Crítica | A Pequena Orfã (2001)

Seu nome completo é Arcangela Felice Assunta Job Wertmüller von Elgg Espanol von Brauch. Ela foi assistente de direção de Federico Fellini em , dirigiu o seu primeiro longa-metragem com incentivo do próprio diretor, e foi a primeira mulher a ser indicada a um Oscar de Melhor Direção. Seu nome artístico é Lina Wertmüller, diretora italiana famosa por realizar obras com temáticas fortes, alto grau de humor ácido e crítica social. Formada no teatro, muito da dinâmica do palco permanece em seus filmes, especialmente nos do final da carreira. Após a fase áurea de seu trabalho (anos 1970, quando dirigiu obras como Amor e Anarquia, Mimi, o Metalúrgico e Pasqualino, Sete Belezas), a diretora entrou em uma fase de filmes pouco memoráveis, retornando às boas produções já no final dos anos 1990, com Fernando e Carolina. Seu primeiro projeto nos anos 2000, Francesca e Nunziata (2001), adaptação do romance homônimo de Maria Orsini Natale, foi ambientado entre o final do século XIX e início do século XX, destacando-se como uma de suas melhores produções.

Francesca e Nunziata recebeu o título de A Pequena Órfã aqui no Brasil, o que dá a impressão de que o filme centra-se apenas na vida de Nunziata, a órfã adotada pela vigorosa princesa Francesca. Mas a trama vai muito além. O foco é a família Montorsi, acompanhada durante um longo período de tempo, no qual percebemos as fraquezas das relações familiares e amorosas, a exposição social do nome e da felicidade da família – quando na verdade não se está tão bem e feliz –, e até mesmo as relações de classe ou as típicas imposições e negócios de casamento. Um drama com forte sabor melodramático e linha feminista de abordagem, muito bem dirigido, mas que traz um mortal problema em sua constituição: a longa duração em linha cronista que termina enfadonha. Muita coisa no corpo da obra poderia ser trabalhada de forma elíptica (algo que a diretora usou à exaustão, mas não nos momentos necessários), e não comprometeria em nada o entendimento do público.

Como já aludi antes, Francesca e Nunziata conta a história da princesa Francesca Montorsi (Sophia Loren, magnífica), casada com o príncipe Giordano (o ótimo Giancarlo Giannini, colaborador de longa data de Lina Wertmüller), que adota uma garota para cumprir uma promessa. Dona de uma fábrica de macarrão, Francesa é a personificação da mentalidade burguesa trabalhadora, empreendedora, gerente dos negócios financeiros da casa e das decisões absolutas da família. O contraste com o personagem de Gianini é fortíssimo. Este, nobre de nascimento, vê-se aos poucos em conflito com a posição de destaque da esposa, e o orgulho ferido faz com que a relação do casal se abale profundamente e conheça sua maior crise.

É interessante observar o conflito ideológico entre a nobreza e a burguesia italiana em fins do século XIX. A pompa, a crença no “direito divino” e o ócio da nobreza ressente-se do dinamismo burguês, e isso levará o nobre Giordano a conflitos internos gravíssimos. Por ser adaptação de um romance, o telefilme conserva (até pela duração) grande parte da carga literária, seja nos diálogos, seja no modo como as sequências e os diferentes episódios da família acontecem, sendo o desmantelamento dessa instituição (emocional e financeiramente) um deles. A carga teatral e mesmo operística da adaptação (assim como Franco Zeffirelli, Wertmüller está ligada à ópera) tem um charme visual encantador, ajudado pela belíssima direção de arte. Grandes quadros renascentistas e românticos estão espalhados pelos cômodos da grande propriedade dos Montorsi. Os móveis, a decoração da casa – dos lustres ao piso – foram muito bem escolhidos e contextualizados, e ajudam a criar o impacto de toda essa glória em relação à miséria que a matriarca conhecerá no desfecho do drama.

O casal Sophia Loren e Giancarlo Gianini possui um entrosamento maravilhoso. Na primeira parte do filme, quando conversam sobre o amor e a opinião que um tem do outro, o espectador é tomado pela poderosa fluidez e veracidade com que ambos se relacionam, se olham, entonam a voz e se tocam. É realmente um espetáculo. O segundo casal protagonista, interpretado por Raoul Bova e Claudia Gerini não faz feio diante dos veteranos, compondo muito bem a parte romântica e dramática de suas personas. O elenco de apoio dá o ar da graça de um filme típico italiano, onde a família é o corpo central da vida – e aqui, família não é apenas os “de sangue”, mas também os agregados, empregados da casa, amigos, etc. E sendo família Montorsi o centro da obra, é justamente pelo bem dessa família que o casal Nunziata e Federico renunciará o amor proibido. Pelo bem da família e por ao outro, cada um dos protagonistas renuncia a sua própria felicidade e a sua vida. A crise da instituição familiar é pontuada de diferentes modos, desde a representação pública da imagem até os esforços para que essa representação mantenha-se. Amor, dinheiro, orgulho e crise existencial aparecem como uma avalanche no final, e o clímax desse estado é o diálogo entre Francesca e Nunziata, a sequência mais imponente do filme e uma das mais emotivas e firmes atuações de Sophia Loren.

Salvo o impasse do tempo, Wertmüller merece o louvor pela segura direção de atores e por conseguir representar os diferentes tempos da saga dos Montorsi, inclusive, fechando o último diálogo com um motivo dado logo no início – recurso simples de narrativa, mas que aqui, emociona e funciona muito bem. A cultura italiana na passagem para o século passado nunca foi tão bela e instigante, e mesmo que, em detrimento de si, os personagens realizem os desejos da família e não os seus, eis um ponto para que pensemos e discutamos o poder e até onde alguém deve curvar-se às obrigações morais pelo bem da família.

A Pequena Órfã (Francesca & Nunziata) – Itália, 2001
Direção: Lina Wertmüller
Roteiro: Elvio Porta e Lina Wertmüller
Elenco: Sophia Loren, Giancarlo Gianini, Claudia Gerini, Raoul Bova, Carmen Femiano, Domenico Orsini, Vanessa Sabet, Moira Grassi, Luciano De Crescenzo, Armando Pugliese, Massimo Wertmüller, Enzo Cannavale, Paolo De Giorgio, Maria Zulima Job, Lola Pagnani
Duração: 125 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.