No seguinte compilado, você encontrará críticas de todos os indicados à categoria de Melhor-Curtas Live-Action do Oscar 2026. Leiam as críticas e mandem seu comentários!
Butcher’s Stain
O poder que um plano cinematográfico tem é potencializado pelo tema, ou pelo contexto desenhado numa sequência anterior. Aqui nesse curta sobre o conflito Palestina e Israel, o diretor, que também o personagem vilão do curta, chamado Meyer Levinson-Blount, diz o que necessita apenas com o constrangimento de um plano detalhe no ator Omar Sameer. E com esse mesmo plano é que Samir, interpretado por Omar, resolve sua vida, descobre seu universo, e seu ao redor é encharcado por opressão, quando o zoom se distancia, fazendo um plano geral.
O trabalho técnico aqui é intimimamente ligado ao tema. Não há uma separação, ou apenas uma mera ilustração. A duração de um plano detalhe cria suspense e constrangimento várias vezes, mantendo a dinâmica de desenvolvimento da história sobre a injustiça que um supermercado está fazendo em acusar um árabe por apoiar terrorismo. É com uma economia de planos, que entendemos que ele está pobre, que ele não consegue estar perto do filho, e o que mais importa no momento são os reféns de Israel.
Essa dinâmica do coletivo e individual fica ainda mais aprofundada na dinâmica paralela da guarda de seu filho. A relação que o árabe tem com as crianças mortas pelos bombardeios israelenses, acusado-o como pró-terrorismo, se finaliza na compreensão básica de que Samir é um pai. Nisso, o conflito dramático não necessita de desenvolvimento maior, se os temas coletivos estão intimamente ligados.
Das produções de curtas live action do Oscar 2026, que está maravilhosa a seleção, esse é um dos que mais encanta com o cinema e o tema como algo inseperável. Não se vale de melodramas, e sim da potência que o cinema consegue tornar uma história simples de um açougueiro em uma reflexão sobre a guerra.
Butcher’s Stain (Israel, 2025)
Direção: Meyer Levinson-Blount
Roteiro: Meyer Levinson-Blount
Elenco: Omar Sameer, Meyer Levinson-Blount, Rona Toledano, Dror Marko, Sara Raed, Oron Caspi, Eilon Cohen, Hadi Salama
Duração: 26 min.
A Friend of Dorothy
“A beleza dos jovens está na sua força; a glória dos idosos, nos seus cabelos brancos.” Provérbios 20:29. Apesar de ser uma história bem Oscar bait, dentro do mesmo desenvolvimento de Green Book ou Conduzindo Miss Daisy, e ainda ter abertura para discussões problemáticas sociais, que são aliviadas pelo melodrama, a força do curta está no teatro, na direção de Lee Knight em valorizar cada reação dos atores.
O tema da história é sobre o clássico aprendizado com os idosos, e remonta visões gregas de ensinar um personagem gay jovem a poder desfrutar do mundo, a partir de alguém mais maduro que apresenta o mundo, e a Judy Garland. Só de ter Bent (peça de teatro de Martin Sherman) como o deslumbramento do protagonista já diz muito, a níveis estratosféricos ao que a idosa Dorothy apresenta a J.J., o personagem principal.
Assim, mesmo que haja uma trama bem conhecida e clichê, há um texto extremamente bem interpretado e dramatizado, inegável de reconhecer que isso dá cores novas. Talvez a cena no supermercado tenha a dose Oscar bait, mas tem também um olhar cosmopolita da Inglaterra que contextualiza muito o cenário europeu. Se fosse para escolher entre uma história inventiva e uma história clichê bem dramatizada, sem dúvida o drama é o que torna icônico qualquer narrativa. E o curta acredita muito nisso.
A Friend of Dorothy (Reino Unido, 2025)
Direção: Lee Knight
Roteiro: Lee Knight
Elenco: Stephen Fry, Oscar Lloyd, Alistair Nwachukwu, Miriam Margolyes
Duração: 21 min.
Jane Austen’s Period Drama
Não basta usar ironia, fazer da fotografia de época ter ritmo na montagem e ter diálogos rápidos para dinamizar uma trama de Jane Austen. Emma de Taylor-Joy, Persuasão de Dakota Johnson, e tem o trabalho esquecido de Whit Stillman com Lady Susan, fizeram ideias legais, com tramas de época e com toques contemporâneos evidentes banhados de século XIX.
Stillman foi o mais ousado, em acelerar diálogos como uma acidez impenetrável da época, como um rasgo que não cria conflito fora do universo de Austen. Já o curta moderniza em outros parâmetros. É uma grande piada que usa Jane Austen como um teatro para criar constrangimento, não o contrário.
