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Crítica | Abaixo de Zero (2021)

por Laisa Lima
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A expressão “abaixo de zero” remete, logicamente, a uma temperatura negativa. E, dentre os sintomas de se estar sob esta condição, o mais inevitável pode ser chamado de frio. Tal manifestação, entretanto, se balanceia conforme a atmosfera, conseguindo transformar-se em palco para um reino, como na conhecida animação da Disney, Frozen (2013), ou em motivo para catástrofe, vide Expresso do Amanhã (2013). Em relação ao longa-metragem de 2021 com um título diretamente ligado àquela frase do início do texto, Abaixo de Zero (2021), por sua vez, não trata o clima como seu protagonista, e sim como mise en scène

Para o policial Martín (Javier Gutiérrez) e os prisioneiros dentro de uma van que os transferia para outra prisão, a noite começou a se tornar tenebrosa a partir do conserto de um pneu furado. Na ocorrência, foi possível perceber que o deslocamento estava sendo sabotado e o automóvel, atacado. Por quê? Por quem? Para quem? São infindáveis perguntas. Contudo, uma uma evidência era clara: Martín estava sozinho em meio a criminosos que só não se tornaram fugitivos por medo do que esperar do lado de fora. Nesse mar de incertezas, o carcereiro tenta sobreviver ao desconhecido, aos bandidos e, ao menos preocupante, mas ainda assim desafiador, frio. Com estes sendo apenas alguns dos fatores adversativos propostos ao longo do filme, o ritmo de provações, seja de fidelidade, de sobrevivência ou qualquer outro, desencadeia um tom constante de indagações, não estando claro nem as intenções dos próprios personagens. 

O ambiente de cárcere não permite nem grandes demonstrações de amorosidade nem uma mínima exposição de fragilidade, tornando hostil cada indivíduo enquadrado – literal ou metaforicamente falando – lá. Com tal fato se aplicando na obra, a compaixão passa longe até das figuras encobertas pela lei (os policiais), que, em teoria, deveriam propagar um pouco mais de humanidade. Em vez disso, o descaso no tratamento e até na estrutura do veículo em que estão os encarcerados, é exposto sem medo de que o público fique à favor dos mesmos, já que a afeição por qualquer um dos participantes da película será conquistada, talvez, ao decorrer dela, cujo as motivações e os reais ideais de todos – ou quase – ali são postos à prova sem o rótulo de errados ou certos aos olhos moralistas. Estando, no início, bandidos e vigilantes, no mesmo nível, o enigma entre descobrir quem é vilão e quem está perto de ser um mocinho, abre margem para as únicas tensões que os unem: a de entender o motivo para o ataque e, posteriormente, a de encontrar uma saída pela tangente para escapar dele. 

Uma boa parte de Abaixo de Zero é passada no escuro, com poucas indicações guiando a rota do longa-metragem e, consequentemente, direcionando o pensamento do espectador. Vagando no espaço existente no local do conhecimento total dos integrantes do enredo, está o oculto, um protagonista que move todos os outros aspectos do filme, porém pouco se sabe sobre ele. Os passos que este “sem rosto” dá, todavia, são alvos dos maiores temores presentes na história, tendo o impacto derivado deles oriundos de uma bem construída priorização às incógnitas, fundamentadas tanto na nebulosidade das verdades dos personagens quanto nos acontecimentos envoltos em mistérios capazes de gerar palpites distintos. Os altos e baixos narrativos, no entanto, condizem com essa crescente e decrescente expectativa que, como resultado, exige propostas mantenedoras do fluxo do filme, que, por vezes, chega em ápices em inconstantes momentos.

Apesar disso, o trabalho de Quílez evoca o nervosismo do espectador, e como é necessário para se prolongar e se estabelecer imageticamente a aflição da audiência, a rápida montagem, bem exemplificada na cena em que a van onde estão os personagem é atingida por uma enxurrada de tiros e a câmera se alterna entre a marca do tiro e Martín, contém uma dinamicidade criadora de mais inquietação. Sabendo focar em um plano conjunto quando é requerida uma ação em conjunto e em um primeiro plano quando é algo mais sentimentalista, a fotografia tem noção do ambiente em que está e se aproveita disso. Com cores frias dentro do automóvel dirigido por Martín e tonalidades mais calorosas no interior do veículo, artifícios cênicos foram utilizados para a produção do ar dramático de thriller, como a luz do farol e da lanterna, concluindo que Abaixo de Zero sabia para onde estava indo, mesmo que, após isso, se perdesse em sua volatilidade e  vontade de surpreender.

Como fatores de charada, também estão os personagens. Um dos protagonistas – senão, o protagonista – Martín, de Javier Gutiérrez, é possuidor de um arco coerente e uma persona bem desenvolvida, com oscilações comuns em qualquer ser humano. Os demais contribuem com seus temperamentos particulares, como Pardo (Miquel Gelabert) e sua “sabedoria”, mas há poucos instantes nos quais é notado uma equipe formada pelas pessoas que na transferência se encontram, ou alguma espécie de parceria feita por elas para sair daquela situação. Os discutíveis dilemas que o filme carrega consigo, à visto disso, estão voltados para a individualidade prejudicial apresentada pelos prisioneiros, pertíssimo de uma falta de compadecimento, e, principalmente, para as dualidades éticas operantes na conjuntura vigente de Martín, uma questão, por si só, complexa, e assim tratada pela obra. 

O espanhol Abaixo de Zero é um filme com uma base no drama, um pé no terror e um seguimento que honra sua entrada no hall de bons longas-metragens do estilo policial. Com uma tensão frequente e pertinentes pareceres que cercavam seus personagens, a obra poderia ter engrenado mais se possuísse um roteiro mais estável, mesmo que na proposital instabilidade. Integrantes mais concisos, não tendo a personificação de uma boa elaboração apenas em Martín, auxiliariam igualmente na inexistência do vácuo conteudista que a película dá um pouco a entender. Ainda assim, é possível captar elementos trabalhados de forma eficaz, como a fotografia mutável e a sonoplastia clássica com as batidas do coração, para atingir um dos principais objetivos, que é a apreensão do espectador. Logo, os percalços vividos por Martín e companhia se fazem legítimos, embora fique claro que o nome do longa-metragem exponha o mais “fácil” deles.

Abaixo de Zero (Bajocero) – Espanha, 2021
Direção: Lluís Quílez
Roteiro: Fernando Navarro, Lluíz Quílez
Elenco: Javier Gutiérrez, Luis Callejo, Karra Elejalde, Àlex Monner, Édgar Vittorino, Isak Férriz, Miquel Gelabert, Patrick Criado, Carla Chiorazzo, Andrés Gertrúdix, Florin Opritescu
Duração: 106 min.

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