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Crítica | Viúva Negra: Jogo Sem Restrições

por Davi Lima
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jogo

A morte não leva os velhos, leva os maduros – Donnie Baba Yaga – PROVÉRBIO RUSSO

 

Após a passagem revigorante de Mark Waid e Chris Samnee na linha Viúva Negra na Marvel Comics, a editora dá mais um trabalho autoral para valorizar a personagem, agora para as cineastas Jen e Sylvia Soska. Com um realismo, envolvendo violência, palavrões e tragédia física, as irmãs escrevem cinco edições, compiladas no arco Viúva Negra: Jogo Sem Restrições, que reacende Natasha Romanoff para os dias de glória de uma protagonista que beira ao anti-heroísmo, se assumindo uma assassina clássica em busca de redenção em um mundo aterrorizante e tecnológico que se justifica pelos atos mais torturosos.

Da mesma forma como as roteiristas irmãs Soska escrevem uma carta ao leitor na penúltima página, após o “continua” para o gancho da próxima edição, a caracterização da Viúva Negra em Viúva Negra: Jogo Sem Restrições realmente entrega ao fandom da personagem a liberdade de ver uma assassina, uma famme fatale sem amarras dentro do universo Marvel. Com um precedente da saga Império Secreto para compreender como as roteiristas arranjaram a personagem em uma situação favorável para escrever sobre a ex-espiã russa, a relação estabelecida com Capitão América no começo da história é definitiva para idealizar Natasha no auge, sem passado com que se preocupar e sem dívida com ninguém para fugir, apenas com ela mesma e seus instintos de ajuda. 

Ao lado de Steve Rogers original enfrentando cópias dele que divulgam ditadura, sem matar capangas e segurando a vontade assassina de Nat matá-los, é a dinâmica buddy cop introdutória para cada um seguir a vida após uma missão. Quando Steve fala como ela é espiã e por isso consegue lutar sem ser vista e reconhecida, a única limitação narrativa para a personagem no começo, as cenas de ação com Viúva misturam o balé russo com a precisão de agilidade com olhos vendados que um treino de artes marciais orientais faria. Junto a isso as irmãs Soska engrenam uma voz mais irônica e reativa com palavrões de Natasha como uma personagem além, buscando um desafio. E parece que é isso que o arco propõe, uma injustiça horrenda demais em Madripoor num Jogo Sem Restrições que a assassina, não vingadora ou heroína, da Marvel intriga o leitor para vê-la no próximo fatality usando disfarces com um tapa olho como Nick Fury e um véu de luto. 

A grande força das irmãs Soska escrevendo é que elas parecem ditar definitivamente toda a harmonia envolta da escrita delas, colocando uma empolgação nas palavras de Natasha e um excesso de agilidade na narrativa que a diagramação de Joe Caramagna se comporta harmonicamente. Com uma ilustração e o acabamento de Flaviano Armentano, ele parece se inspirar no traço grosso e no muito uso do preto como John Romita Jr. gosta de desenhar, mas nunca perdendo o timing para dramas pontuais, ou medo de colocar a personagem em segundo plano para seguir a história, tornando a espiã escondida no quadrinho para ela captar informações para o leitor. Tudo fica extremamente ágil, em que os poucos quadros mais centralizados com Viúva sempre há uma dimensão narrativa a mais com ângulos diferenciados, dando ênfase emocional após ela destruir um homem violentamente, ou obscurecendo-a com muito sombreamento para dar um de misterioso. 

Desse jeito o arco vai colocando Natasha como experiente e irreconhecível, se tornando uma lenda de Madripoor em pouco tempo, mesmo com vários personagens da Marvel como Dente de Sabre, Barão Zemo, Treinador e até Madame Máscara. A impressão é que as irmãs Soska não apenas conseguiram a liberdade genuína de trabalhar com a personagem que elas amam como elas sabem bastante da mitologia Marvel. Elas chacoalham referências que vão agregando linguagem própria a Viúva Negra a todo momento, em que cada recordatório parece um empurrão de empolgação dramática nas páginas que lemos os pensamentos de Nat. 

