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Crítica | Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski

por Leonardo Campos
726 views (a partir de agosto de 2020)

Em O Homem Irracional, Woody Allen nos apresenta um protagonista desiludido, beberrão e frustrado com as suas ideias filosóficas. Numa busca por sentido em sua vida, Abe Lucas (Joaquin Phoenix) emula os pontos nevrálgicos do romance Crime e Castigo, de Dostoievsky, dando-lhe uma roupagem contemporânea e mais pessimista. O denso romance do autor russo já havia sido assimilado por filmes anteriores do cineasta, entre eles, Match Point – Ponto Final e Crimes e Pecados, ambos excepcionais, haja vista o alto teor de reflexão.

Woody Allen, no entanto, não é o único cineasta leitor de Dostoievsky. Há resquícios em Festim Diabólico, de Alfred Hitchcock. Mentiras Sinceras (de Julian Fellowes) e Caché (de Michael Haneke) também trazem as suas referências. O que todas as obras citadas têm em comum é a apresentação de personagens entre a linha da sonegação e da culpa, da civilização e da barbárie, do pecado e da redenção. Tais obras também possuem outro ponto em comum: leituras parciais ou diretas do romance de Dostoievsky, um dos mais conhecidos e lidos, clássico selecionado pelo estreito cânone literário mundial.

Em Crime e Castigo são muitos os temas: os centros urbanos com muitos contrastes sociais, a frieza da sociedade diante da miséria e da pobreza, a necessidade de reflexão sobre a reabilitação de pessoas que vacilaram no percurso da vida, isto é, cometeram crimes, além do tema central, focado na forma como as pessoas conseguem lidar com a culpa, um sentimento que pode ser corrosivo, a depender do grau de envolvimento e da situação.

Como aponta Bakhtin, o narrador muda de posição constantemente. Polifônico, o romance dá espaço para diversas vozes. Ao longo da extensa obra, criticada por alguns por ser um projeto muito moralista do escritor, acompanhamos a trajetória de Raskolnikov, um jovem estudante que durante um ato sem reflexão, dizima a vida de uma agiota que o pressionava. Os golpes de machado são desferidos contra a mulher que metaforicamente representa a opressão social. Será que o rapaz fez o bem para a sociedade, eliminando um ser humano desprezível e maledicente? As perguntas são levantadas constantemente, mas o rapaz perde a mão ao ter que eliminar outra senhora, uma testemunha, irmã da agiota, que para sua surpresa, estava próximo e viu tudo em detalhes.

Diante do crime duplo, o protagonista entra numa profunda crise. Ele leva a vida de estudante e mal consegue bancar as suas despesas. Depois de ter tomado dinheiro emprestado e não conseguido quitar a dívida, resolve eliminar a credora. Agora, com dois assassinatos nas “costas”, Raskolnikov encontra-se na linha entre contar a verdade ou carregar para sempre a culpa internamente, numa dor terrível, a da consciência. O que fazer? Nas investigações ele sai ileso, mas um agente policial o pressiona constantemente, situação que o leva a ficar cada vez mais nervoso.

Será preciso a chegada de Sônia, mulher “iluminada” e “imaculada”, catalisadora da nova ordem em sua vida, isto é, o caminho religioso. Ele confessa os seus crimes e condenado, passa oito anos exilado na Sibéria, preso numa penitenciária, levado a repensar a sua vida e aceitar o “caminho da luz”. Escrito num contexto histórico marcado pela desigualdade social e extensa pobreza na Rússia, o romance tem como pano de fundo o regime czarista que antecede a Revolução Bolchevique, uma época de efervescência e mudança de paradigmas.

Para a crítica literária, a obra é também grande influenciadora do avanço do gênero romance, um modelo relativamente novo e em transformação quando a trajetória de Raskolnikov foi publicada. Tratado como uma das obras mais conhecidas de Dostoievsky, juntamente com Os Irmãos Karamazov (considerado pelos críticos como o romance-síntese da sua vida) e O Idiota, Crime e Castigo é um material em potencial para debates e questionamentos acerca dos limites da moral e das leis, o livro é o resultado das reflexões do autor durante o período em que ficou exilado. Com caráter autobiográfico, o romance teve a sua concepção quando Dostoievsky foi preso pelo regime do Imperador Nicolau I, da Rússia, ao condená-lo por integrar grupo de conspiração contra a política hegemônica.

