Crítica | Ameaça Profunda

Em um capítulo de seu livro O Que É Cinema?, o crítico André Bazin passa duas páginas teorizando sobre o simbolismo em torno da figura do mar dentro da sétima arte. Com seu particular brilhantismo, o francês afirma: "enquanto o céu lá em cima é quase vazio e estéril, [...] o espaço de baixo é o da vida, onde misteriosas e invisíveis nebulosas de plâncton refletem o eco do radar. Dessa vida não somos mais que um grão abandonado entre outros na praia oceânica. Dizem os biólogos que o homem é um animal marinho que carrega seu mar em seu interior. Nada de espantoso, portanto, que o mergulho lhe proporcione também o vago sentimento de volta às origens". Logo, as profundezas do oceano são como um outro lado da moeda da escuridão infinita do espaço. Por isso, não é absurdo dizer que Ameaça Profunda é como terror espacial, só que ambientado na água. Plano Crítico.

Em um capítulo de seu livro O Que É Cinema?, o crítico André Bazin passa duas páginas teorizando sobre o simbolismo em torno da figura do mar dentro da sétima arte. Com seu particular brilhantismo, o francês afirma: “enquanto o céu lá em cima é quase vazio e estéril, […] o espaço de baixo é o da vida, onde misteriosas e invisíveis nebulosas de plâncton refletem o eco do radar. Dessa vida não somos mais que um grão abandonado entre outros na praia oceânica. Dizem os biólogos que o homem é um animal marinho que carrega seu mar em seu interior. Nada de espantoso, portanto, que o mergulho lhe proporcione também o vago sentimento de volta às origens”. Logo, as profundezas do oceano são como um outro lado da moeda da escuridão infinita do espaço. Por isso, não é absurdo dizer que Ameaça Profunda é como terror espacial, só que ambientado na água. 

Todavia, não estamos aqui diante da já conhecida nave de Alien – O Oitavo Passageiro ou da estação espacial do genérico Vida (filme que me lembrou muito este aqui). Não é mais o homem explorando as possibilidades de colonização intergaláctica, mas esgotando os seus próprios recursos naturais. Este é o caso da empresa petrolífera de Ameaça Profunda, que possui uma estação subterrânea nos limites do Oceano. Como toda ação possui sua reação, a natureza parece responder àquelas agressões humanas. Portanto, um estranho evento causa uma explosão em grande escala naquele complexo e nós passamos a acompanhar a fuga de Norah (Kristen Stewart) e mais outros 5 funcionários (T.J. Miller, Vincent Cassel, John Gallagher Jr., Jessica Henwick e Mamoudou Athie) até as cápsulas de fuga. 

Inicialmente, me agrada que o filme siga uma simples lógica de video game, com os protagonistas apenas devendo chegar do ponto A ao B, sempre surgindo um obstáculo no caminho e com os famigerados checkpoints (as mini estações que eles param para carregar oxigênio). Aliás, se alguém já jogou o jogo SAMA (dos criadores de Amnesia), não vai ver nenhuma novidade aqui. Neste contexto gameficado, o diretor William Eubank consegue proporcionar minimamente uma experiência claustrofóbica com os close-ups ou os pontos-de-vista por dentro do capacete. Entretanto, os pontos positivos parecem parar por aí.

Primeiramente, Ameaça Profunda é um daqueles casos raros em que um único personagem é capaz de praticamente estragar todo o filme. Se você lembra vagamente de T.J. Miller em Deadpool, ele interpreta a si mesmo novamente, exagerando ainda mais em humor forçado e deslocado de todo o tom do filme, o que não chega a nem ser o principal problema, já que a piada que me deu vergonha alheia pode agradar outra pessoa. No entanto, o filme de Eubank se propõe a seguir uma narrativa em forma de terror atmosférico, exigindo uma construção de ambientação e total imersão do espectador. A questão é que a cada vez que T.J. Miller solta uma piada de cultura pop, ele consegue estragar todo o clima de tensão. Obviamente, quando você conseguir entrar de cabeça no filme novamente, ele irá soltar outra gag para estragar o momento. 

Voltando ao meu parágrafo inicial sobre o mar e espaço, o que torna esses ambientes tão assustadores é, muitas vezes, o medo do desconhecido. Justamente por isso, em diversos filmes, “menos se torna mais”, como no caso de Alien, no qual as situações mais assustadoras são quando imaginamos aquele bicho vindo pelo sensor. Infelizmente, Ameaça Profunda mostra mais do que devia perde muito de sua força como horror psíquico. Além disso, Eubank adota uma estética lovecraftiana, enquanto esquece fora a construção psicológica dessas histórias. Existe até um flerte com questões mais profundas através de uma narração em off da protagonista no início e fim do longa, mas que em nenhum momento encontra propósito além de um artifício barato. 

No fundo, o principal problema de Ameaça Profunda é que ele possui toda uma alma de filme B de terror, mas parece não aceitar isso. Não estou falando somente do alívio cômico personificado em T.J. Miller, mas a personagem vivida por Henwick é praticamente uma scream queen, que só está na trama para reagir às mortes com gritos. O próprio roteiro de Duffield e Cozad cria uma justificativa aleatória no início da trama para as duas personagens femininas passarem a maior parte do tempo de calcinha. 

No fim, fica essa indigesta mistura entre um terror psicológico atmosférico e uma galhofada de monstro a base de jumpscares. Uma pena que o primeiro, que parecia muito mais promissor, soa apenas como um grande artifício para o segundo. Do potencial imagético do mar e seus mistérios enunciados por André Bazin, Ameaça Profunda não entendeu nada. 

Ameaça Profunda (Underwater) – EUA, 2020
Direção: William Eubank
Roteiro: Brian Duffield, Adam Cozad
Elenco: Kristen Stewart, Vincent Cassel, T.J. Miller, Jessica Henwick, John Gallagher Jr., Mamoudou Athie
Duração: 95 min.

MICHEL GUTWILEN . . . Entusiasta da política dos autores. Antes de se preocupar com o tema do filme, sempre atento a maneira como o diretor articula o mesmo através de uma unidade estilística. Acredita que há coisas muito mais interessantes na arte a se falar do que furos de roteiros. Prefere que suas críticas sejam vistas como uma extensão a obra, ajudando a sua discussão após a sessão e propondo novas ideias, ao invés que sejam usadas como recomendação para ir ao cinema. Se inspira muito na Cahiers du Cinema. Admira muito o cinema de Alfred Hitchcock, Robert Bresson, Fritz Lang, James Gray, Naomi Kawase, Orson Welles e Pedro Costa. Reconhece Jean Gabin como maior galã do cinema.