A trama da história envolve a “inescrupulência” envolvida com vilania trágica que violentou crianças em chamado Jogo Sem Restrições, tornando o ar violento da HQ a composição vingativa e dramática de uma assassina que quer fazer justiça por crianças torturadas em vídeos num site de internet nesse jogo, semelhante a como ela foi torturada no passado da Sala Vermelha. Diante disso, a compreensão da personagem, nesse sentido, é grande o suficiente por parte das irmãs Soska para abstrair a imagem da ruiva Natasha para sustentar um disfarce de Natasha como Madame Máscara para entrar no lance de esconde-esconde de analistas e farejadores em uma festa de vilões Marvel para alcançar o possível grande vilão do Jogo Sem Restrições que ocorrem na cidade de Madripoor. A necessidade dessa contextualização é pela qualidade de escrita de Jen e Sylvia Soska que acometem escopo histórico em tão pouco tempo de arco que vai se acumulando sem didatismo. Por volta da terceira edição do arco propõe-se um cenário de suspense entre vilões da Marvel sem perder a agilidade no aumento do tamanho dos balões e a recorrência de diálogos muito maior que de ação. 

Por isso é preciso reiterar que há um elástico narrativo que enxuga enquadramentos, sintetizando ação em um quadrinho em movimento da personagem em profundidade para dentro da imagem e envolvimento dramático pela unidade que o roteiro de qualidade das roteiristas contém, facilitando a compreensão do que se deve ditar na ilustração por parte de Flaviano e a edição final de Jake Thomas. Fica difícil parar de ler com a criatividade na hierarquia de sequências de quadro em busca de mais informação do que Viúva Negra vai fazer, ou o que vai acontecer com ela. Mesmo que seus pensamentos em recordatórios acabem suprimindo questões visuais com descrições, há a troca por uma falta de visualização do contexto para o leitor para valorizar essa descrição na história, e também, mesmo quando isso não acontece, há um tom irônico e uma irreverência que mede o drama coerente para a personagem em situações difíceis. 

Assim, o arco consegue entregar muita violência e purgação emocional de traumas de toda a história de Natasha para o presente enquanto é torturada e depois mata os torturadores, ambos momentos com splash pages de ação e memórias, mas nada tão grande quanto o enquadramento frontal de Natasha chorando em frente a crianças salvas, ou na penumbra segurando uma criança no colo ruiva como ela. Nessa mesma proporção, sugerida por um roteiro que deixa migalhas para um plot twist sobre quem era realmente o vilão, mediante as impossibilidades de uma caridade tão bondosa de um hacker trabalhando para Viúva Negra, ou como ela tão perto do suposto vilão foi dispensada sem grandes tramoias do príncipe de Madripoor, as irmãs Soska colocam a personagem que eles tanto amam nas boas variações de roteiro, com disfarces, ironias, dramas para salvar crianças e reviravoltas na história com uma protagonista espiã que se torna uma arma viva em constante humanização.

A direção dramática no final é estranha, em que a personagem se revela cada vez mais assassina, porém inspira a outros lutarem, e até mesmo dar conselho para Steve Rogers não viver do passado, dizendo isso para o Capitão América, o homem do passado, quando ela como personagem em seu arco também busca um novo presente. As irmãs Soska ao menos sabem que a história que elas contam é na verdade um grande grito na noite, como a última página ilustrada por Flaviano. É uma personagem em essência difícil de se trabalhar em conceitos modernos e tecnológicos, entretanto as roteiristas conseguem escrever um vilão a altura de dilemas morais do mundo tecnológico, alguém que não sente culpa, o que causa um efeito dramático em uma protagonista que é vista como insensível assassina de um passado formado na espionagem russa para conter sentimentos, quando na verdade ela sente demais seus atos. 

Logo, parece que a missão do Jogo Sem Restrições da Viúva Negra representa alguma redenção emotiva e humanizante. Reinvocar Natasha como matadora necessitava de uma unidade artística com culhão para escrever algo recheado de ironia e com impactos dramáticos com bastante especificidade contemporânea. E para uma personagem que se disfarça e conhece a morte, salvar crianças provoca uma redenção atemporal. 

Viúva Negra: Jogo Sem Restrições (Black Widow: No Restraints Play | EUA, 2019)
Contendo: Viúva Negra Vol. 7 #1-5
Roteiro: Jen e Sylvia Soska
Arte: Flaviano Armentano
Cores: Veronica Gandini
Letras: Joe Caramagna
Páginas: 112

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