O cenário é apresentado de primeira, mas ao longo do curta a magia inverte os papéis de quem está modernizando quem. A cena pós-crédito envereda quase para um conto machadiano de realismo inescrupuloso, que Austen nunca escreveria, e por isso fica tão engraçado.
Jane Austen’s Period Drama (EUA, 2024)
Direção: Julia Aks, Steve Pinder
Roteiro: Julia Aks, Steve Pinder
Elenco: Julia Aks, Ta’imua, Samantha Smart, Nicole Alyse Nelson, Hugo Armstrong, Marilyn Brett, Dustin Ingram, Steve Pinder, Shirin Enayati, Elli Legerski, Barrett Hutchinson
Duração: 13 min.
The Singers
A história de The Singers, baseada no conto russo homônimo de Ivan Turguêniev, de 1850, do realismo literário, tem inspiração em relação às canções camponesas, dentro do contexto desprezível dentro da literatura na Rússia imperial do século XIX. Mas essa inspiração é bem livre, como pouco adaptada para a dinâmica de bar dos EUA. Assim, a direção de Sam Davis, por mais carregada que seja com o aspecto da fotografia 4×3 e analógica, para pegar os detalhes da vida de homens destruídos pelo tempo e amor, ela se finaliza com um humor anticlimático.
Não há a destruição do drama, porque de fato é posta uma competição de canção no bar, e por isso aqueles homens vão sendo transformados por finalmente falarem sem falar, por trocarem as conversas fiadas de bar por dores, amores e sonhos. Isso se encaixa muito com a proposta do diretor, por mais que quanto mais as músicas vão surgindo, a transição entre elas tem uma montagem estranha, sem muito esmero nos cortes.
Ainda que haja a tentativa de emular algo documental, pego por uma câmera e lentes vintages, com a Arricam LT analógica, quanto mais chega ao seu final, mais o curta soa moderno. Porém, entendendo uma adaptação livre, sem uma profundidade social da literatura russa, e um uso bem cuidado de tecnologia antiga para compor o cenário e clima, é inevitável a concretização da empatia por esses homens, bêbados, fedidos, que se abraçam, ainda. Quase um protesto antimachista, contra o silêncio masculino.
The Singers (EUA, 2025)
Direção: Sam A. Davis
Roteiro: Sam A. Davis, baseado no conto de Ivan Turgenev
Elenco: Chris Smither, Will Harrington, Judah Kelly, Matt Corcoran, Jim Donnelly
Duração: 18 min.
Two People Exchanging Saliva
Apesar de lidar de maneira bem diferente, o curta se aproxima muito do tema de Nelson Rodrigues sobre o Beijo no Asfalto. O beijo é tão simbólico, espiritual e carnal, que atravessa histórias tão distintas, que uma história como essa remonta ao clássico renascimento e ao romantismo, num limiar entre o erótico e o mitológico. Como o clima é alternativo, num universo paralelo, acaba procriando um dilema bem além do amor lésbico, mais evidente.
O cheiro, o ambiente do consumo, parece pertencer realmente a um universo feminino, dentro do mundo capitalista. A brincadeira de que homem não toma banho, ou acha que não se suja, perpassa pela temática de que as mulheres, por comprarem mais, sempre estão levando tapas. O curta se faz literal, com aberturas metafóricas totalmente naturais.
O que infelizmente não cresce é a dinâmica de presente e passado, alimentada pela visão do desejo, e a divisão de capítulos. Como a trama e a esquisitice são a atração, o tom capitular só reforça o fundamento mitológico de criação de universo, não infla o drama tão bem introduzido quanto ao medo do beijo.
Para manter o universo, o filme por vezes se cala. Por um lado, mantém o mistério do desejo não concluído — o pior drama de todos; por outro lado, apenas registra um ponto A ao B, da proibição à punição, e nada mais. Nisso, Nelson Rodrigues e as versões do cinema sobre sua história criam um universo paralelo pela discussão de algo tão único, envolvendo o beijo e a morte. Enquanto aqui, é só mais uma constatação de maneira criativa.
Two People Exchanging Saliva (França, EUA, 2024)
Direção: Natalie Musteata, Alexandre Singh
Roteiro: Natalie Musteata, Alexandre Singh
Elenco: Zar Amir Ebrahimi, Luàna Bajrami, Vicky Krieps, Aurélie Boquien, Nicolas Bouchaud, Mitchell Jean, Mustapha Abourachid
Duração: 36 min.
