitos – MUITOS – aspectos se assemelha com a Disney e/ou Fox (antes da aquisição de grande parte pela Disney, claro), o que inclui canais de televisão de notícia e de entretenimento, produtoras de filmes cinematográficos e parques temáticos espalhados por todo o planeta. E, como o título deixa bem claro, o catalisador da narrativa é o suposto anúncio da sucessão de Logan Roy (Brian Cox), patriarca da família que construiu o império que controla com mão de ferro, por seu filho Kendall (Jeremy Strong), que tem um passado de envolvimento com drogas e que cobiça o cargo mais do que qualquer coisa. Quando as coisas não seguem por esse caminho e Logan fica incapacitado, todas as peças entram em movimento, especialmente Kendall e seus irmãos Roman (Kieran Culkin), um completo enlouquecido e irresponsável não muito interessado na empresa, mas que sempre a fica orbitando, Siobhan ou Shiv (Sarah Snook), mulher centrada e inteligente que não trabalha com o pai, mas sim como conselheira em campanhas eleitorais e Connor (Alan Ruck), um faz-nada relaxado que vive em um rancho no meio do nada com coisa nenhuma, além de Tom Wambsgans (Matthew Macfadyen), noivo de Shiv e executivo da Waystar Royco que é a encarnação humana de um parasita que adora atenção, e do jovem Greg Hirsch (Nicholas Braun), sobrinho-neto de Logan que é forçado pela mãe a imiscuir-se nesse mundo completamente fora de sua realidade imediata e que acaba debaixo da asa de Tom em um papel cheio de discretas camadas que vai muito vagarosamente revelando que o garoto é muito mais do que aparenta ser.

Mas há muitos outros personagens na complexa estrutura empresarial que vão ganhando destaque na medida em que a trama – repleta de reviravoltas e traições – avança, valendo nota Marcia Roy (Hiam Abbass), a terceira e atual esposa de Logan que protege o marido a todo custo, Frank Vernon (Peter Friedman), diretor de operações da empresa e aliado de longa data de Logan e Gerri Kellman (J. Smith-Cameron), advogada-chefe do conglomerado. E isso sem contar com outros que se conectam mais diretamente com alguns personagens-chave, especialmente o pequeno ecossistema político que gira ao redor de Shiv.

Apesar do vasto elenco e do constante jogo empresarial, financeiro e político, os roteiros conseguem mágica ao manter a trama focada e centrada no seio familiar dos Roys que controla a Waystar Royco, ainda que cada um deles defenda apenas seu próprio interesse. Com isso, a história flui muito facilmente mesmo quando os meandros técnicos são abordados, já que o texto expositivo é costurado de maneira firme à tessitura da narrativa, impedindo que o espectador seja pego despreparado. Mesmo assim, não é uma série para ser assistida de brincadeira ou verificando o celular a cada cinco minutos, pois ela exige um certo grau de dedicação até mesmo para que a barreira naturalmente construída pelo quão desagradáveis são os personagens seja ultrapassada e seja possível realmente deliciar-se com todo o veneno e podridão que parece ser a argamassa de todo esse mundo multi-bilionário que parece tão alienígena e ao mesmo tempo tão familiar.

Por vezes, porém, os roteiristas carregam no déjà vu, como quando eventos bombásticos que ameaçam a hegemonia familiar e empresarial de Logan Roy são sabotados de maneiras substancialmente iguais, ambas envolvendo Kendall, uma mais no começo e outra no final da temporada. Ainda que, se vistas separadamente, as duas construções sejam perfeitamente críveis, o uso delas em um intervalo tão curto de episódios faz a luz amarela ligar, avisando que talvez pudesse haver uma outra saída para o problema que não precisasse requentar trama já usada.

