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Crítica | Amor, de Clarice Lispector

por Marcelo Sobrinho
38 views (a partir de agosto de 2020)

Possivelmente nenhum autor do modernismo brasileiro, ainda que falemos da geração de 1945, com fortes influências do existencialismo, tenha mergulhado tão fundo no que há de mais misterioso e indescritível na vida humana quanto Clarice Lispector.  Do rato pisoteado na orla de Copacabana, em Perdoando Deus, à barata esmagada, da qual escorrem seus fluidos vitais, em A Paixão Segundo G.H., sempre coube à epifania clariceana a revelação de um mundo obscuro, ancestral e profundamente transformador. Não acho que a obra de Clarice apenas tente revelar a cegueira de um mundo autômato e alienado pela modernidade. Há algo muito mais profundo em suas epifanias. Algo que a escritora ucraniana apenas sonda, apenas vislumbra, mas jamais esgota ou explica completamente. Esses momentos epifânicos não trazem a compreensão, mas apenas oferecem as chaves para os personagens e para os próprios leitores entrarem em território perigoso.

No caso do conto Amor, pertencente ao livro de Laços de Família, o que se tem é a epifania do cego mascando chiclete, que atormenta e fratura a normalidade automática da dona de casa Ana, que o vê do bonde onde se encontra. Percebemos nesse conto alguns aspectos temáticos extremamente característicos da autora. Em primeiro lugar, não se trata de uma mulher infeliz, aviltada por uma realidade que a massacra ou que a aprisiona. O narrador deixa isso bastante claro quando declara: “Por destinos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como o tivesse inventado”. Ana está sim plenamente adaptada ao seu mundo de mulher de classe média, mãe e esposa. O bonde que a conduz pelas ruas do Rio de Janeiro não a conduz rumo à libertação e isso é um ponto precípuo na compreensão da obra. Ela é conduzida na verdade a uma ancestralidade que a desgoverna. É belíssima a construção imagética que Clarice esculpe no momento em que ela vê o cego mascando chiclete – o bonde freia bruscamente e sua sacola de ovos cai no chão, quebrando-os. Está consumado o corte. A fratura que inicia a epifania.

É maravilhosa inclusive a metáfora do próprio bonde, que freia bruscamente como se tivesse chegado à beira de um precipício, ao qual Ana é arremessada. Como grande amante dos cenários cariocas, Clarice leva a sua protagonista por uma viagem aterrorizante pelo Jardim Botânico, com o qual a escritora tinha uma relação bastante íntima. A peregrinação de Ana se dá por um mundo de estranhamento e de sensações contraditórias ou, como o próprio narrador nos revela, um mundo de “náusea doce”, de “riqueza apodrecida” e de “decomposição perfumada”. A experiência de tantos personagens clariceanos com a indefinição do real e com o esgotamento propriamente semântico para tentar decifrá-lo é uma dos cernes de sua obra e, mais uma vez, toda essa vivacidade é comparada a estar em um verdadeiro inferno. Em A Paixão Segundo G.H., temos uma das sentenças mais pujantes de sua obra: “É que um mundo todo vivo tem a força de um Inferno”. Em Amor, o caminho muda, mas Ana parece tocar a mesma matéria que G.H.: “O Jardim era tão bonito que teve medo do Inferno”. A inefabilidade demoníaca da vida se coloca outra vez.

A razão do título do conto não é menos misteriosa, mas pode ser compreendida se olhada de forma mais abrangente. Não se trata aqui de amor romântico. Trata-se de um certo amor pela vida, algo como um amor fati nietzscheano, isto é, amor enquanto entrega para o mundo. Entregar-se à existência em toda a sua dimensão, incluindo suas variadas questões que permanecerão sem respostas, é um ato de coragem e quase que de desvario. A transformação a que Ana se submete praticamente a coloca fora de si mesma e, quando ela “apaga a flama do dia” para finalmente repousar, o narrador onisciente revela que ela o fazia com “um gesto que não era seu”. Clarice encerra Amor mesclando o melhor de sua delicadeza com o mais terrível de sua investigação da existência. Essa é uma de suas obras em que o aterrorizante mais se mistura ao belo e Clarice demonstra isso com alegorias que vão se repetindo ao longo de todo o conto.

A obra de Clarice segue como um dos maiores desafios literários para qualquer leitor. Não por recorrer a eruditismos ou por utilizar uma linguagem excessivamente empolada, mas porque, em Amor, ela novamente não esconde suas pretensões nem um pouco metafísicas. A banalidade cotidiana de todos os acontecimentos desse, que é um de seus contos mais fundamentais, demonstra o seu apreço incansável pela aspereza do real (para usar uma de suas expressões mais canônicas, que encerra o conto Mineirinho). Amor só poder ser saboreado se for assim compreendido.

Amor (Laços de Família, 1960 – Brasil)
Autor: 
Clarice Lispector
Editora: Rocco
Número de páginas: 12

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