Crítica | Anaconda, de Horácio Quiroga

Escrito numa época de reflexões ecológicas em diversos campos da atividade intelectual humana, Anaconda, coletânea de contos do uruguaio Horácio Quiroga, reúne 19 histórias rodeadas de conflitos que trazem a natureza como elemento central ou tangente, força pulsante que mexe com o comportamento de personagens acossados pelas situações insanas a que são submetidos em suas trajetórias. Com temas voltados para os mistérios da floresta amazônica, em especial, a serpente que nomeia o conjunto, influenciadora o tempo inteiro, mesmo que de maneira subjetiva e alegórica, os contos flertam com desmatamento, energia nuclear, poluição, além da pulsão de morte do autor, figura respeita no campo da literatura que cometeu suicídio diante das pressões pessoais que o circundavam, reforçadas por seu passado de perdas e frustrações.

Lançado em 1921, Anaconda é uma coletânea que fala da agressividade das forças da natureza, uma presença que em muitos momentos, leva os personagens à perda da razão. É um ambiente selvagem que rege os seus comportamentos e promove a devastação psicológica e física, com narrativas atmosféricas construídas com base no realismo fantástico latino-americano, numa abordagem que deixa o leitor sempre à espreita de histórias conduzidas pela presença do exótico e do maligno que pode ser visto ou apenas sentido, a depender da má sorte de quem está inserido no bojo de pequenas histórias potencialmente assustadoras. Sabemos que não dá para atrelar apenas os acontecimentos biográficos de escritores ao seu material literário, mas o percurso sombrio da vida de Quiroga, envolto em mortes de familiares e amigos, ressoa nos desdobramentos de cada acontecimento dos contos, num feixe de “tramas do macabro”.

O escritor, considerado pela crítica literária como um dos expoentes do imaginário coletivo da cultura sul-americana, concentra as suas histórias dentro de um contexto específico de experiencias, isto é, Misione, na Argentina, região onde passou parte da sua vida, mas também expande a mitologia desta parte do continente, bastante ampla e muito particular em cada trecho de nosso território. A serpente, constantemente presente como recurso alegórico para a presença das forças do mal, é título do conjunto e também do principal conto, homônimo por sinal, envolvente história sobre um “congresso de serpentes”, material com potencial para o que a indústria cinematográfica transformou em subgênero do terror e dos filmes de aventura, o horror ecológico, narrativas que mesclam o contato entre humanos, animais e outras forças da natureza.

O conto epígrafe é, tal como exposto, a história que nomeia a coletânea, “Anaconda”, uma humorada narrativa sobre o encontro de várias serpentes, animal enigmático que há eras representa o caos e o celestial, o bem e o mal, o celestial e o infernal, dualidades típicas da cultura ocidental. De anatomia intrigante, estes seres são conhecidos por sua flexibilidade e capacidade de se enrolar em espiral ou círculo, com ações silenciosas e traiçoeiras, sem possibilidade de ouvir, fechar os olhos ou piscar, num deslize constante em busca do ato de comer que lhe trouxe a fama de devoradora e monstruosa. Amplamente presente na literatura e nas artes visuais, as serpentes desempenham no conto o papel de debatedoras do estado em que se encontrava a natureza, devastada pela força humana nociva em seus projetos de ampliação urbana e captação de grandes zonas selvagens para transformação em terreno industrial.

Tomadas por características humanas, as serpentes do conto apresentam sentimentos diversos, tais como inveja, ciúme, prepotência e até disputam poder, comparando-se em discussões sobre quem é a mais bela ou a mais forte, quem tem perfil de liderança, etc. É uma história que traz a figura humana para participar dos conflitos, mas sem coloca-lo como centro nervoso do que se desenvolve. A humanidade se oferta no desenvolvimento do conto como força destrutiva que preocupa tais representantes do mundo animal, seres que são fonte de horror desde sempre na trajetória evolutiva do homem, réptil que ocupou espaço central na conhecida e literária queda do homem. CEO das forças do mal, as rastejadoras criaturas são veneradas e odiadas, consideradas monstros perversos desalmados, mas também representantes do impulso, do conhecimento e dos mistérios que envolvem a nossa existência.

Enquanto estrutura, a edição analisada traz os 19 contos diagramados de maneira simples nas 181 páginas do livro, traduzido com eficiência por Angela Melim, versão lançada no Brasil em 1987, com capa assinada por Lena Trindade, pouco inspirada, quando comparamos com as tantas edições estrangeiras tão sedutoras quanto as serpentes do nosso imaginário cultural. Creio que Anaconda seja o conto que mais tenha me envolvido, por questões mais particulares e de direcionamento de estudos, mas não passamos incólumes por “Dieta do Amor”, “Na Noite”, “A Montanha Negra”, além de “O Vampiro” (sobre um homem que desenterra a esposa), “A Língua” (bizarra trajetória de vingança com desfecho diabolicamente sobrenatural), “As Raias” (paranoica narrativa sobre dois homens e suas obsessões), dentre outros.

Ademais, repleto de humor e muita subjetividade, Anaconda se oferta ao leitor como um conjunto de contos labirínticos, delirantes, com personagens mergulhados em situações que não permitem espaço para redenção, predestinados ao horror sem precedentes. A selva se apresenta como cenário ideal para os personagens perderem as suas identidades, escorregarem nas armadilhas preparadas para ceifar as suas vidas errantes, tangenciadas pela loucura constante. A serpente, repleta de simbolismo, emprega significados diversos, tais como a sua presença como linha condutora para o clima de insanidade a cada conto que atravessamos, além de ser a marca registrada do eterno retorno e da sedução diabólica. Enquanto leitores, a depender do envolvimento com as histórias lidas, sentimos a onipresença desta figura rica para os estudos literários, parte da intriga que envolve a humanidade desde os mitos bíblicos. Ela não precisa sequer ser mencionada, mas a sua energia lateja a cada ação dos personagens deste feixe de históricas curtas pouco convencional e bastante impressionante, tomado por enorme força política e literária.

Anaconda (Uruguai, 1921)
Autor: Horácio Quiroga
Tradução: Angela Melim
Editora no Brasil: Rocco (1987)
Páginas: 181

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.