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Crítica | A Teia da Viúva Negra

por Davi Lima
282 views (a partir de agosto de 2020)

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Caiu na Teia. – Natasha Romanoff, vulgo Viúva Negra (edição #5 de A Teia da Viúva Negra).

A minissérie A Teia da Viúva Negra é uma verdadeira música silenciosa, em que a harmonia vai se revelando em um terceiro ato em que motifs e leitmotifs se tornam um tema da Viúva Negra para ser reconhecido. Isso é uma bela descrição para o trabalho de Jody Houser com a Marvel para restruturar a personagem Viúva Negra após a folha em branco que uma clone da Viúva Negra com as memórias da original pode significar, e como significou para a ótima história escrita pelas irmãs Soska. Porém, é preciso restabelecer a personagem para aventuras distantes dessa folha em branco que não define personalidade ou identidade canônica para uma marca dentro da editora. E é desse jeito que com realismo e estereótipo vão se dinamizando para formar uma teia de aranha providente para o leitor nessa minissérie.

Volta-se a personalidade silenciosa, sem recordatórios coloridos nas páginas que mostram os pensamentos internos de Viúva Negra, e volta-se o passado dela da Sala Vermelha, e alguma outra justiça geracional para criar um mistério considerável no valor silencioso da abordagem da protagonista. Não se baseia apenas num estilo, pois a escritora Jody Houser junto com o ilustrador Stephen Mooney usam a ausência verbal dos balões para brincar com o tempo e com a “invisibilidade” que uma espiã forja para si. Se com as irmãs Soska a base dramática da Viúva tem pontapé com a presença de Capitão América, Jody é mais ousada em usar o Homem de Ferro como isca na armadilha de Natasha, reaproveitando o estereótipo da personagem para vislumbrar um essencialismo imutável e indiscutível, mesmo para uma ser humana sobrevivente como clone após ressuscitar as memórias da Viúva original. Esse é o centro dramático de Jody, não a natureza redentiva que a violência justificada que as Soska bem trabalharam em Jogo Sem Restrições

Para que essa identidade de Natasha seja a centrífuga a que se definir e se firmar na narrativa da história da A Teia da Viúva Negra, tanto o conflito da história se faz na mimetização de alguma personagem com a figura da Viúva Negra, que a imita incriminando-a, como a linguagem mais realista impregnada na ilustração de Stephen e na colorização soturna de Triona Tree Farrell delineiam a proporção do corpo da protagonista no espaço silencioso e vagaroso na movimentação sequencial dos quadrinhos. Em suma, a contextualização cuidadosa e até lenta de preparação dos planos da personagem centro da história dão a ponte para os movimentos bruscos da espiã russa que apenas o leitor vê no meio da multidão de pessoas desenhada nas páginas. 

A aparição do personagem de Soldado Invernal, ou de algum personagem Marvel do seu passado, é a pausa para Natasha Romanoff lembrar de algo e formatar nas páginas uma verdadeira Discussão de Relacionamento. É uma constante exposição da vida da protagonista nessa toada cadenciada, com uma cena de ação mais elaborada na diagramação para desafogar alguma morosidade, assim como quebra-se a expectativa quando se espera que Natasha vai perder o controle ao ver sua nêmesis misteriosa piscando para ela. A centrífuga gira em torno de si para liberar a internalização para fora, mas isso na verdade é só para o leitor que Jody Houser parece desenvolver um silêncio barulhento de um mistério em crescente envolta desse passado da Viúva Negra. 

Está ficando mole com a idade? – Yelena
Mais Eficiente. – Natasha

Mas ao invés de mostrar pistas sobre o desvendar do mistério, a história contada em A Teia da Viúva Aranha só se torna um drama de encruzilhada ainda mais realista, imergindo na mente da Viúva Negra. Dessa forma o tom realista e o formato de uma HQ com poucos diálogos remetem cada vez mais a desagregação duvidosa de um corpo e uma mente. As irmãs Soska valorizaram o corpo da arma viva, dando impactos dramáticos mentais após assassinatos e reações a consequências não planejadas. Já Jody Houser dirigindo o roteiro da história de Natasha torna a mentalidade e o trauma do passado algo muito mais palpável e menos dito. É uma compreensão melhor da forma do que só da temática constante nas histórias da russa imortal. Tanto que as descrições sobre a protagonista são muito mais de policiais e outros personagens que vão incrementando um chamariz para o leitor. 

