Crítica | Faça a Coisa Certa

Todo cineasta tem “aquela” obra considerada a cereja do bolo. Dentro desse campo alegórico, Faça a Coisa Certa pode ser considerada a “obra” de Spike Lee. Não por seus elementos estéticos, superados em Malcolm X alguns anos depois, uma obra igualmente crítica e reflexiva, substancialmente mais bem elaborada em sua dinâmica visual. O que venho a apontar aqui é a atualidade visceral do discurso deste filme lançado em 1989, mas ainda muito relevante para discutirmos questões sociais do “agora”.

Na década de 1980, o cineasta fazia parte dos esquemas independentes de produção. Militante, Spike Lee chamou à atenção dos grandes estúdios, engajado diante da necessidade de um cinema que tirasse os negros da condição estereotipada que os filmes hollywoodianos insistiam em calcificar no imaginário popular. Mergulhado num contexto social conservador, gerenciado pelo governo de Ronald Reagan, conhecido por solapar direitos civis da população afroamericana, Spike Lee se debruça numa proposta de cinema interessada em refletir sobre o possível retorno dos estadunidenses ao clima político dos irregulares anos 1960.

Mesmo que seja relevante enquanto estudo de uma fase da história do cinema, as produções consideradas do Blaxploitation não eram consideradas como a comercialização de uma frente de realização cinematográfica negra crítica, pois muitos personagens e histórias estavam mergulhados profundamente na reiteração de estereótipos. Em suma, uma fase que ainda não refletia as necessidades da comunidade afroamericana no que diz respeito às representações no campo ficcional.

Assim, indo na corrente contrária aos filmes hegemônicos, Faça a Coisa Certa se estabelece na cultura, tendo recepção mista, mas propostas influentes que infiltraram no poroso tecido midiático do final da década de 1980, marcada pelo polêmico Mississipi Em Chamas, de Alan Parker, e pelo controverso videoclipe Like a Prayer, de Madonna, “discussões brancas” sobre a população negra. Dirigido e escrito por Spike Lee, a narrativa nos traz a seguinte estrutura: no dia mais quente do ano, as existências multiculturais de um “gueto” do Brooklyn entram em colapso.

A convivência nada harmoniosa entre negros, hispânicos, coreanos e italianos é permeada por exaltações constantes e relações guiadas por um fio tênue entre a tolerância e a intolerância, uma linha prestes a “ceder” diante de tanta pressão. Na “Rádio do Amor”, o DJ Love Daddy (Samuel L. Jackson) aconselha os seus ouvintes sobre a onda de calor que se aproxima. “Fique em casa ou acabará com um capacete de plástico na cabeça”, destaca o locutor para os ouvintes usuários de brilhantina.

Enquanto isso, Da Mayor (Ossie Davis) acorda e precisa lidar, sem muito humor, com o calor escaldante. Na pizzaria de Sal (Danny Aiello), do outro lado da rua, todos estão preparados para recomeçar mais um sábado de atendimento. O ar-condicionado encontra-se com defeito há dias, pois o responsável pela manutenção sequer apareceu para o conserto. Pino (John Turturro) e Vito (Richard Edson). Mookie (Spike Lee), o entregador de pizza, precisa lidar com o trabalho e com o calor de uma cidade que nas palavras da conselheira Motha Sista (Ruby Dee), vai “esquentar que nem o inferno”.

O clima fica ainda mais “quente” quando um conflito entre Radio Raheem (Bill Nunn), jovem que anda constantemente acompanhado de seu rádio num volume altíssimo entra em conflito com o dono da pizzaria, o que termina em tragédia, numa comprovação da mixagem indigesta de culturas e seus conflitos acirrados.

Além de ser alegórico para a narrativa, o calor abordado por Spike Lee se origina dos acontecimentos ocorridos na chamada “Seca de 1988”, período que ondas de calor, juntamente com vendavais de poeiras responsáveis pela devastação de plantações e numerosos incêndios em reservas florestais deram prejuízo considerável para o governo dos Estados Unidos. Na época, os gráficos indicaram uma média de 10 mil mortes em decorrência da onda de calor que durou 55 dias, algo registrado apenas em 1934 e 1936 no país. O cineasta aproveita esse subtexto para desenvolver a “onda de calor” nas relações multiculturais entre povos imigrantes que formam o melting pot estadunidense.

Conduzido musicalmente por Bill Lee, responsável por radiografar as reflexões contextuais por meio do som, Faça a Coisa Certa também conta com dois campos eficientes em sua estrutura narrativa: a direção de fotografia de Ernest R. Dickerson e o design de produção de Wynn Thomas. No primeiro caso, a captação de imagens oblíquas emprega o tom desejado para a história, numa ênfase ao clima de opressão fruto das tensões raciais. Conforme relatos de bastidores, algumas cenas são referências aos 45 graus do obturador, empregados por Orson Welles em O Terceiro Homem.

No que tange ao design de produção de Thomas, a organização é rigorosa e peculiar, principalmente na maneira como as cores dialogam com os conflitos dramatúrgicos do roteiro refinado de Spike Lee. O setor composto pelos figurinos de Ruth E. Carter e pela cenografia de Steve Rosse acerta nos detalhes, conectados veementemente aos conflitos narrativos. Observe as camisetas de Pino e Vito, filhos de Sal, da pizzaria. O mais próximo dos negros utiliza uma camiseta preta, enquanto o mais racista está sempre de branco.

No elucidativo A Cultura da Mídia, de Douglas Kellner, o estudioso da cultura aponta que Spike Lee faz no cinema o mesmo que Bertolt Brecht fazia no teatro: “dramatizar a necessidade de determinadas escolhas morais e políticas por meio de um quadro didático para o espectador”. Niilista e sem esperanças no futuro da condição negra num tecido social urdido por práticas de racismo e exclusão, o cineasta fornece os elementos para que possamos fazer uma reflexão sobre a temática, conjunto de circunstâncias que às vezes nos leva a crer que “não há quase nada a ser feito pelos afroamericanos”.

Diante do exposto, ao longo dos 120 minutos de duração, Faça a Coisa Certa critica as celeumas oriundas das relações sociais conflituosas e traça uma análise bastante coerente da política neoliberal dos Estados Unidos no período. O esquema não é muito diferente do panorama atual: em termos econômicos, bem como em suas relações internacionais, o país avançou vertiginosamente, mas quem são os grandes beneficiados dentro desta conjuntura? Os ricos e as grandes empresas, enquanto uma fatia extensa das chamadas “minorias” amargou com desempregos e estigmas sociais. Troque Reagan por Trump. Troque Faça a Coisa Certa por Infiltrado na Klan. Os esquemas políticos continuam, bem como as abordagens críticas.

Faça a Coisa Certa (Do The Right Thing, Estados Unidos – 1989)
Direção: Spike Lee
Roteiro: Spike Lee
Elenco: Danny Aiello, Giancarlo Esposito, John Savage, Ossie Davis, Paul Benjamin, Richard Edson, Ruby Dee, Samuel L. Jackson, Spike Lee
Duração: 120 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.