Igualmente, há um problema de “arma de Chekhov” que parece que Armstrong começou imaginando uma coisa, mas acabou mudando de ideia no meio, abandonando o fio narrativo. Trata-se da aguerrida negociação da compra do site Vaulter pela Waystar Royco capiteneada por Kendall como artifício escolhido pelo showrunner para imediatamente fornecer ao espectador um retrato preciso do inseguro personagem, além de servir de porta de entrada para o escorregadio investidor Stewy Hosseini (Arian Moayed) na série, personagem que, apesar de pouca participação em frente às câmeras, é essencial para a temporada. A questão é que a Vaulter, apesar da forma como seu fundador Lawrence Yee (Rob Yang) reage, é imediatamente colocada no banco de reserva, nunca utilizada como deveria ser, talvez com a intenção desse elemento ser utilizado no futuro, mas cuja falta de desenvolvimento, aqui, incomoda bastante pelo destaque que o assunto tem no início.

Por outro lado, o elenco encabeçado por Brian Cox, que constrói um mais do que ardiloso Logan Roy, é de fazer os olhos brilharem. Cox está fenomenal, algo que já era esperado do veterano ator, mas, no meio do pessoal mais novo, apesar do grande foco da temporada ser em Kendall, que é vivido por Jeremy Strong de maneira muito eficiente, mas que exige tempo para o espectador acostumar-se com suas nuances, para mim os três grandes nomes são os de Kieran Culkin, Sarah Snook e Matthew Macfadyen, com Nicholas Braun correndo por fora. Culkin faz um Roman complexo, que imediatamente se mostra muito capaz tecnicamente, mas muito mais capaz ainda em sua maneira camaleônica de se adaptar à maré, o que torna o personagem talvez ainda mais detestável que Kendall, ainda que a competição seja feroz. Snook é uma espécie de femme fatale ruiva altamente inteligente e manipuladora até a raiz do cabelo que quer firmar-se sobre suas próprias pernas, jogando um jogo perigoso e complexo que lida com interesses francamente opostos a partir do momento em que passa a trabalhar para Gil Eavis (Eric Bogosian), moldado como um Bernie Sanders talvez caricato demais – o que destoa um pouco do restante dos personagens, devo dizer – mostrando toda a elasticidade de sua moralidade. Macfadyen impressiona com seu Tom, uma mistura de bobo apaixonado com executivo maquiavélico que parece inocente em uma mistura que transita entre o alívio cômico e a manipulação subliminar que é quase impossível descrever. Finalmente, Braun, apesar de ter um tempo de tela relativamente pequeno nesta temporada (imagino que ele crescerá já na segunda), sai de um completo inocente que sequer demonstra saber falar ou se portar em ambientes que a camada “superior” de sua família transita e chega a um discreto manipulador que se aproveita das mais diversas situações para colocar-se em posição de vantagem, doa a quem doer.

Succession encanta ao fazer o espectador odiar praticamente todos seus personagens e mais ainda por saber fazer a conexão desse mundo bilionário com o mundo, digamos, real, de pessoas comuns. Jesse Armstrong não só criou um drama que desnuda o que em tese poderia ser chamado de “primeiro escalão da humanidade”, deixando evidente suas gravíssimas doenças e podridões nos mais variados níveis de desenvolvimento, como também nos permite olhar para o lado – ou para o próprio umbigo, o que é pior! – e perceber que determinadas atitudes que vemos na telinha não é restrita a essa inalcançável elite da elite.

Succession – 1ª Temporada (EUA – 03 de junho a 05 de agosto de 2018)
Criação: Jesse Armstrong
Direção: Adam McKay, Mark Mylod, Adam Arkin, Andrij Parekh, Miguel Arteta, S. J. Clarkson
Roteiro: Jesse Armstrong, Tony Roche, Jonathan Glatzer, Anna Jordan, Georgia Pritchett, Susan Soon He Stanton, Lucy Prebble, Jon Brown
Elenco: Brian Cox, Jeremy Strong, Sarah Snook, Kieran Culkin, Matthew Macfadyen, Nicholas Braun, Alan Ruck, Hiam Abbass, Peter Friedman, Natalie Gold, Rob Yang, Dagmara Domińczyk, Arian Moayed, J. Smith-Cameron, Mary Birdsong, Molly Griggs, Justine Lupe, Scott Nicholson, Swayam Bhatia, Quentin Morales, Ashley Zukerman, James Cromwell, Darius Homayoun, Eric Bogosian
Disponibilidade no Brasil: HBO
Duração: 571 min. (10 episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.