Crítica | Algo Sinistro Vem Por Aí, de Ray Bradbury

(arte: Tim McDonagh)

Double, double toil and trouble;
Fire burn and caldron bubble.
– Canção das bruxas (trecho), Macbeth

Ray Bradbury tem pouquíssimos romances, tendo se especializado muito mais em contos curtos variados. Em 1953, três anos após Crônicas Marcianas, uma espécie de reunião tematizada de material anterior publicado em forma de romance, ele escreveu Fahrenheit 451, seu efetivo primeiro romance e, logo de cara, obra que se tornaria um grande clássico da ficção científica e que provavelmente ainda é seu título mais conhecido. Em 1957 veio Licor de Dente-de-Leão, também formado de material pré-existente, com Algo Sinistro Vem Por Aí, seu segundo romance propriamente dito, publicado em 1962, com o autor, então, já tendo vários de seus contos adaptados para a televisão e com ele próprio diretamente enfronhado em Hollywood, com o roteiro de Moby Dick, de John Huston, no currículo.

Na verdade, Algo Sinistro Vem Por Aí, título retirado de Macbeth, teve sua origem justamente no gosto de Bradbury pelas engrenagens hollywoodianas. Em 1955, ele imaginou a história na forma de um roteiro feito especialmente para seu amigo Gene Kelly dirigir, trabalhando em um texto a partir de seu conto The Black Ferris (ou The Ferris Wheel) e de suas experiências de infância. Mesmo considerando a força de Kelly na época, o ator/diretor não conseguiu garantir o financiamento para a produção e, ao longo dos anos seguintes, Bradbury retrabalhou o roteiro, lentamente convertendo-o em um romance completo que mistura maravilhosamente bem fantasia com horror e que viria a inspirar grandes autores modernos como R.L. StineStephen King e Neil Gaiman.

Chega a ser impressionante imaginar o processo de mutação do texto da específica forma de roteiro, ou seja, confinado a requisitos formais próprios de uma produção audiovisual, para um romance literário, pois a leitura da obra é absolutamente fluida e elegante, com Bradbury imprimindo uma qualidade poética surpreendente às suas palavras, algo que não está presente, por exemplo, em Fahrenheit 451. É, de certa forma, como ler em prosa um poema de horror na linha de O Corvo, de Edgar Allan Poe, mas com um filtro de pureza infantil que encanta mesmo os leitores mais velhos como este crítico aqui. O autor trabalho muito com aliterações e com simbologia típica de obras que lidam com a passagem da infância para a idade adulta e mantendo os dois lados do conflito que se estabelece muito bem marcados entre o mal e o bem, sem os famigerados tons de cinza.

Na história, somos imediatamente apresentados a William “Will” Halloway e Jim Nightshade, dois melhores amigos de 13 anos, mas prestes a completar 14. Eles são como a noite e o dia, com Will sendo cuidadoso e levemente medroso e Jim sendo arrojado e ousado ao ponto de ser descuidado. Depois de receberem uma misteriosa visita de um críptico vendedor de para-raios que anuncia uma tempestade, os jovens envolvem-se com um circo itinerante que acabara de chegar à cidade trazendo atrações bizarras como um labirinto de espelhos que enlouquece as pessoas e um carrossel que vai para frente e para trás no tempo, tudo sob o comando do Sr. Dark, o Homem Ilustrado, com tatuagens que se movem em seu corpo e seu braço direito Sr. Cooger.

O horror da história vem do fascínio dos meninos pelos mistérios daquela trupe de seres esquisitos que parece enfeitiçá-los. Jim, em razão de sua personalidade, é o personagem mais suscetível a ser enfeitiçado pelo Sr. Dark e cabe a Will proteger seu amigo. No processo, vemos as crianças desbravando um mundo desconhecido, um literal mundo novo que os retira de sua bucólica zona de conforto na cidadezinha onde moram. Há muito de Conta Comigo nessa maravilhoso pequeno livro de Bradbury, mas, aqui, o autor é ainda mais eficiente que seu futuro seguidor em criar um nostálgico e simples mundo infantil em que só há o branco e o preto, o claro e o escuro, com Will e Jim tendo que sofrer na pele as dores do crescimento e da percepção de que seu dicotômico mundo é, na verdade, uma grande fantasia criada pelos adultos para protegê-los.

A alegoria de bem versus mal permeia toda a narrativa, mas sem ser óbvia ou explicada. Muito ao contrário, Bradbury sabe manter o mistério não de maneira tacanha e não solucionando-os com reviravoltas bobalhonas, mas sim prendendo a atenção do leitor com o ritmo de seu texto que trabalha o maravilhamento das crianças com suas descobertas. Há, também, muita atenção à família no texto, com Charles Halloway, pais de Will, ganhando papel ativo e decisivo a partir de pouco além da metade da obra, criando mais uma conexão importante. Se a amizade infantil é o ponto focal, Bradbury não se esquece de reservar tempo para a relação entre pai e filho, estabelecendo uma conexão respeitosa, mas terna entre Will e Charles.

Algo Sinistro Vem Por Aí é uma leitura envolvente e deliciosa tanto para jovens quanto para adultos, já que Bradbury consegue criar um pequeno universo em que as crianças que querem ser adultas e os pais que se lembram nostalgicamente de sua infância precisam dar as mãos para derrotar misteriosas e antiquíssimas forças do mal. Não há combinação melhor, não é mesmo?

Obs: Li a obra no original em inglês, pelo que não posso julgar se a tradução brasileira captura a mencionada poesia do texto de Bradbury.

Algo Sinistro Vem Por Aí (Something Wicked This Way Comes, EUA – 1962)
Autor: Ray Bradbury
Editora original: Simon & Schuster
Datas de publicação: 17 de setembro de 1962
Editora no Brasil: Editora Bertrand Brasil
Data de publicação no Brasil: 2019 (edição mais recente)
Tradução: Jorge Luiz Calife
Páginas: 266

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.