Confinado com assassinos, estupradores e outros criminosos, o escritor sentiu de perto a dupla camada que envolve os indivíduos que vivem “fora da lei”. Ao abrir precedentes para pensarmos no sistema coercivo que transforma estas pessoas, levando-as aos atos indesejáveis dentro de uma “ordem civilizatória”, torna-se necessário pensar também nos códigos que regem as leis e suas punições, perguntando-se sobre o seu real funcionamento e adequação, numa discussão que deságua nos debates sobre os Direitos Humanos, tema bastante polêmico e atual. Há vida após o crime? A ressocialização é algo coerente? Como punir um criminoso? Só há caminho através do trajeto religioso? Estas e outras perguntas pululam ao passo que a leitura de Crime e Castigo avança.

A crítica literária também reforçou que o romance conseguiu trazer para o popular, alguns temas considerados mais herméticos. Ao versar sobre o homem tomando decisões que estão acima da lei, num passeio tortuoso pela consciência de alguém abalado pelo crime que cometeu, Crime e Castigo encontrou ressonâncias nas obras de Freud, Sartre, Nietzsche, Albert Camus, George Orwell, Marcel Proust, Franz Kafka, Marcel Proust, Ernest Hemingway e outros autores de áreas como a Psicologia, Sociologia e escritores de narrativas existencialistas.

Além das releituras de Woody Allen, o romance ganhou numerosas traduções intersemióticas: Nina, filme brasileiro de Heitor Dhalia que se inspirou no livro para contar a história de uma moça pobre que tenta sobreviver numa desumana metrópole; Frank Sinatra protagonizou Confidências de Um Assassino, de 1959, dirigido por Dennis Sanders; o alemão Josef Von Sternberg comandou a versão de 1935; O Estudante, lançado em 2012, é a leitura  oriental, assumida por Darezen Omirbayev. Estes são alguns dos vários exemplares, dentre tantas produções audiovisuais inspiradas neste romance conhecido por influenciar narrativas que tratam de um personagem entre a culpa e a omissão.

Crime e Castigo (Rússia, 1866)
Autor: Fiódor Dostoiévsky.
Editora: Editora 34
Páginas: 620.

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13 comentários

Vinicius Maestá 21 de fevereiro de 2020 - 14:17

Sem querer te detonar, como muita gente na internet gosta de fazer, mas eu preciso fazer uma crítica sobre a sua crítica. Ao fazer o seu texto, você não expõe seu ponto de vista sobre a obra, apenas cita o que os críticos literários pensam sobre ela, ao passo que você também não usa isso como artifício para explanar seus pensamentos. Ficou me parecendo mais um artigo sobre a importância/influência da obra. Ademais você não cita os motivos para dar a nota relativamente baixa para esse clássico, não explica os pontos negativos que você encontrou para não achá-lo “tudo isso”.
Novamente, não quero ser ignorante como muitos pessoas que já partem para os xingamentos, mas talvez essa “crítica” deva ser revista. Abraço.

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leodeletras 28 de abril de 2020 - 17:37

Compreendo @vinicius_maest:disqus , mas este é o seu ponto de vista sobre a estrutura de uma crítica. Há várias maneiras de expor impressões sobre uma obra literária. A própria relação com os filmes que se aproximam e os questionamentos levantados já são características de um texto crítico. Já fiz textos repleto de adjetivos, mas não creio que tenha necessariamente de ser uma fórmula. Talvez não tenha contemplado a sua expectativa em relação ao romance que parece lhe dizer mais coisas do que pra mim. Bacana o seu ponto de vista educado de se expressar.

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André Ávila 11 de fevereiro de 2020 - 11:34

Adoro o livro até o fim, mas aí vem o epílogo e sinto um leve desapontamento (só a mim parece um tanto superficial a sua suposta conversão na última página?). Alguns momentos aqui são memoráveis e empolgantes como os confrontos entre Raskolnikov e seu oponente em inteligência, e suas famosas teorias sobre os homens extraordinários a quem o crime é permitido pela história e os homens ordinários que não devem cruzar tal linha.