Dentro da editora se conhece a fragilidade de tratar de certos personagens sem a aparição de outros conhecidos, sem um crossover que se estampe na capa, nem que por uma referência, como o arco e flecha que se refere a Gavião Arqueiro. Assim, esses personagens, como já foi citado com Soldado Invernal, ou até mesmo quando aparece Yelena Belova, são os verbos que vão conjugando o silêncio de Natasha em sua desconfiança de si mesma e dos fantasmas do passado que são ilustrados literalmente nas páginas como reforço temático e personificado no drama da protagonista.

Enfim, a descoberta do mistério vem a partir de uma dor de uma flecha e um passado do legado da Marvel recontado sobre a origem da Viúva Negra como referência clássica para novos leitores. A junção da roteirista Jody parece ser um projeto fechado e dramático para apartar desconhecedores da protagonista da melhor maneira artística: contar uma nova história. Se torna impressionante como o realismo ilustrado por Stephen Money põe lógica em todos os movimentos, desde Natasha colocar sua mochila verde no chão a pegá-la na página seguinte, ou até mesmo como o uso de Demolidor na história, assim como as cenas de ação, delimitam com quadrinhos precisos na diagramação a narrativa explícita do que se conta nos desenhos. No caso do Demolidor, um super-herói cego, é a relação da dúvida sobre a Viúva ser a Viúva de fato, em vista que o conflito da história é a identidade de Natasha sendo roubada, em que as ondas do cardiograma são centrais na página também para dar peso dramático ao leitor. E num exemplo de cenas de ação, quando Yelena e Natasha lutam juntas o recorte da página entre duas cenas de ação, seguindo o vetor dos movimentos dela, há um traço preto grosso dividindo os quadrinhos entre duas cenas de ação na diagonal. Tanto no caso de Demolidor como nesse exemplo de diagramação mais concreto, dão a voz visual que o roteiro de Jody abdica de verbalizar. Por isso a relação dela com a Marvel nessa ideia de mostrar o passado de Natasha como uma retrospectiva junta a uma narrativa dramática acaba por funcionar por ter sido criada essa dimensão maior da imagem contar a mente da Viúva. Logo, uma flecha ou um tiro que a Viúva Negra leva é a tensão para um terceiro ato ou para uma descoberta, pois é um símbolo de dor que Natasha não pode conter o silêncio.

Confiança é como qualquer outra ferramenta. Eficaz se você sabe usá-la. – Natasha Romanoff falando para Tony Stark

Assim, a Marvel consegue um reboot com uma escritora que sabe a proporção de um diálogo e de uma revelação na hora certa. A grande sagacidade de Jody é saber como tornar o estereótipo de Viúva um silêncio para assim revolucionar a interação da nova Viúva Negra com a nova fase da Marvel, com os Vingadores mais antigos após Império Secreto. Com muita mais movimentação no mundo dos X-Men, ao menos em quesito a sagas, essa minissérie A Teia da Viúva Negra é singular fora dos volumes seriais da marca da personagem Viúva Negra para restaurar os Vingadores com a Viúva Negra, não ao contrário. Porque se toda a narrativa era sobre a dúvida sobre a identidade da Viúva, de tal modo que uma revisão nas cinco edições da minissérie podem ser necessárias para saber quem é Natasha e quem é a nêmesis secreta no jogo do tempo da diagramação; a brincadeira do mistério é a cajadada que pega dois coelhos, propondo para o leitor conhecer mais a protagonista russa como também abordar uma leitura de efeito duvidoso quem é de fato a Viúva Negra. 

Eis a conquista de um trabalho harmônico editorial que dá um outro passo positivo na história da personagem dentro da Marvel Comics, que luta contra si mesma para se descobrir.

A Teia da Viúva Negra (The Web of Black Widow | EUA, 2020)
Contendo:
A Teia da Viúva Negra (2019 – 2020) #1-5
Roteiro: Jody Houser
Arte: Stephen Mooney
Cores: Triona Tree Farrell
Letras: Cory Petit
Páginas: 112

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