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Crítica | Conduzindo Miss Daisy

por Ritter Fan
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Conduzindo Miss Daisy gerou polêmica por levar o Oscar de Melhor Filme (sem que Bruce Beresford concorresse a Melhor Diretor, algo que, até aquele ponto, não acontecia desde Grande Hotel, de 1932) em um ano em que Faça a Coisa Certa, de Spike Lee, provavelmente deveria ter concorrido na categoria em seu lugar, especialmente porque havia levado a premiação máxima no Globo de Ouro e por ser justamente um filme em que um homem negro passa toda sua duração obedecendo ordens de uma senhora branca. Se fosse hoje em dia – como aconteceu, aliás, com Green Book, que, coincidência das coincidências, tem a estrutura invertida, em que um branco é motorista de um negro – a grita seria muito maior do que foi, porém.

E o interessante é que, diferente do também polêmico longa de Peter Farrelly, que pelo menos carrega em seu cerne elementos narrativos que condenam abertamente o racismo, mesmo que não consiga realmente trabalhar o assunto como deveria, Conduzindo Miss Daisy é totalmente domado, sem sequer mostrar discretamente os dentes sobre a questão que permanece constantemente em um segundo plano mudo, escondido nos maneirismos e na grosseria simpática (se é que podemos chamar assim) da rica Sra. Daisy Werthan (Jessica Tandy que merecidamente levou seu primeiro e único Oscar, aos 81 anos de idade) e na obediência servil – e também simpática – de Hoke Colburn (Morgan Freeman em um dos dois papeis daquele ano que abriram de vez as portas para seu estrelato – o outro foi Tempo de Glória), depois que o segundo é contratado como motorista pelo filho da primeira (Boolie Werthan, vivido por Dan Aykroyd) quando ela bate seu carro.

O que segue é uma narrativa intimista de amizade hesitante e dependência benigna entre os dois ao longo de décadas que sem dúvida alguma se destaca pelas atuações de Tandy e Freeman e por um delicado trabalho de maquiagem e cabelo que acompanha o envelhecimento dos personagens de maneira fluida, ajudando a marca a constante, mas substancialmente invisível passagem temporal, algo que a montagem sutil e elegante de Mark Warner (Os Aventureiros do Bairro Proibido e O Sobrevivente) deixa fluir sem maiores percalços. O design de produção é absolutamente extasiante em seus detalhes da “evolução” dos cenários (em essência, a casa de Daisy), figurinos e, claro, dos carros, na medida em que os anos passam, sem, porém, quaisquer sinais de exageros, já que o cerne da história reside em uma senhor turrona e conservadora de seus hábitos quase que completamente inamovíveis.

Em outras palavras, em sua superfície, em suas atuações e em quase todos os aspectos técnicos, o longa consegue sustentar-se muito bem, o que, de certa forma, justifica a estatueta principal da cerimônia do Oscar de 1990. No entanto, o roteiro de Alfred Uhry, baseado em sua peça homônima, a primeira da chamada Trilogia de Atlanta, que conta histórias não relacionadas de judeus americanos no estado, não sai em momento algum do aconchego aparente que é a relação improvável de amizade entre os protagonistas, quase que completamente ignorando o subtexto racial que, como já mencionei, permanece presente, mas não verdadeiramente ativo.

E de forma alguma quero dizer que Uhry é insensível ao problema, até porque ele é judeu e não preciso falar sobre a perseguição sofrida por eles em razão de sua religião, mas o problema está na ausência de crítica ou, talvez, na manutenção da tensão racial em um nível tão simplificado que esvazia o filme de significados maiores do que uma história básica. É como se Uhry não quisesse entrar na controvérsia, com Beresford seguindo por exatamente o mesmo caminho e criando uma complacência narrativa que eu não enxergo em Green Book, só para usar novamente o exemplo mais óbvio de filme que é alvo de crítica semelhante. Isso de forma alguma desabona os trabalhos dramáticos de Tandy e de de Freeman e os elementos técnicos do longa, mas estabelecem Conduzindo Miss Daisy como uma criatura estranha que, se visto às lentes da época em que foi produzido ou hoje em dia, passa uma mensagem subjacente equivocada ou no mínimo pouco corajosa e confrontativa.

Conduzindo Miss Daisy sem dúvida enternecerá corações especialmente pela atuação premiada de Jessica Tandy, mas o filme, ao escolher a saída mais fácil, acaba permanecendo ali na fronteira entre o mediano e o bom exclusivamente pelo que o espectador consegue perceber de sua superfície. É uma pena que o longa não tente seguir uma estrada um pouco menos banal.

Conduzindo Miss Daisy (Driving Miss Daisy – EUA, 1989)
Direção: Bruce Beresford
Roteiro: Alfred Uhry (baseado em sua peça)
Elenco:  Morgan Freeman, Jessica Tandy, Dan Aykroyd, Patti LuPone, Esther Rolle, Joann Havrilla, William Hall Jr., Muriel Moore, Sylvia Kaler, Crystal R. Fox
Duração: 99 min.

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2 comentários

José Claudio 17 de abril de 2021 - 03:04

Talvez o filme não queira entrar profundamente na questão racial.
É um filme sobre amizade…onde um judeu e o outro negro.
A questão racial está lá…os policiais na estrada…a bomba na sinagoga….o jantar com M. Luther King…a empregada do filho…são coisas pequenas que afetam os personagens e precisam constar.
O filme não é sobre o preconceito…é sobre amizade.
É o mesmo que querer que John Ford fale dos índios em No Tempo das Diligências.

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planocritico 17 de abril de 2021 - 04:16

Pois é. Mas se não era para entrar na questão racial de verdade, então o motorista não precisava ser negro. Afinal, funcionaria da mesma forma como uma história de amizade entre dois brancos.

Mas não. O filme é sobre a amizade entre uma branca rica e um negro pobre em relação de subordinação que se passa na Geórgia, estado sulista dos EUA. Então sim, ele é sobre racismo. Ou deveria ter sido.

Abs,
Ritter.

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