Crítica | Candyman, de Clive Barker

Cinematograficamente, Candyman é um “personagem sensação” desde a sua gênese. Ganhou destaque positivo da crítica, algo difícil de se realizar por conta da decadência slasher que atravessou o final dos anos 1980, subgênero oxigenado apenas depois do surgimento de Ghostface. Sua popularização na era VHS e as exibições televisivas fizeram muita gente flertar com o espelho e dizer, temerosamente, o seu nome cinco vezes. Com exceção do “dizer” constante, verbo que mantém o mito vivo e regenerado para as gerações vindouras, a história de Candyman, como é de se esperar, difere-se do ponto de partida literário para atender às demandas específicas do suporte em questão. Ambas, então, complementam-se.

O conto foi assinado por Clive Barker, escritor inglês que além da carreira literária, desenvolve trabalhos na área das artes plásticas, do cinema e do teatro, fluxo de artes que entrelaçadas ao texto escrito, fornecem ao andamento da história uma impressionante estrutura audiovisual. As suas histórias são visuais, em especial, o conto que tornou Candyman parte integrante da cultura pop. Considerado pelos editores da Darkside Books como “um renascentista de nossos tempos”, Barker deu novo fôlego para a ficção urbana de horror. Influenciado por histórias bíblicas em algumas passagens mais famosas de seus textos, ele coloca-se, porém, como crítico ferrenho aos mecanismos das religiões organizadas.

Para Stephen King, espécie de “autoridade” no assunto, o futuro do horror foi visto enquanto contemplava um dos textos do escritor inglês. Será a história de Candyman? Enfim, lançado na revista Fantasy por volta de 1985, a macabra história de Candyman é destrinchada ao longo do conto The Forbidden, parte de coletâneas em publicações posteriores, dono de edições de luxo exclusivas após a popularização do personagem no cinema. Com ritmo fluente e dosagem calculada de suspense, Clive Barker entrega ao leitor a trajetória da pesquisadora Helen, mulher dedicada aos seus estudos e investigações sobre manifestações culturais periféricas, com projeto intitulado “Pichação: A Semiótica do Desespero Urbano”.

O seu trabalho em desenvolvimento no conto é o Conjunto Habitacional Spector Street, um local descrito como influenciador da coloração da grama que se nega a ser esverdeada, espaço com corredores encardidos, passagens que lembram cânions estreitos, em suma, um amontoado que só consegue ser contemplado em sua “totalidade” se visto “de cima”. Apesar de seu aspecto horrível, era o ambiente ideal para a pesquisadora captar material para a análise, escrita e desenvolvimento de sua tese. O que mais a fascina neste local, no entanto, é a imagem que a levará ao destino trágico, uma figura peculiar que se tornará fruto de sua obsessão.

Instigada pela imagem, ela decide captar mais informações sobre o assunto que se estabelecerá diante de suas visitas ao local. Segundo a lenda, algumas pessoas tiveram contato mortal com o mitológico homem dos doces, entidade com história complexa que ao ser destrinchada pelo discurso oral de algumas pessoas, começa a ganhar força para se tornar uma ameaça física. Mergulhada obsessivamente em sua pesquisa, uma estratégia formidável de Clive Barker para ampliar as dimensões da personagem, Helen começa a trilhar um caminho complexo de interpretação, pois situações bizarras gravitam em torno de seu cotidiano. O que antes era palpável, torna-se incerto no andamento do processo. Resgatado, o mito talvez não queira deixar de manter-se vivo na cultura popular, o que pode custar caro para a existência de Helen.

Inicialmente, ela é bem recebida por Ann-Marie, a morada que lhe narra as histórias. Instigada, Helen começa a vasculhar mais profundamente a área e traz à tona algo que os moradores desejam que fique enterrado para sempre, inclusive da memória. A tal imagem instigante é uma boca, utilizada como representação de um portal. Ao redor temos a imagem de um homem caucasiano e com roupas coloridas bizarras, juntamente com várias referências à doces. Mais adiante, as referências darão lugar ao assustador questionamento: “para que o sangue senão para ser derramado? A resposta, aguardada pelo homem com o gancho numa das mãos, é pura retórica do horror.

Parte integrante dos Livros de Sangue, de Clive Barker, Candyman é um personagem rodeado por um contexto social de tensões constantes. O que dizer do desenvolvimento do trabalho de Helen, isto é, a tradicional apropriação cultural branca? Escrito quatro anos após os conflitos em Toxteth, o conto tem a sua história situada em um ponto de habitação de Liverpool que difere dos cartões-postais da Inglaterra dos anos 1980. São discussões que ultrapassam a linha do entretenimento e o festival puro de horror para dar abertura aos debates sociológicos diante de uma lenda que se torna ponto nevrálgico para discussões raciais.

Ademais, tanto no filme quanto no conto, Candyman, como já dito, depende da crença para a sua permanência. Ele diz em algumas passagens que é “a escrita na parede, o sussurro na sala de aula”, sem deixar de ressaltar que “sem essas coisas, não é nada”. Reforça também, ao capturar momentaneamente Helen, que “nossos nomes serão escritos em mil paredes”, “nós morreremos juntos diante de seus olhos e lhes daremos algo a ser assombrado”. Basicamente, as afirmações de Candyman reiteram as reflexões sobre o poder e mistério das crenças e deuses diante de seus respectivos desaparecimentos.

Além do conto, há um esclarecedor posfácio de Carlos Primati, jornalista e especialista em tradução e análise de produções de horror. Dentre as suas observações      s ele aponta que a lenda existe em essência porque ela é narrada constantemente. A sua sobrevivência depende disso, principalmente da crença daqueles que a fazem manter-se viva. Tradicionalmente, a nossa cultura sempre regenera mitos. Isso é o que Clive Barker faz ao narrar a trajetória de Helen, pavimentação do caminho de um personagem que em suas ações, reforça a existência do “outro”, neste caso, o ser mitológico Candyman, mais vivo do que nunca no conto.

Apesar de Hellraiser ser a principal obra de Clive Barker, o conto e o filme sobre Candyman não ficam tão eclipsados pela equipe de Pinhead, feixe de personagens que tal como o homem dos doces, ganharam luxuosa edição pela Darkside Books. Ao longo de suas 122 páginas, o conto é revestido por uma capa clean com textura semelhante a um favo de mel. Com tradução eficiente de Eduardo Alves, a diagramação e estrutura, oriundas do projeto gráfico da Retina 78, tornam a leitura do material ainda mais atraente, dando força ao bom texto de Clive Barker, narrativa dinâmica, complexa, filosoficamente provocante e deliciosamente literária.

Candyman (The Forbidden/Inglaterra, 1985)
Autor: Clive Barker
Tradução: Eduardo Alves
Editora no Brasil: Darkside Books (2018)
Páginas: 122

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.