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André Luiz M. de Oliveira 20 de maio de 2018 - 13:26

Não quero iniciar uma discussão que exceda a proposta da crítica e do site ou que encene a eterna briga livro x filme, contudo a obra de Dostoiévski é maior, mais significativa e fundamental para a Arte em si do que os melhores filmes que Woody Allen poderia conceber. Penso que este “Crime e Castigo”, assim como “Dom Casmurro” sofrem do mesmo ‘mal’: as pessoas, críticos e leitores, se baseiam nos dilemas manifestos de seus enredos ao invés de abordar o núcleo da obra, isto é, o crime inconsequente de Raskolnikov e o dilema da traição de Capitu. Ambos os livros são muito mais do que isto, porque as histórias abarcam não apenas a trajetórias de seus protagonistas como criam personagens coadjuvantes incríveis que só dilatam o alcance da obra. Se Raskolnikov busca uma redenção por seus crimes, é apenas pelo contato com Sofia, outra alma torturada que ele inicia este percurso, porque sem ela, ele se tornaria tão perdido quanto o protagonista de “O Estrangeiro”, de Albert Camus.

Penso que Woody Allen, em seus filmes que buscam inspiração na obra dostoievskiana, pincelam situações dramáticas, e mesmo que haja certo aprofundamento, ainda se apresentam um pouco melindrosas por não ir tão a fundo na psique humana e seus demônios internos como fizera Dostoiévski.

A discussão sobre a ideia de homem ordinário versus homem extraordinário nunca é devidamente encenada nas produções cinematográficas como é mostrada no livro e, para este humilde leitor, é o suprassumo desta obra literária.

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márcio xavier 16 de abril de 2018 - 14:46

Sobre o livro, vejam esse vídeo.. acho maravilhoso https://www.youtube.com/watch?v=RKwCqjP0V3o

e Crime e Castigo é um dos meus 10 preferidos. Mas entre os de Dostoiévski ainda prefiro irmãos Karamázov, principalmente o trecho do diálogo com o diabo.

Engraçado que ler Dostoivéski é algo desafiador no começo e viciante com o tempo. Crime e Castigo foi o meu primeiro e só parei depois de ler todos ou quase todos.

Responder
márcio xavier 16 de abril de 2018 - 14:46

Sobre o livro, vejam esse vídeo.. acho maravilhoso https://www.youtube.com/watch?v=RKwCqjP0V3o

e Crime e Castigo é um dos meus 10 preferidos. Mas entre os de Dostoiévski ainda prefiro irmãos Karamázov, principalmente o trecho do diálogo com o diabo.

Engraçado que ler Dostoivéski é algo desafiador no começo e viciante com o tempo. Crime e Castigo foi o meu primeiro e só parei depois de ler todos ou quase todos.

Responder
Rafael Martins 13 de abril de 2018 - 22:11

Meu Deus! “Plano Crítico” está se perdendo. Um clássico da literatura mundial pela crítica de um progressista!!!

Responder
Luiz Santiago 14 de abril de 2018 - 01:02

Quê???

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Luiz Santiago 14 de abril de 2018 - 01:02

Quê???

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Emerson Falcão 26 de maio de 2018 - 17:43

Isso.

Responder
IggyCiorano 6 de junho de 2018 - 16:51

“Os golpes de machado são desferidos contra a mulher que metaforicamente representa a opressão social”. Essa foi dura de ouvir! Que pobreza e que reducionismo!

O PC como site é ótimo – principalmente os textos do Ritter e do Luiz. Mas vou te falar…tem cada uma que me aparece…

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Dan Oliver 7 de abril de 2018 - 23:52

Existe uma adaptação cinematográfica russa de 1977

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JC 6 de abril de 2018 - 16:20

A cena inicial dele matando a senhora e ficando paranoico achando que todo mundo sabe o que ele fez, é simplesmente matadora e maravilhosa. Até hoje cito essa passagem quando falo de pessoas que mentem ou de traição num relacionamento.
É simplesmente fantástica.

Acredito que as cenas inicias de Psicose tenham se influenciado muito desse começo.

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