Crítica | Caminhos Perigosos

mean-streets-planocritico caminhos perigosos

Ao som de Jumpin’ Jack Flash, uma câmera lenta se aproxima do irritado Charlie, personagem de Harvey Keitel, que se encontra sentado no bar mal iluminado e banhado por uma luz vermelha, mirando seu amigo Johnny Boy (Robert De Niro) que vem ao seu encontro com um sorriso no rosto e uma garota em cada lado. Trata-se de uma cena deste Caminhos Perigosos, filme de 1973 dirigido por Martin Scorsese e escrito pelo mesmo ao lado de Mardik Martin, no terceiro longa-metragem do cineasta e sua primeira parceria de longa data com Robert De Niro.

O filme acompanha o dia a dia de Charlie tentando ganhar a vida no submundo do crime de Nova York, enquanto se envolve com sua prima e namorada Teresa (Amy Robinson), mesmo que escondido de todos, inclusive de seu tio Giovanni (Cesare Danova), um poderoso chefão local. Charlie passa o tempo no bar de seu amigo Tony (David Proval), além de fazer pequenas coletas de pagamentos em nome de seu tio e ir ao cinema com seus amigos.

Ambientado em Nova York – mesmo que filmado na sua maior parte em Los Angeles –, Caminhos Perigosos facilmente é interpretado em algumas passagens como uma biografia de Martin Scorsese. O filme se passa no bairro de Little Italy (onde o cineasta cresceu), e as cenas filmadas nos ambientes externos, como nas ruas, têm um caráter quase que documental, o que, junto com os breves trechos retirados do festival religioso de San Gennaro, aumentam o tom biográfico da obra.

Mesmo com isso, o longa é uma obra que lida essencialmente com o crime e a religião pelas lentes já estilizadas de Scorsese. Hoje pode parecer fácil e até mesmo óbvio encontrar uma sequência como a descrita no primeiro parágrafo em filmes do cineasta, mas foi nesse trabalho que ele passou a chamar atenção pelos recursos de linguagem empregados na composição do universo visto nas telonas. E de fato, em Caminhos Perigosos o diretor exibe diversas de suas marcas registradas que viriam a estar intimamente associadas a seu nome: a excepcional trilha sonora marcada por clássicos do rock dos anos 1960 e 1970; a câmera lenta intensificando os momentos filmados; o amor pelo próprio Cinema, aqui ilustrado em cenas exibidas de clássicos como Rastros de Ódio; o uso da luz vermelha para traduzir a natureza dos personagens concebidos; e claro, a abordagem da religião católica.

Dentre todas essas características, a que mais se faz presente no filme é o uso do vermelho no bar de Tony (assim como a temática religiosa, que abordo adiante), que serve não apenas para indicar o mundo de crime que aqueles personagens habitam, como também para representar o desejo sexual de Charlie pelas mulheres do bar e por sua prima e namorada Teresa. Mas Charlie é um cristão assíduo que acredita que, como dito nas primeiras falar do filme na narração em off (feita pelo próprio Scorsese, evidenciando novamente o tom biográfico), “Você não paga seus pecados na igreja. Você os paga nas ruas. Você os paga em casa. O resto é besteira e você sabe disso”.

Assim, o desejo e o próprio ato sexual é encarado pelo personagem como algo errado, ou ainda, como pecado – afinal, logo após flertar com uma dançarina no bar e ao ouvir seu tio Giovanni pedir para não se envolver com Teresa (quando ele já o fazia), Charlie imediatamente coloca sua mão nas chamas de um fósforo e de um fogão, respectivamente, em uma espécie de penitência pessoal.

Também, é interessante analisar uma outra fala em off do personagem de Keitel, se dirigindo a Deus com relação ao Johnny Boy de De Niro: “Nós falamos em penitência e manda isso porta adentro. Bem, jogamos com Suas regras, não é?”. Essa fala é anterior à cena descrita no primeiro parágrafo desse texto, e ela permite interpretar que Charlie enxerga em Johnny Boy uma forma de penitência, desta vez pelos seus pecados com relação ao crime. Isso acontece pois Boy se trata de um sujeito inconsequente, que deve dinheiro para todo mundo, inclusive para o chefe do crime local Michael (Richard Romanus), e é Charlie quem sempre intermedia o encontro entre ambos e quem arranja as desculpas para o desleixo de Johnny, sendo este último praticamente um peso para o protagonista. Assim, Charlie chega a enxergar Boy como uma obrigação em certa altura, tendo em vista que ele é seu amigo e irmão de Teresa, sendo essa o interesse amoroso do personagem de Keitel. Portanto, mais uma vez, o conceito de família, muito forte dentro da religião católica, é abraçado por Charlie, servindo para explicar sua insistência em seu amigo.

Mas não que Charlie não tenha afeto por Boy – pelo contrário, o personagem de Keitel enxerga o garoto de forma afetuosa, quase que como um bagunceiro irmão mais novo, o que fica claro pelos puxões de orelha e pela maneira com que ele afaga o cabelo de Boy após uma briga entre ambos. E a relação entre a dupla (que pode ser vista como o principal chamariz do filme) é construída muitas vezes por brincadeiras infantis, o que acentua mais uma vez esse tom de irmandade criada por eles e a necessidade de cada um ser acolhido pelo outro. A falta de calor humano pertinente àqueles personagens, diga-se de passagem, ainda é acentuada por Scorsese em uma cena envolvendo Tony e um tigre. Por fim, a composição dos personagens por De Niro e Keitel é eficiente para o andamento do filme, com De Niro roubando a cena com seu Johnny Boy cínico, irresponsável e dissimulado.

Visto hoje, carece ao filme um ritmo e uma narrativa mais envolvente, algo que Scorsese viria a aprimorar no decorrer dos anos, mas Caminhos Perigosos abriu as portas para uma visão do crime organizado informal e rotineira, permitindo enxergá-lo como uma forma de sobrevivência – indo na contramão de O Poderoso Chefão, lançado apenas um ano antes deste –, além de firmar o cineasta como um dos grandes nomes do Cinema norte-americano a surgir em sua época.

Caminhos Perigosos (Mean Streets, EUA, 1973)
Direção: Martin Scorsese
Roteiro: Martin Scorsese e Mardik Martin
Elenco: Robert De Niro, Harvey Keitel, David Proval, Amy Robinson, Richard Romanus, Cesare Danova, Victor Argo, George Memmoli, Lenny Scaletta, Jeannie Bell, Murray Moston
Duração: 112 min.

LUIS EDUARDO BERTOTTO . . . Quando vi pela primeira vez Marty McFly viajar para 1955, passei a me interessar pelo fabuloso e caótico processo construtivo de um filme. Desde então, venho me fascinando e me surpreendendo cada vez mais pela composição das mise-en-scènes e a forma com que elas enriquecem o universo de uma produção cinematográfica. Não apresento restrições a gêneros e épocas – pelo contrário, apenas tenho uma leve queda pela explosão criativa dos anos 70 e possuo uma adoração descomunal pela obra de Scorsese. Em suma, um estudante de engenharia civil que, em meio à correria do dia a dia, encontra abrigo na arte das imagens em movimento e no som psicodélico e poético de Floyd.